Uma aventura pelo mundo dos fanzines, do punk e dos Xutos & Pontapés.

Os zines são feitos por amor: Amor pela expressão, amor pela partilha, amor pela comunicação.

– Stephen Duncombe

Se houve altura em que a expressão “ele há coisas do arco-da-velha” pôde ser usada, esta foi sem duvida uma delas. Posso afirmar que, de uma certa maneira, me vi como o Corto Maltese, a caminhar tranquilamente numa rua deserta, de mãos nos bolsos e a fumar a sua cigarrilha, quando, de repente, algo se cruza em seu caminho e o leva a embarcar numa aventura.

O mesmo, de um certo modo, aconteceu comigo. Estava em casa, a pesquisar com uma relativa indiferença, admito, o que os meus dealers culturais tinham listado em leilão virtual quando os meus olhos “tropeçam” em algo invulgar. Era obviamente uma BD, mas mais parecia uma coisa fotocopiada, toda a preto e branco. O título? Delirium Tremens. Mas o quadrado do fim da capa a dizer em letras garrafais XUTOS & PONTAPÉS aguçou a curiosidade…

Como de Xutos, tirando algumas musicas mais icónicas, conhecia pouco, resolvi perguntar à grande fã cá de casa, que comigo partilha tudo. A resposta veio num tom de admiração. Em poucas palavras, explicou que tinha visto uma BD igual, pertence ao apresentador, num programa de televisão onde os Xutos foram convidados. Além de muitas historias da banda, tinham falado no programa desse fanzine.

Escusado será dizer que foi por nós licitado e amplamente vigiado, não fosse algum chico-esperto “roubar” o dito cujo.

Quando o recebemos, trazido pelo carteiro que adora fazer do passeio a sua pista privada, caímos na dita aventura. Em primeiro lugar porque, quando a quis começar a ler, levei com todo o amadorismo punk na cara. Atenção! Não no sentido pejorativo, muito pelo contrário, que há ali muito amor! Foi feito – e muito bem feito – de fãs para fãs. Percebemos o quanto de dedicação está ali demonstrada, e sem pensar em atingir lucro. Não, foi algo feito por prazer! Numa altura que não havia as ferramentas tecnológicas que hoje existem, foi obra. E foi punk e amadorismo puro e duro, sem medos. Digo mais, foi fazer e fazer bem feito apenas pelo prazer e admiração à banda.

Adorei esta lição, de tal maneira que só me consegui aperceber que faltava uma folha passado um bom bocado. E porquê? Porque todo o zine está cheio de pormenores, desde os desenhos, passando pelos  balões cheios de criatividade, aos textos, quer de introdução, quer de posfácio, dignos de uma demorada análise e muita admiração, porque fazer tudo aquilo à mão… Que trabalho espectacular!

Percebi que tinha tropeçado em alguma coisa, mas no quê? Não sabia ao certo mas o meu instinto não se engana nestas coisas. Contudo, não ia lá sozinho. Comecei por contactar o dealer que me vendeu o zine. Primeiro, para indagar pela folha em falta – e confesso que me assustou um bocado quando a resposta veio dizer que era assim e que tinha um zine igual. Mais preocupado fiquei, porque na última folha do zine está escrito e passo a transcrever: “A culpa não é nossa se algum tosco compra isto …e com paginas a menos”. A sorte é que, passados uns dias, lá vem uma resposta de que afinal sempre havia uma folha perdida e que seria enviada. Teve ainda a amabilidade de enviar fotos para se perceber a história toda. Foi óptimo e fiquei agradecido, mas o zine especificava que não era filho único. Recorri então aos meus dealers e ao grupo de entusiastas que conheço para me ajudarem. Mais uma vez, a resposta veio numa forma muito punk: Ao invés de perguntar aos santos, pergunte directamente a Deus, tendo facilitado o link do perfil do Autor, o senhor Rui (bonito nome) Xaruto (?), ao qual envio uma longa mensagem a perguntar sobre o zine e, não tentando esticar a corda, mas esticando na mesma, se tinha os restantes fanzines e porque parou de os fazer.

Enquanto esperava a resposta debrucei-me, de forma mais séria, sobre o enredo da história. Tudo começa com uma figura sentada ao balcão (onde, embalado por este regresso ao passado, me recordei de uma letra de Censurados) a maldizer da seca que estava a apanhar devido a um fulano ao qual tinha telefonado 20 vezes a propósito de uma vaga de baterista. O ambiente era festivo, mas como não conhecia ninguém estava decidido a fumar mais um cigarro e “bazar”. Neste momento surge uma mão e uma interrogação “Kalú?”

Começamos então a perceber que Kalú tinha telefonado 20 vezes a Zé Pedro para uma vaga para baterista numa banda que aquele estava a formar e que este tinha combinado um encontro nesta cervejaria, estando obviamente atrasado.

É levado para uma mesa onde estão outros amigos de Zé Pedro um deles é Zé Lionel o vocalista e “empresário” da banda. Todos esperavam outro membro, um “chavalito” de nome Tim que ia ser o viola baixo, e, enquanto se esperava, bebia-se e começava-se a festejar a nova onda Punk Rock em Portugal. Claro que havia quem não gostasse e um confronto entre opostos era inevitável. E se já estamos numa cervejaria, com 23 canecas bebidas (contas do empregado) e “ espirituosos “ à mistura, a coisa tinha mesmo de descambar… e descambou.

