Análise à obra de El Torres e Carlos Hernández.

O Rasto de García Lorca é um livro que fala sobre a sangrenta guerra civil espanhola. Quando nacionalistas afetos a Franco (ditador fascista que governou Espanha entre 1 de outubro de 1936 e 20 de novembro de 1975), lutavam contra o governo democraticamente eleito da frente nacional. A obra fala da execução de García Lorca por parte das forças de Franco, embora o poeta nunca tenha tido uma posição política. O texto interpreta os seus últimos dias e o que simbolizava o poeta para todos. Fala do vazio que o seu desaparecimento deixou entre os seus amigos e conhecidos. O livro foi originalmente publicado em 25 de julho de 2019, comprado juntamente com a edição do dia do jornal Público.

São 12 momentos para relembrar Lorca e não uma qualquer biografia com pormenores factuais que, por vezes, se mostram exagerados.

Matar Lorca foi um símbolo. Foi matar um rouxinol, e isso sabiam os vencedores que deitaram a cal da mentira sobre o local desconhecido onde o enterraram. A morte de Lorca foi o pecado original de uma ditadura que não demonstrou benevolência um só dia, de todos os que durou o seu extenso mandato.

– Pilar del Rio, Presidente da Fundação Saramago, jornalista, tradutora e criadora do prefácio da obra

A obra começa com o pequeno Alfonso e a sua família em fuga da guerra civil e o desenvolvimento da ação é processada através de histórias e testemunhos reais, nas quais o pequeno teria perdido um dos melhores amigos. Nesses episódios nem sempre García Lorca está presente. Uma das histórias mais marcantes passa-se em Fuente Vaqueros em 1906 e descreve o momento em que o poeta, enquanto pequeno, é salvo por Eduardo de um grupo de miúdos que lhe queria bater. E para finalizar refere “tu e eu ficamos em paz para sempre”. Mais tarde, ele é o guarda de serviço para o vigiar antes de ser assassinado… Ou outra em que um fascista recorda a morte de García Lorca e afirma que sabe quem o matou. Ou ainda outra em que Dalí recorda o amigo e se mostra completamente a favor do ditador Franco.

As histórias passam por lugares tão diferentes como Granada, Havana, Madrid e Nova Iorque. Eventos esses que são reais e contados por pessoas que interagiram com o artista durante a sua vida e morte. Aliás, Granada foi sinónimo da repressão franquista, sendo nesta que García Lorca foi assassinado.

A ideia do livro não será propriamente fazer uma biografia do poeta mas sim, através de pequenas histórias, demonstrar a importância deste no meio cultural e entre os seus amigos.

A premissa inicial foi de não contar a sua vida como mais uma biografia, mas antes construir diferentes relatos biográficos com uma certa independência, de que Lorca é o protagonista elíptico, muitas vezes ausente e outras não, mas sempre refletindo, através do olhar dos seus amigos ou conhecidos, esse magnetismo, vitalidade e carismática presença que encontramos nas descrições de todos aqueles que o conheceram em vida. Por isso, escolhemos os temas em função de diversas prioridades. Por exemplo, contar algo da sua viagem a Nova Iorque, a sua estadia em Havana, falar de sua relação com Dalí e Buñuel, a Residência de estudantes, relatar o seu dia-a-dia com o teatro Barraca, e também mostrar a face sinistra de Granada, através do antigo soldado que se gabava de ter morto Lorca, uma história autêntica que as pessoas mais velhas da minha cidade ainda recordam.

– Carlos Hernández

El Torres (seu nome real é Juan Antonio Torres) é responsável pelo argumento. Este é um livro muito diferente de outra obra do autor também editada em Portugal (O Fantasma de Gaudí). Aqui procura-se perceber quem foi García Lorca para quem o rodeava. Carlos Hernández tem a seu cargo os desenhos e as cores, destacando-se ter utilizado somente o branco, preto e castanho claro.

Uma obra que recomendo ler, para quem quer saber mais sobre García Lorca e para quem gosta, simplesmente, de boa banda desenhada.

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.