Lucky Luke no País do Ouro Branco.

No Sul, o ouro é branco e é fonte de ainda mais riqueza e de ainda mais sofrimento… Não é um metal… “O ouro branco” é o algodão!!

Quem o diz é Bass Reeves, um dos protagonistas vedeta do novo álbum de Lucky Luke – Um Cowboy no Negócio do Algodão.

Esta é a 81.ª aventura do cowboy solitário e a primeira a abordar diretamente o tema da segregação racial.

Vamos à história!

Lucky Luke, o cowboy que dispara mais rápido que a sua própria sombra, o cavaleiro errante mais conhecido do Faroeste vê-se, de um segundo para o outro, o homem mais rico do estado da Luisiana ao herdar a maior plantação de algodão do território, por via do testamento da senhora Constance Pinkwater, a quem hoje classificaríamos como “velhinha nerd”. De facto, a Senhora Pinkwater, nos derradeiros anos de vida, colecionava todas as aventuras de Lucky Luke que iam aparecendo na imprensa e transformou a sua casa numa espécie de mausoléu ao cowboy, repleto de memorabilia.

No mesmo momento que recebe a notícia da herança, Lucky Luke reencontra o seu amigo Marshall adjunto, Bass Reeves, a caminho de levar os irmãos Dalton para a penitenciária.

Reeves avisa Lucky Luke para ter cuidado quando for tomar posse da herança. É que a Luisiana, como outros estados do Sul, não digeriram bem o resultado final da Guerra da Secessão e a abolição da escravatura. Logo, também não digeririam bem o facto de Lucky Luke querer doar a enorme plantação de algodão aos “seus” escravos libertos.

Chegado à magnifica propriedade na companhia de Jolly Jumper, o seu fiel e sensato cavalo, Lucky Luke rapidamente sofre da desconfiança dos negros, que o veem como mais um patrão a que terão de obedecer sob pena de serem castigados. Por outro lado, é recebido pelos plantadores brancos como seu par, mas rapidamente se incompatibiliza com estes ao ver como tratam os negros.

É então que começam os problemas para o nosso herói que se vê apanhado entre dois mundos – o dos negros desconfiados que vivem em circunstâncias miseráveis e o dos brancos ricos, verdadeiros opressores dos primeiros. Pelo meio ainda tem de enfrentar o Ku Klux Klan que o quer imolar pelo fogo.

É salvo pelo amigo Bass Reeves, que lidera a revolta dos negros, pela insólita ajuda dos irmãos Dalton e por um dos habituais furacões que assolam a região.

Depois de entregar a plantação aos antigos escravos, Lucky Luke, como é seu hábito, parte na direção do pôr-do-sol cantando “Sou um pobre cowboy solitário, muito longe de casa”. Mas desta vez não está solitário. A seu lado cavalga Bass Reeves e duas crianças negras que resolvem tentar a sorte no Oeste.

Lucky Luke foi criado pelo belga Morris (1923-2001) em 1946. Ao longo de 74 anos, com o cunho do próprio Morris, de Goscinny, de Laurent Gerra e de Jul (este nos três álbuns mais recentes), uma das principais características da série é o humor através de gags que vão sendo construídos ao longo da narrativa principal. Outra das principais características é a inclusão de personagens que são caricaturas de personalidades contemporâneas à data de edição de cada aventura e a inclusão de personagens históricas reais ou de ficção – dos primeiros, temos neste álbum um Obama e uma Oprah de tenra idade, e dos segundos temos o Marshall adjunto Bess Reeves, o Tom Sawyer e o Huckleberry Finn.

Mas, quanto a mim, a característica mais marcante da série, e que me fascinou desde a infância, é a de que grande parte dos álbuns se centra em personagens reais (Billy the Kid, Jesse James, Calamity Jane, Wyatt Earp ou os verdadeiros irmãos Dalton) ou em momentos chave da história do Oeste americano na segunda metade do século XIX.

A ligação do Este e do Oeste americano através do caminho de ferro em “Carris na Pradaria”; o “Pony Express” como único meio de transportar correspondência na época e, por isso, como elo de ligação entre comunidades; a chegada do telégrafo em “O Fio que Canta”; a grande partida oficial à conquista do Oeste Selvagem em “Corrida para Oklahoma”; a exploração de petróleo em “À Sombra dos Derricks”; a mudança do paradigma do céu aberto em “Arame Farpado na Pradaria”; o transporte de eleição de não-cowboys em “A Diligência”; a chegada de colonos que vêm povoar territórios índios em “A Caravana”; os icónicos barcos a vapor em “Subindo o Mississipi”; todos eles e tantos outros são também álbuns informativos e formativos.

E depois há ainda as aventuras, mais raras, em que uma certa consciência social e moral é abordada. A cobardia das multidões em “Jesse James”, as vendettas entre famílias em “Os Rivais de Painful Gulch” ou a questão da integração em “O Tenrinho”.

E é aqui que encaixa “Um Cowboy no Negócio do Algodão”. Inequivocamente, a pretexto de uma nova aventura, Lucky Luke aborda agora as questões tão atuais da segregação racial e do racismo.

Desde logo temos, pela primeira vez, um personagem principal negro que, como já se disse, é uma figura histórica. De facto, Bass Reeves foi o primeiro oficial da justiça negro, o primeiro Marshall adjunto negro, com responsabilidades a Oeste do Mississipi. Ao longo da sua carreira, este escravo liberto caçou e prendeu mais de 3000 criminosos e matou a tiro 14.