Estava tão embrenhado ate ao tutano nesta narrativa e a desfilar os olhos pela cena de pancadaria, quando recebo uma mensagem de não outro senão do próprio Rui Xaruto (nome artístico de Rui Santos) a pedir desculpa pela demora na resposta, mas a elucidar-me tudo, mas mesmo tudo. sobre este  zine.

Conta-me Histórias, o livro de Ana Cristina Ferrão dedicado à banda e editado em 1991 foi a base de inspiração do fanzine, feito apenas pelo prazer de a fazer, tendo como únicos factos reais o encontro do Kalú com o Zé Pedro e o Zé Leonel, a descomunal seca e os 20 telefonemas. Os outros personagens e os acontecimentos foram frutos de alguém com então 19-20 anos e a imaginação a jorrar como uma fonte, algo que, digo eu, ainda tem.

Explicou-me também que foram feitos 3 números deste fanzine. Infelizmente, a falta de tempo e envolvimento pessoal em outros projectos ditaram o fim do fanzine. Adiantou-me que toda a obra fora feita a lápis e marcador de ponta fina em papel normal de 80 gramas, em formato A3. Lamentavelmente, grande parte destes originais perderam-se, assim como os  fanzines originais e as cópias reduzidas dos desenhos. A montagem das páginas – e tudo o resto – era feito de uma maneira artesanal, inclusive os textos, que eram escritos nos balões. Teoricamente, tudo estaria guardado  onde se julgava estarem seguros. Porem, tudo foi vítima desse monstro destruidor de livros e recordações, a terrível humidade, que transformou os ditos textos em borrões e reduziu a pó desenhos e páginas.

Foi com a sua permissão que consegui partilhar esta informação convosco, inclusive a curiosidade do último número do fanzine ter sido terminado no escritório dos Xutos .

Um muito obrigado ao Rui Xaruto pela troca de sinergias, por me ter levado a uma viagem pela memória afectiva dos meus saudosos anos 90 em que ouvia punk nacional, em que redescobri nomes como Corrosão Caótica, Ku de Judas, X-Acto e por ai adiante, mas sobretudo pela partilha de uma história de uma banda que eu desconhecia que fosse tão rica e tivesse influenciado tão profundamente o panorama musical em Portugal.

Arrisco-me a dizer que o próprio Rui Xaruto esteve envolvido numa cultura muito própria, uma cultura que não tinha medo de experimentar… Que se queria exprimir! Fazer algo apenas para curtir e partilhar com quem sentia o mesmo. E fez algo muito bem feito dentro do movimento dos fanzines da altura. Porque não ficou conhecido ou foi mais badalado? O mundo dos fanzines e do Punk  é este, o underground, é arte só para alguns, que sentem algo a fundo e partilham entre si. Estão todos juntos…

Partilho ainda algo que o Rui Xaruto escreveu: “Ficou uma ideia de fazer uma nova versão e o Zé Pedro, a dada altura, há 15 anos sensivelmente, começou a picar-me para fazer uma nova BD, colorida. Mais tarde, pediu-me se podia ceder imagens da BD para o livro Conta-me Histórias da Ana Cristina Ferrão [2.ª edição, revista e aumentada, de 2009]… Acabei por colaborar com a Ana Ferrão no livro, não só com algumas páginas do fanzine como com desenhos… Infelizmente, o Zé Pedro não teve oportunidade de ver a tão adiada BD mas continuo com intenções de a fazer…”

Ao longo de todo este texto – e posso dizer que até a data – foi, para mim, um dos mais desafiantes artigos que escrevi devido a um sentimento de responsabilidade para com o trabalho de Rui Xaruto e a sua relação de amizade com um grupo de pessoas que muito contribuíram e continuam a contribuir para a cultura do nosso país, não querendo minimizar de modo algum minimizar isso. Quase me levou a repensar e desistir – é de frisar que grande parte deste atraso para este artigo se deve a isso -, mas estava a esquecer de algo muito importante: o quanto me estava a divertir a fazer o que realmente estou a gostar de fazer, que é escrever. Ao reler o seu zine vezes sem conta e a escrever este artigo, e a procurar informações dos zines na década de 90, deparei-me com muita informação e como a cultura punk é muito importante. Em suma aprendi muito com o que o Rui fez. Permitam-me picar o autor da seguinte forma: se tem os grãos e o cereais, se conhece bem o lúpulo e a fermentação, se tem a maquinaria para o fabrico… O que o está a impedir de fazer uma bela cerveja? Eu bebo de boa vontade esse vaso e tenho a certeza que muitos irão salivar por ele.

Deixo um último apelo – se algum dos leitores tiver os 3 fanzines que nos façam chegar para podermos enviar ao Rui Xaruto e aos Xutos & Pontapés pois, ao que apurei, eles também não os têm.

SOBRE O AUTOR |

Rui Vasco Cunha
Rui Vasco CunhaColaborador
Criado por tios em 2.º grau em tempos conturbados, teve contacto com BD em muito novo quando descobriu num armário bafiento, em sacos plásticos, uns livros de Michel Vaillant e Taka Takata entre outros. Além de uma rinite alérgica de estimação, mantém a paixão por BD. Gostava de editar o seu próprio livro; enquanto isso não acontece, vai escrevendo…