Como a BD reflete os anos 60/70.

Eu comecei a ler bandas desenhadas quando tinha 6 anos. Tinham-me oferecido o primeiro volume da coleção Super-Heróis DC Comics, editada pela Levoir. Não me recordo exatamente do primeiro número que li, mas só sei que me fascinou e, desde aí, comecei sempre a ir a todas as papelarias de Lisboa à procura de banda desenhada, seja de super-heróis ou da Turma da Mónica.

Nessa coleção, eram sempre privilegiados, obviamente, os super-heróis mais populares da DC (Batman, Flash, Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha e Batman), mas volta e meia, aparecia, ou uma edição da Liga da Justiça, ou de um personagem com menor protagonismo, como o Arqueiro Verde ou o Lanterna Verde.

Desses dois super-heróis, já tinham sido lançadas uma edição para cada um, Os Caçadores (Arqueiro Verde) e Origem Secreta (Lanterna Verde), e na altura, essas eram as minhas histórias preferidas da coleção (sem serem as do Batman). Entretanto, eu já tinha começado a ler várias outras histórias do Arqueiro e do Lanterna nas antigas revistas brasileiras da Abril que ia encontrando.

Por isso, eu poderia dizer que o Lanterna Verde e o Arqueiro Verde eram dois dos meus super-heróis favoritos, uma escolha estranha para uma criança de 6-7 anos, e também não muito prática, pois encontrar histórias dos dois não é muito fácil.

E um dia, estava eu a ir para a papelaria comprar o volume do mês, e para minha surpresa e felicidade, o volume daquele mês era: Arqueiro Verde e Lanterna Verde, Inocência Perdida, da autoria de Denny O’Neil e Neal Adams. Escusado será dizer, que, quando cheguei a casa, a primeira coisa que fiz foi ler a história.

E eu não podia acreditar no que estava a ler, não, a sério, o que é que eu estava a ler? O Arqueiro e o Lanterna estão sempre a discutir sobre coisas que eu não entendo, as pessoas ficam chateadas com os heróis, os vilões não têm collants coloridos e roupa justa, o pupilo do Arqueiro consome drogas…

Sim, eu não gostei muito da história à primeira leitura. Se leram, devem imaginar porquê – não é uma história para uma criança de 7 anos ler e entender.

Fazendo um flash forward de 5 anos, depois de uma pausa de uns bons 3 anos, o meu interesse por bandas desenhadas de super-heróis renova-se, e eu começo a reler as minhas bandas desenhadas de super-heróis. Mas pelas recordações que eu tinha desta história, deixo-a para último, e, se me perguntarem, não poderia ter feito melhor escolha.

Na segunda leitura, mais do que 5 anos depois, eu já estava muito mais capacitado para ler esta história, mas já que eu falei tanto dela, é melhor falar sobre o que trata para os que não se recordam bem dela ou não a leram (spoilers, já agora).

A história começa com o Lanterna Verde a fazer patrulha nas ruas de Star City, e, enquanto sobrevoa a cidade, vê um homem ser empurrado e insultado por um rapaz. O Lanterna, fazendo o seu trabalho de polícia (galáctico no caso), prende o rapaz com os seus poderes e manda-o para a esquadra; no entanto, as pessoas que estavam a assistir ao distúrbio não parecem muito felizes com o “salvamento” do Lanterna e começam a agredi-lo.

E aí, aparece o Arqueiro, que estava de olho na situação há algum tempo, e explica tudo ao Lanterna…

Ele mostra ao Lanterna Verde as condições em que as pessoas vivem e explica que o homem que o Lanterna “salvou” era o senhorio do prédio degradado, e que ele iria despejar todas as pessoas do prédio para fazer um parque de estacionamento. O Arqueiro, visivelmente revoltado, diz ao Lanterna Verde que ele não se importa com aquelas pessoas, ao que o Lanterna responde: “Calma… (…) Só fiz o meu trabalho!”.

No meio da discussão, um senhor idoso intervém, e diz: “Tenho lido muito sobre si… Como trabalha para os de pele azul… (…), ajudou os de pele laranja… (…) Só que há um tipo de pele com que nunca se preocupou. Os de pele negra!”.

