Análise de O Grande Jogo de Will Eisner.

O Grande Jogo de Will Eisner é uma obra que fala dos jogos de poder e de como o casamento entre ricos poderia se traduzir num incremento de riqueza para os dois lados. Mas o livro é muito mais que isso, fala de racismo e preconceito entre judeus e entre classes sociais. O imobilismo social e económico é bem acentuado na obra e este só era possível de ser contrariado através do casamento. Pobres tentavam casar com ricos e estes entre eles para aumentarem as suas fortunas. Ao estilo dos reis em séculos de outrora. A quanto a procura pelo sonho americano obriga? Neste caso, obriga a muito, com os indivíduos a sujeitar-se a um casamento arranjado.

A edição desta obra no nosso país em 2003 esteve a cargo da Devir e este foi o primeiro livro do autor em Portugal, apesar de Spirit – pequenos contos que destacam a fragilidade do ser humano na luta pela sobrevivência frente a situações adversas e enfatizam muitas vezes a ironia da própria existência – ter tido direito à própria revista em 1977 pela Portugal Press.

A ação passa-se no princípio do século XX e desenvolve-se pelas três gerações dos Arnheim, descendentes de imigrantes judeus. Tal como o livro e toda a sua obra que fala de descendentes judeus também o artista tem pai e mãe judeus, oriundos do antigo império austro-húngaro.

No desenvolvimento e no final da história não se pense que há uma lição de moral – as infidelidades, os casamentos arranjados e o alcoolismo fazem parte da intriga até ao final. A banda desenhada oferece ao leitor uma imagem das famílias influentes que formavam um poderoso grupo distante de grande parte da comunidade de Nova Iorque. No livro, o autor representa alguma teatralidade por parte das suas personagens e explora uma visão humanista que é característica da sua obra. “O grande jogo” de Will Eisner não é uma metáfora para a vida real mas sim algo mais linear. A tradição de manter e aumentar as fortunas (neste caso, entre pessoas abastadas), era natural e não apenas entre judeus. Está bem documentado como no século XI a nobreza (privada das suas riquezas) optava pelo casamento com alguém abastado de uma classe social que era recente na altura, a burguesia. Ambos ganhavam, pois o nobre ganhava dinheiro enquanto o burguês ganhava o estatuto.

A capacidade de Will Eisner de nos envolver no enredo é fenomenal. Tal como na maioria das suas obras, Eisner desenvolve personagens simples, saídos da sua imaginação ou observação, as quais são praticamente invisíveis para os outros. Neste caso, a BD é vagamente baseada na vida da família da sua esposa.

De uma forma irónica, o autor também descreve uma cena em que um jovem pobre aluga um automóvel para se poder passar por rico e uma rapariga pobre se passa por rica acabando por enganar um ao outro. De um modo geral (e esta imagem passa em toda a obra), as aparências falam mais alto e é a coisa mais importante. Esta é uma obra com grande valor literário e vale a pena a sua leitura.

O Grande Jogo
Will Eisner
Editora: Devir
Ano: 2003
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: capa mole
Dimensões: 197 x 254 mm
ISBN: 9789728631840

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.