Um Contrato Com Deus: será esta a obra intemporal?

Novela gráfica, romance gráfico, livro/álbum de banda desenhada, etc… Vários foram os termos criados para definir a mesma ideia, sendo dificilmente confundidos, mas tantas vezes alvo de discórdia. Eu próprio não sou utilizador do termo “novela gráfica”, mas por questões de facilitismo à compreensão deste artigo, será esse o termo que usarei, ainda que sempre entre aspas (e espero que seja compreendido e aceite, ainda que, talvez, discordante).

O artigo que aqui exponho não visa argumentar qual o termo correto ou quais as razões para sua aplicação. Desta forma, o meu objetivo é apenas analisar uma obra, ou antes, a obra, que popularizou o termo graphic novel no meio da banda desenhada.

Portanto, fui ler “o livro” que inicialmente contribuiu para a possibilidade da banda desenhada figurar no meio literário e não ser considerada apenas como “um conjunto de tiras cómicas para crianças e adolescentes”.

Um Contrato Com Deus (originalmente, A Contract With God and Other Tenement Stories) é, como não podia deixar de ser, a primeira obra a fazer parte da primeira coleção Novela Gráfica publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o Público. A obra da autoria de Will Eisner viu a sua primeira publicação nacional em 2015.

Originalmente, em 1978, Eisner tencionava ver este seu trabalho publicado e disponível numa livraria convencional e não numa loja de banda desenhada, uma vez que este visava dirigir-se exclusivamente a um público adulto. A sugestão do termo inglês graphic novel, na altura parcamente utilizado, foi uma estratégia face à dificuldade tida pelo autor em alcançar a edição e o mercado por si visionados. Eisner terá utilizado o termo para convencer a editora de que se tratava de um livro sério e que ia além dos típicos comics da altura.

A primeira publicação pertence à Baronet Press e, apesar das vendas terem sido fracas inicialmente, com o passar dos anos novas editoras viriam a demonstrar o seu interesse e a publicar a sua própria edição do livro, nomeadamente a DC Comics.

Admito as minhas altas expectativas para esta obra antes de a ter lido, tal é o seu prestígio e do seu autor. Passaram-se 42 anos desde a publicação desta, que é considerada a obra que popularizou o termo “novela gráfica”. Uma das mais importantes questões que tinha de colocar era: como envelheceu esta obra?

Antes de mais, é importante que se entenda que a noção mais comum do termo “novela gráfica” difundido hoje – apesar de aparentemente poder ter qualquer significado que o marketing lhe queira dar, caso a caso – tem várias diferenças daquela que terá sido a noção inicial. Com isto, tenho de afirmar que a opção de nomear este álbum como “novela gráfica” não foi, desde o início a melhor. Poderíamos presumir que “novela gráfica” pressupõe, numa contextualização muito básica, uma história contada através de banda desenhada e que revele um formato de tamanho superior ao da revista norte-american denominada de “comic book”. Claro que a noção de “novela gráfica” não tem um significado preciso, como referi anteriormente, mas, tecnicamente, Um Contrato Com Deus teria sido designado mais precisamente como antologia ao invés de “novela gráfica”. Isto demonstra que não foi apenas recentemente que o significado do termo foi adulterado e adaptado a cada situação, com os mais diferentes fins.

Eisner apresenta-nos um argumento que não requer uma análise aprofundada, sendo uma premissa de entendimento simples. As histórias, que alega serem reais, foram muito bem estruturadas e apresentam-se de forma organizada e lógica. Não é um livro épico, com voltas e revoltas, mas apresenta-se como um produto quase caseiro, algo modesto, mas bonito.

Um dos aspetos que mais me maravilha nas páginas deste livro está na legendagem. A arte é muito bonita, mas é a fusão com a legendagem manuscrita que dá às páginas deste álbum um aspeto completamente único e belo.

O traço de Eisner remete-me, estranhamente, para alguns dos trabalhos dos estúdios Walt Disney, principalmente no caso das personagens humanas. Admito que não entendo, nem sei fundamentar o porquê desta impressão, mas achei que era um aspeto que não deveria ignorar nesta análise.

Posto isto, estou certo de que uma leitura desta obra em 2020 não tem o mesmo impacto ou sequer o mesmo sentimento de inovação e criatividade que teria se lido na data em que foi publicada. Precisamos de ser sinceros se quisermos analisar esta obra mediante a época em que nos encontramos inseridos hoje e reconhecer que, apesar de rica em moral e provida de uma arte muito bonita, dificilmente veria a luz do sucesso. É por isso normal que acabemos por analisar obras clássicas como esta, tendo sempre em conta a época da sua respetiva publicação e não a época em que a estamos a analisar.

Will Eisner apresenta um conjunto de curtas histórias num álbum lindíssimo em termos artísticos. Muitos são os maneirismos de época utilizados no meio que encontramos presentes na estrutura da obra, mas é impossível não reparar também nas novidades que apresenta.

Quanto à questão do envelhecimento da obra, como disse, precisamos de ser sinceros e, apesar do peso que o clássico carrega consigo até aos dias de hoje, entendamos que não tem, nestes dias, o impacto para o qual foi originalmente visionado. Por exemplo, em comparação com outro grande clássico como Watchmen de Alan Moore, creio poder afirmar que o primeiro terá hoje um envelhecimento mais conturbado. É claro que, para uma análise mais fundamentada a esta comparação, teríamos de analisar também mais profundamente as enormes diferenças entre as duas obras, desde os géneros em que se inserem, às próprias datas de publicação.

Com isto não quero dizer, de todo, que Um Contrato Com Deus é menos meritório daquilo que apresenta e representa. Na verdade, é uma obra que, tal como o seu autor, continua a ganhar o reconhecimento de leitores nos dias de hoje.

Mais importante do que a premissa do livro, é o reconhecimento daquilo que representa e daquilo que alcançou. A introdução desta obra no meio, não só foi importante como definiu o futuro da banda desenhada, abrindo novas possibilidades para tantos outros autores norte-americanos e as suas histórias. Creio que, para além da beleza artística e argumentativa desta obra, o “estandarte que carrega” lhe dá um aspeto ainda mais brilhante e isso define grande parte da sua grandiosidade.

Um Contrato com Deus
Will Eisner
Editora: Levoir
Ano: 2015
Páginas: 216, a preto e branco
Encadernação: capa dura
Dimensões: 180 x 260 mm
ISBN: 9789896824914

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…