A mais recente publicação da chancela editorial FA.

O Homem-Grilo foi criado por Cadu Simões em 2000, tendo o seu visual sido desenvolvido por Ricardo Marcelino (falecido em 2015). O herói é o principal defensor de Osasco City – uma versão megalópole da cidade brasileira de Osasco, de onde Simões é natural – e suas histórias são uma sátira ao universo dos super-heróis. Estreou-se na internet no dia 8 de junho de 2000, tendo direito à sua primeira edição impressa no ano seguinte.

No aniversário de 20 anos do personagem, a chancela editorial FA publicou no mês passado, pela primeira vez, o personagem em Portugal, com bandas desenhadas ilustradas por Marcelino e Alex Rodrigues. A capa é da autoria de Will, o atual ilustrador das BD do personagem.

O Homem-Grilo foi criado no começo dos anos 90, quando eu tinha uns 11 anos de idade. Ele surgiu enquanto eu rabiscava no caderno durante alguma aula chata na escola. Sem pretensões nenhuma (muitos de vocês devem também ter um herói que criaram assim durante a infância).
Foi só no fim dos anos 90, com uns 17 anos, que coloquei na cabeça que queria ser quadrinista. Então resolvi resgatar aquele herói da infância. Como meu desenho não é tão bom, resolvi me dedicar só aos roteiros, e chamei meu amigo Ricardo Marcelino para desenhar as histórias.
O Homem-Grilo sempre foi um conjunto de contradições pra mim. A primeira delas é que quando comecei a escrever suas histórias, eu já não curtia mais tanto quadrinhos de super-heróis como na infância.
Conforme amadurecia como leitor, todo aquele maniqueísmo das histórias de super-heróis estadunidenses se tornaram simplistas demais pra mim. E a coisa foi piorando conforme amadurecia politicamente, pois o próprio conceito de herói passou a se tornar problemático.
“Infeliz a nação que precisa de heróis”. Essa frase do Brecht se tornou praticamente um mantra na minha mente, pois o ideal de sociedade que eu busco, que valorize a coletividade, a colaboração e o compartilhamento, não cabe a ideia de herói salvador que está acima dos demais.
Não bastasse tudo isso, o Homem-Grilo ainda era um super-herói construído no modelo do mercado de quadrinhos mainstream estadunidense, mas com histórias ambientadas no Brasil e publicado de forma independente e autoral. Existe personagem mais contraditório que esse?
O fato do personagem ser uma paródia me ajudou um pouco a encarar essas contradições. E com o tempo fui percebendo que essas contradições eram, na verdade, um movimento dialético em busca de uma síntese criativa.
Não que eu tenha alcançado essa síntese e resolvido as contradições, mas esse movimento dialético foi resultando numa história em quadrinhos cada vez mais antifascista no seu conteúdo e anticapitalista na sua forma.
Antifascista pois o Homem-Grilo não é um herói que se posta como salvador da pátria, acima da sociedade. Ele não luta apenas para proteger os fracos e oprimidos, mas para ajudar a fortalecê-los e empoderá-los diante de todas as opressões. seja de classe, de raça, de gênero, etc.
E o Homem-Grilo não pensa duas vezes em socar na cara vigilantes fascistas que se vendem como heróis. =D
Anticapitalista pois não encaro os quadrinhos do Homem-Grilo como mercadorias a serem vendidas visando a acumulação de capital (até porque não sou nenhuma grande corporação editorial como a Marvel ou a DC). A ideia é valorizar mais o valor de uso cultural e artístico das HQs.
Por isso que os quadrinhos do Homem-Grilo são distribuídos gratuitamente na Internet sob uma licença livre, que permite não apenas o compartilhamento, mas também a criação de obras derivadas (inclusive para uso comercial).
Aliás, algo que me alegrou nesses 20 anos de publicação do Homem-Grilo foi ver ele sendo usado por outros criadores para os mais variados tipos de obra. Foram ilustrações, HQs, animações, graffitis, artesanatos. Só não rolou games e filmes, mas não foi por falta de propostas. =)

– Cadu Simões (em Aniversário de 20 Anos do Homem-Grilo, 8 de junho de 2020)

Clique nas imagens em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Não importa quando, onde, ou quem, a jornada do herói é sempre a mesma, e isso inclui até mesmo um certo super-herói!
Carlos Parducci era um jovem como outro qualquer até ser mordido por um grilo radioativo (se é que os grilos mordem) e receber habilidades proporcionais às desse inseto, além do sensacional sentido de grilo (que ele não sabe para que serve, mas tudo bem). Carlos então resolveu fazer bom uso dos seus novos poderes e, assumindo o nome de Homem-Grilo, começou a combater o crime e a proteger os fracos e indefesos em Osasco City. Mas para ele, mais do que uma grande responsabilidade, ser o Homem-Grilo é uma grande diversão, principalmente quando se tem a oportunidade de chutar o rabo de vilões megalomaníacos que querem dominar o mundo (e está cheio deles por aí, mas… onde é que eu já ouvi isto tudo antes!).
Criação do argumentista Cadu Simões, o Homem-Grilo estava inicialmente destinada a ser um super-herói sério com aventuras online. No entanto, o bom-senso venceu, e o herói com aspeto cómico prevaleceu. O Homem-Grilo fez a sua estreia em 2000, na forma de uma dezena de tiras virtuais publicadas na internet, comemorando 20 anos de “carreira” que é assinalado também por esta publicação.

Cadu Simões (n. Carlos Eduardo da Silva Simões, em 14 de junho de 1982, em Osasco, São Paulo, Brasil) é historiador por formação e argumentista de banda desenhada. Iniciou-se na BD em 2000, publicando de forma independente tanto pela internet quanto em publicações impressas. O seu primeiro trabalho, e o mais conhecido, foi o Homem-Grilo, personagem cuja utilização autorizou em 2008, através de uma licença Creative Commons. Algumas das suas outras BD são Nova Hélade (que revisita a mitologia grega num cenário fantástico-futurista) e Acelera SP (uma ficção distópica ambientada numa São Paulo cyberpunk). Também escreve argumentos para o Sideralman e o Demetrius Dante, ambos personagens criados por Will.
Em 2008, foi premiado com o Troféu HQ Mix na categoria de Roteirista Revelação. Em 2016, lançou a revista Cosmogonias, uma antologia de algumas de suas BD curtas.
Em 2007, fundou o Quarto Mundo, um coletivo que possuía a função de distribuir, divulgar e fomentar a produção de BD independentes no Brasil. É integrante do coletivo de autores de BD Petisco, que, entre as suas atividades, realiza a publicação periódica de BD na internet para leitura online e gratuita. Também possui a sua própria chancela editorial de BD, a Aedo Edições.

Homem-Grilo
Cadu Simões, Ricardo Marcelino, Alex Rodrigues
Editora: FA
Páginas: 58, a preto e branco
Dimensões: 150 x 210 mm
ISBN: 9781716922558 | 9781716563379 (eBook)
PVP: 13,30€ (eBook: 3,99 €)

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.