Após o senhor ter terminado de falar, o Lanterna fica perplexo e pergunta como é que ele pode ajudar. O senhor diz que só ele sabe como e que acredita que ele quer mesmo ajudar.

Então, o Lanterna vai falar com o senhorio, e, quando o confronta, é logo mandado sair por seguranças, ao que o Lanterna reage negativamente, e mesmo quando vai dar um soco no senhorio, é interrompido por um Guardião do Universo, que o chama para se apresentar em Oa, o planeta dos Lanternas Verdes..

Em Oa, o Lanterna Verde é repreendido pelos Guardiões, que dizem que o senhorio “(…) não cometeu nenhum crime”, e é-lhe mandado fazer um trabalho galáctico desnecessário, enquanto que, na Terra, o Arqueiro confronta o senhorio, mas sem resultados…

No dia seguinte, o Arqueiro Verde e o Lanterna Verde decidem a melhor tática para prender o senhorio, e, quando decidem, põe o plano em ação. No final, o Arqueiro e o Lanterna conseguem enganar o senhorio e acabam por prendê-lo…

Como viram, esta história está muito politicamente carregada, e o resto da série original não é diferente…

O Arqueiro e o Lanterna veem de tudo: revoltas populares por falta de direitos dos trabalhadores, um professor psíquico obcecado por ordem, dependência de drogas, luta ambiental com direito a messias e alusões a Cristo, racismo… Todas as histórias estão inseridas nos lugares mais negros, mas ao mesmo tempo mais comuns da América, desde centros urbanos até ao interior dos Estados Unidos.

É quase que um Easy Rider da banda desenhada. Aliás, são contemporâneos, mas regressarei a isso mais tarde.

No entanto, acho que para perceber bem esta banda desenhada é importante entender os personagens que participam nela. O Lanterna Verde é um dos membros fundadores da Liga da Justiça mas nunca teve tanto destaque como os outros. A série mensal dele estava prestes a ser cancelada e foi esta run que salvou a linha do personagem.

O Lanterna Verde, nesta história, continua a ser o herói incorruptível de sempre, mas, face a várias situações, muitas vezes não consegue reagir da melhor maneira. Com todo o poder que tem, não consegue ajudar toda a gente; e, por outro lado, a sua confiança em demasia nas autoridades e instituições é, provavelmente, a sua maior falha. Mas, felizmente, temos o Arqueiro para apontar os erros do Lanterna.

O Arqueiro Verde age, na maioria das vezes, como o sano da história. Porém, muitas vezes o seu temperamento pouco equilibrado, não o deixa fazer os melhores julgamentos. Foi esta run que o definiu como o herói extremamente progressista que hoje relacionamos com o personagem, o que faz sentido, já que a maior inspiração de personagem é o Robin dos Bosques.

No entanto, nem sempre o Arqueiro faz julgamentos morais ao comportamento do Lanterna. Aliás, na edição mais conhecida desta run, a nº 5, com a famosa capa “My ward, Speedy, is a junkie!”, é o Lanterna que age como o elemento são (aliás, na capa, o Lanterna pergunta: “You always have all the answers, Green Arrow! Well, what’s your answer to that?”). Na história, é revelado que o pupilo do Arqueiro Verde, Speedy, ou Arqueiro Vermelho, é um viciado em heroína. A história é tão boa, e foi tão influente na altura, que rendeu uma carta de agradecimento do mayor de Nova Iorque.

Na minha opinião, a história não envelheceu da melhor maneira. A minha principal crítica é que tem demasiado texto descritivo, uma marca registrada da Era de Prata e Ouro, o que muitas vezes sai um pouco do tom sério e realista da história.

E outra crítica que também tenho, mas que me incomoda muito menos, é que a história não deixa muitas nuances e tons de cinzento, o que também, é mais uma marca registrada dos comics da época. No geral, considero-a uma excelente história, uma cápsula do tempo para as futuras gerações verem quais os problemas e ansiedades da época.

