A elegância e beleza de Sete Para a Eternidade, Livro 1.

De uma forma ou de outra, na nona arte, como em muitas outras áreas, haverá sempre favoritismos. Não é necessariamente algo mau, mas se há um artista, um argumentista ou uma dupla que se destacam no seu trabalho e que agradam bastante, é apenas natural que o leitor comece a procurar mais dos seus trabalhos ou se torne até um seguidor.

Esta característica vai também moldar as escolhas de edição das próprias editoras. Em Portugal, podemos associar este modelo de escolha também, quer a autores, quer a editoras originais, ou mesmo a certos universos e certos personagens.

Hoje dou destaque à dupla criativa: Rick Remender e Jerome Opeña.

Uma das mais recentes publicações da G. Floy no nosso país foi Sete Para a Eternidade, Livro 1. Com esta edição, a G. Floy adicionou uma nova série ao seu catálogo que se trata de um claro seguimento à conclusão de publicação da série Uncanny X-Force, completada pela editora portuguesa no ano passado. Também nessa série, Remender e Opeña, foram a dupla que protagonizou a autoria da série, sendo que algumas vezes vimos Opeña a alternar com diversos outros artistas, como a Marvel já nos habituou em grande parte das suas séries.

Não diria que a G. Floy tem investido mais em artistas do que em séries, por assim dizer, mas nalguns casos não podemos deixar de reparar no evidente favoritismo. Refiro-me a autores como Jeff Lemire, Cullen Bunn ou Mark Millar, além da dupla Ed Brubaker e Sean Phillips (que tem sido também um dos seus mais populares investimentos).

A série Sete Para a Eternidade começou a sua publicação original em 2016 pela Image Comics e foi em junho deste ano (2020) que a G. Floy nos fez chegar a edição portuguesa que compila os primeiros nove números da série.

Quanto a mim, já ansiava por ter um pouco mais de Rick Remender no mercado nacional. É, sem dúvida, um autor que tem vindo a ganhar cada vez mais destaque na banda desenhada, principalmente na Image Comics, onde acaba de lançar um novo título muito esperado (The Scumbag).

Sete Para a Eternidade tem tido uma publicação demorada nos Estados Unidos, com longas paragens entre os diferentes arcos. Assim, podemos esperar uma demorada adição do segundo (e último) livro a ser editado no nosso país, visto que a série começa em novembro a publicação do quarto volume norte-americano, ainda com o número 14.

A escolha de compilar dois dos TPB originais num só livro (#1-#4 + #5-#9) foi, a meu ver, bastante acertada e já vimos esta decisão ser tomada antes na G. Floy com a publicação do quinto volume de Outcast, por exemplo. Não creio que esta decisão deva ser tomada para todas as séries, mas num caso como o de Sete Para a Eternidade em que os volumes são relativamente curtos, vejo esta compilação como uma mais valia para o leitor e, consequentemente, para a editora.

Sete Para a Eternidade é uma série que desejava muito conhecer ainda antes da edição portuguesa, mas, por algum motivo, foi sendo sempre adiada. Assim, com a edição da G. Floy fiquei sem desculpas e soube logo que tinha de adquirir este primeiro livro. Em suma, foi uma aquisição muito feliz.

Nesta saga de fantasia, Remender aproveita para traçar um universo magnífico, colorido, cheio de influências de Tolkien, por exemplo, mas também de um lado mais virado para a ficção científica. Trata-se de uma fantasia madura e por vezes cruel.

A premissa tem muito pouco espaço para o humor, tornando o ambiente por vezes pesado. Há questões muito interessantes a serem exploradas. Aqui o autor toca em diversos temas como a discriminação ou o racismo num universo distópico. Várias questões morais são apresentadas, mas a ação nunca fica em falta.

Para embelezar esta série, a arte de Jerome Opeña é nada menos que magnífica. A criatividade artística é excecional e temos então um universo completamente novo, com criaturas espetaculares de grande detalhe e cuidado. O trabalho de Opeña não podia ser mais claro, não só como ilustrador da obra, mas como seu criador. As cores nunca ficam atrás e o currículo de Matt Hollingsworth encarrega-se de apresentar a sua merecida reputação. Sete Para a Eternidade é um livro artisticamente muito interessante e deveras lindíssimo.

A edição da G. Floy está bastante gratificante, como a editora nos tem já habituado. Quer na capa dura, na qualidade do papel ou até na galeria de extras, com capas alternativas da série e ainda rascunhos e estudos dos personagens por Opeña, o livro 1 encontra-se bastante completo e bonito. A legendagem pareceu-me também bastante bem, sem erros ou problemas a deparar, se bem que não tive referência à obra original.

Nos números 7 e 8, temos uma mudança de artista, em que Opeña cede o seu papel a James Harren e, embora a arte não se enquadre tão bem no universo a que fomos habituados até ao número em questão, Harren desenvolve um trabalho satisfatório e que não priva o interesse da leitura. O seu traço traz um certo sentimento cómico que não parece encaixar na premissa, mas a sua arte não deixa de ser brilhante.

Com isto, espero ver uma maior aposta da G. Floy no trabalho de Remender, que tem muito ainda por explorar e que tem já um leque vasto de diferentes séries publicadas, principalmente na Image Comics, em nome próprio. Como referi anteriormente, a segunda e última parte de Sete Para a Eternidade tem uma previsão para a publicação um bocado atrasada, mas esperemos que isso não faça a G. Floy perder a vontade de a terminar e, acima de tudo, não tire aos leitores a vontade de conhecer a conclusão, de que estou certo valer a espera.

Talvez possa parecer exagerado referir esta obra como a publicação do ano no catálogo da G. Floy, mas ao meu gosto pessoal não restam dúvidas…

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…