Nesta ficção, é ele que avisa Lucky Luke dos perigos que irá encontrar nos territórios do Sul, nomeadamente no estado da Luisiana, mais especificamente na zona de Nova Orleães – Lucky Luke apenas visitou a região uma vez nas suas 81 aventuras, no álbum “Subindo o Mississipi”.

É também Reeves que consegue reunir os negros das plantações de algodão de modo a salvarem Lucky Luke de uma morte certa. Curiosamente, com ele leva igualmente a população Cajun (os brancos desfavorecidos que habitam os pântanos), num nítido gesto de integração.

Mas se Jul e Achdé tivessem ficado por aqui, esta seria mais uma aventura de Lucky Luke no seu registo habitual (com todos os méritos a que tem direito).

Há que salientar que o argumento de Jul foi escrito antes da triste morte de George Floyd, asfixiado por um polícia branco em maio de 2020 e que voltou a incendiar a sociedade norte-americana com os problemas do racismo. Mérito próprio, por isso, à história escrita por Jul que trata dos problemas raciais atuais num contexto de há cerca de 140 anos (a aventura deve decorrer por volta das décadas de 1870-1880).

Os autores vão assim mais além colocando um Lucky Luke habitualmente fleumático a perder a paciência e a compostura face aos fazendeiros ricos, como se pode ver na quarta vinheta da prancha 29 (página 31), na qual o cowboy fica vermelho de raiva e diz “Ouça, eu não pertenço de todo ao vosso mundo e, aliás, nem quero pertencer… Numa palavra, acho a vossa ‘civilização’ detestável!”

A partir deste momento na narrativa, Lucky Luke passa a lutar diretamente contra os ricos proprietários sulistas e contra a segregação racial, chegando mesmo a enfrentar sozinho o movimento supremacista do Ku Klux Klan.

A aposta é arriscada. As Aventuras de Lucky Luke são uma série de humor, mas o tema não é para sorrir. Por isso, escritor e desenhador tiveram de ser particularmente inteligentes para manterem o registo humorístico sem, por isso, deixarem de abordar as questões do racismo e da descriminação com seriedade e evitando, tanto quanto possível, mal-entendidos.

Historicamente, tratam também da condição dos negros antes da Guerra da Secessão – escravos explorados até ao limite – e após a abolição da escravatura – negros livres e explorados até ao limite.

Em momentos de grande intensidade ou através de gags inteligentes ou de referências discretas plantadas ao longo da narrativa, lá se vai pondo o dedo na ferida.

Particularmente bem conseguidas estão as cenas contrastantes do baile cajun e da “garden party” dos ricos fazendeiros do algodão em pranchas seguidas. Mas também o contraste entre a nova mansão de Lucky Luke (primeira vinheta da página 16) e o aspeto miserável dos seus trabalhadores na última vinheta da mesma página e que acima se reproduz.

Entre os vários gags, faço uma referência especial às várias piadas racistas postas na boca dos sulistas ricos e que, por isso, têm de ser apreendidas dentro do contexto dessa classe social, evitando assim interpretações menos inteligentes. É o risco que os autores correram, acreditando, sem dúvida, que os seus leitores têm uma decente formação de base.

Por fim, não posso deixar de referir o papel brilhante dos enormemente estúpidos e ignorantes irmãos Dalton. Completamente alheios às questões do racismo e da descriminação racial, estão certos que o casal cajun que os acolhe e o resto da população dos pântanos são mexicanos. E que os membros encapuçados do Ku Klux Klan são uma qualquer tribo índia. Antes disso, os quase analfabetos fora-da-lei escapam da prisão na biblioteca ambulante do “Programa Federal de Reabilitação dos Presos pela Cultura”. E atacam o guarda que conduz a carroça com a grossa e bicuda lombada de um livro, provando a veracidade da frase “a pena é mais forte que a espada”.

São muitos e bons os gags deste álbum que servem de descompressão para o fluir de uma narrativa séria num tom nada habitual nas aventuras de Lucky Luke. De certa forma, resultam até como elemento despertador para as alminhas mergulhadas na anestesia do quotidiano e que seguem a vida arredadas das realidades que as cercam.

Uma palavra final para o trabalho artístico de Achdé que, quanto a mim, está cada vez mais apurado e muito próximo do traço de Morris. E, nem por isso, deixa de cunhar o seu trabalho com alguma originalidade, sobretudo em alguns enquadramentos. Destaco aqui as duas páginas em que o furacão devasta as plantações de algodão e põe um fim à batalha entre negros, cajuns e membros do Ku Klux Klan. Na primeira página da cena temos uma terceira vinheta que ocupa três quartos de página, mostrando através da sua grandeza o poder superior da natureza em relação às quezílias dos homens. Gosto especialmente da expressão no rosto de Lucky Luke que, para quem conhece bem a série, está desenhada de forma original. Já na segunda página da cena, temos três grandes vinhetas verticais nas quais vemos negros, cajuns, membros do KKK, foras-da-lei, cavalos, ratazanas e crocodilos rodopiando violentamente à volta do olho do furacão, como que gritando em silêncio “todos diferentes, todos iguais”.

Com mais de 300 milhões de livros vendidos, traduzido para quase 30 línguas e com 81 álbuns publicados, poderíamos pensar que as aventuras de Lucky Luke, o cowboy que dispara mais rápido que a sua própria sombra, já pouco poderiam surpreender o leitor. Pois, desenganem-se!  Este álbum não só está bem concebido a nível de gags e do desenho, como é um livro corajoso pela temática abordada e pela maneira politicamente incorreta como a aborda. Não nos podemos esquecer que para que a humanidade se vestisse, o algodão tingiu-se de sangue!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.