A verdade é que esta é uma das histórias mais famosas da Era de Bronze da banda desenhada americana, a última era antes da Era Contemporânea (que é a era corrente), e que, em comparação, era muito mais adulta e negra do que a Era de Prata., Mas esse “amadurecimento”, como vamos ver, não veio do nada.

A Era de Bronze começa oficialmente com a morte de Gwen Stacy, (também há um marco alternativo que é a publicação da história “Whatever Happened To The Man Of Tomorrow”). Porém, situar exatamente quando os comics se tornaram mais adultos é irrelevante – o que interessa é que, agora, as bandas desenhadas são muito mais violentas e pesadas, por vários motivos…

O que é talvez o motivo mais técnico é que, desde 1954, todos os comics tinham de passar pelo Comic Code Authority, um selo que foi criado após a publicação do livro A Sedução dos Inocentes, por Fredric Wertham, um livro que culpava os comics pelos “males da juventude”, principalmente as histórias da EC Comics (Tales From The Crypt, MAD), que eram muito mais adultas do que as histórias da DC e da Marvel da altura, e que após a criação do selo, faliu, pois não podia distribuir e vender mais as suas histórias nas lojas do país.

Com medo de também falirem, a Marvel e a DC autocensuravam-se. Por exemplo, a DC, após ter sido acusada no livro de “promover a homossexualidade” através das suas histórias do Batman, deu uma namorada ao Homem-Morcego (Batwoman) e lentamente diminuiu a participação do Robin nas histórias.

Mas, mesmo assim, a autocensura muitas vezes não era o suficiente, e, muitas vezes, argumentos tinham de ser refeitos à última da hora – ou, inclusivamente, até edições inteiras (uma das linhas onde isso mais aconteceu foi exatamente nesta run). Porém, isso estava a mudar, porque no final dos anos 60, começavam a nascer por toda a América as comic book shops, já que o público consumidor de comics lentamente mudava de infantojuvenil para juvenil/jovem-adulto. E uma das vantagens das comic shops é que, por lei, elas não tinham nenhuma obrigação de seguir o Comic Code Authority, e isso levou a algumas experimentações como Dazzler e, mais tarde, Ronin, que eram exclusivas do “mercado direto”.

No entanto, esta explicação, não explica o que realmente aconteceu para que os comics ficassem mais adultos. Penso que a explicação de que o público simplesmente foi envelhecendo é só parte do quadro maior.

O que eu acredito que é a principal causa de os comics terem ficado tão violentos em tão pouco tempo é, bem, a violência.

Entre outros motivos, claro, mas deixem-me ter esta punchline para mudar de assunto rapidamente.

A verdade é que em 1970 a América estava numa situação, no mínimo confusa e complicada…

A Guerra do Vietname estava no seu apogeu e havia vários protestos por todo o país a pedir pelo fim da guerra; a economia americana levava com um grande golpe após a crise do petróleo e o abandono do padrão ouro, o que consequentemente levou à degradação dos centros urbanos; em 1969, Sharon Tate foi assassinada violentamente por discípulos de Charles Manson, o que marca o início do fim da contracultura; e mais uma quantidade assinalável de assassinatos como Martin Luther King, Malcolm X, John F. Kennedy e Robert F. Kennedy. Por outro lado, os anos 60 também foram marcados pela libertação sexual, proliferação das drogas e início de vários debates como machismo, homofobia, ecologia e racismo.

E o que aumentou ainda mais o impacto de todos esses eventos, principalmente os violentos, é que, desta vez, foram filmados. Tu podias viver no interior do Kansas, mas, mesmo assim, ainda vias imagens e filmagens da guerra e dos assassinatos.

Ou seja, qualquer pessoa que tivesse um televisor conseguia assistir à violência e… todos tinham um televisor. Todas as famílias ao jantar assistiam às novas imagens da guerra no Vietname, as perseguições de carros filmadas em direto, aos assassinatos políticos e aos crimes dos “serial killers” que começaram a proliferar na mesma época.

Com um mundo mais violento, vem arte mais violenta, vem cultura mais violenta – aliás, não é por acaso que, uma coisa que era só considerada para crianças na época, a animação, tem o primeiro filme “rated X”, Fritz, O Gato, que também é um retrato extremamente violento da sociedade da época -, vem banda desenhada mais violenta.

Mas não é só de violência que se faz esta história do Arqueiro e do Lanterna Verde. Aliás, para os padrões atuais, até causa desânimo ver como eles lidam com as situações que encontram. Isso acontece porque estamos em 2020, 50 anos após 1970, e já estamos bem familiarizados com a resposta que a sociedade deu a esses problemas.

Estou-me a referir, é claro, aos “heróis de ação”, que surgem na cultura de então como quem vai resolver todos os problemas. Deviam ser homenzarrões viris, cínicos e que não perdoam o crime (Dirty Harry, Justiceiro, Batman do Frank Miller, ou qualquer personagem do Arnold Schwarzenegger ou do Sylvester Stallone).

Esses “heróis de ação” olhavam para os problemas da sociedade da época e davam uma resposta simples, muitas vezes envolvendo tiros.

A verdade é que nós, simplesmente, gostamos mais de respostas simples e extremas a problemas complexos. Por exemplo: Dirty Harry é confrontado com o problema de criminalidade e de doenças mentais e a resposta é “Do I feel lucky? Weel do ya, punk?”; os Caça-Fantasmas são confrontados com um procurador ambientalista e a resposta é “This man has no dick”, etc, etc, etc.

Mas, esta BD do Lanterna e do Arqueiro é pré-Dirty Harry, é pré-Charles Bronson, é pré-resposta. E antes de uma resposta, existe sempre, por mais pequena e rápida que seja, uma reflexão do problema. Por isso, o Arqueiro e o Lanterna Verde, frequentemente só podem chamar pela razão das pessoas, ou, por vezes, nem isso, somente ver e refletir, tal como – vocês adivinharam – Easy Rider.

Easy Rider é um filme de 1969, e que se trata de – adivinhem – uma dupla de “amigos”, que estão a viajar pelos EUA, encontrando hippies, rednecks ou drogas, entre outras coisas, podendo-se fazer o paralelo com a BD do Arqueiro e do Lanterna Verde, que também tem vários elementos de road-movie.

Easy Rider espelha vários dos excessos e ansiedades da época e também é uma grande cápsula do tempo. Atualmente, tem-se popularizado a opinião de que “que filmes (ou qualquer outra coisa) só são bons se forem atemporais”, mas eu discordo totalmente. A arte não tem qualquer obrigação de ser atemporal. E o que é atemporal? Todas as obras são produtos do seu tempo, mas isso também não significa que elas apenas possam ter um significado durante um determinado período de tempo. Com frequência, nós reencontramos significado nalgumas coisas e, quando isso acontece, as mesmas passam de datadas a nostálgicas.

Por isso, eu encaro estas duas obras como um farewell aos anos 60, uma reflexão da década e ao legado que ela deixou no mundo.

É interessante compararmos as diferenças entre as diferentes décadas, como na década de 50 tudo nos parecer atualmente mais inocente. Por exemplo, se nós visualizarmos hoje Fúria de Viver (Rebel Without a Cause) , a inocência com que certos assuntos são tratados parecem-nos ridículos, ao passo que alguns diálogos nos soam desajustados à realidade contemporânea, como “I want you home by nine”. Tal como o cinema, a banda desenhada da época está repleta de inocência e infantilidade quando comparada com a contemporânea.

Por tudo isto, penso que a década de 60 é uma das décadas que mais influenciou, para sempre, esta inocência perdida…

“We were innocent, man!”

SOBRE O AUTOR |

João Ruy
João RuyColaborador
Desde que aprendeu a ler, gasta o seu tempo a ler banda desenhada e a ler legendas de filmes de ficção científica, e desde que ganhou esse hábito com muito poucos anos, não se perdoa a si mesmo por não ter investido mais tempo em equações e contas de multiplicar.
Após uma experiência com um canal de Youtube sobre filmes e BD, João usa o seu tempo livre para escrever críticas de cinema e ensaios sobre as suas longa-metragens e livros favoritos. Se estiver mesmo com azar, vai-o encontrar a andar pelas ruas de Lisboa, muito provavelmente à procura de DVDs a preços acessíveis, o que explica porque anda sozinho.