A primeira metade da série e o seu público-alvo.

Hoje relembro Scott Pilgrim, a popular série do autor completo Bryan Lee O’Malley. Esta foi originalmente publicada pela Oni Press em formato livro, num total de seis, entre 2004 e 2010. Em Portugal, a Booksmile editou o primeiro e segundo volumes em outubro de 2010, intitulando-os respetivamente de Scott Pilgrim Na Boa Vida; e Scott Pilgrim Contra o Mundo. O terceiro volume foi editado em fevereiro de 2011 e deram-lhe o nome de Scott Pilgrim e a Tristeza Infinita. A editora terminou a série ainda em 2011, totalizando a edição dos 6 volumes que a completam, mas neste artigo analisaremos apenas os primeiros três volumes.

A série Scott Pilgrim garantiu a O’Malley um Doug Wright, um Harvey e um Eisner, bem como um conjunto de nomeações várias. Este terá sido garantidamente o seu mais reconhecido trabalho, que recebeu, ainda em 2010, uma adaptação ao grande ecrã em Scott Pilgrim Contra o Mundo, com direção de Edgar Wright. Posteriormente foi também anunciada uma adaptação para videojogo, que terá sido lançado originalmente em 2010.

Nestes primeiros volumes conhecemos o protagonista, Scott Pilgrim, e companhia. A história passa-se na cidade de Toronto, onde seguimos a “conturbada” vida de Scott Pilgrim, um jovem adulto, e de seus amigos e conhecidos. Scott apaixona-se por Ramona Flowers, uma rapariga bonita e, aparentemente, inalcançável. O protagonista acaba por conquistar Ramona, mas apercebe-se então de que a relação encontrará regularmente entraves e barreiras maiores do que poderia imaginar. Para que possa ficar com Ramona e assumir oficialmente o namoro, Scott terá de enfrentar e derrotar os sete “ex-namorados maléficos” da sua nova namorada. Apesar de parecer complicação suficientemente exagerada, os sete “ex-namorados maléficos” não são o único obstáculo no caminho desta relação.

Nesta BD, O’Malley combina rock de garagem, com o ambiente dos videojogos arcade retro e juntando ainda os típicos dilemas associados à adolescência (apesar dos personagens se encontrarem já na idade adulta).

A obra encontra ainda um conjunto de associações de época que sugeriram o título dado a este artigo. Encontramos uma geração juvenil parcialmente diferente da atual. Por exemplo, na série Scott frequenta um videoclube onde trabalha uma amiga, realidade que é tão pouco popular e praticamente inexistente nos dias de hoje, dez ou quinze anos após.

Além disso, podemos encontrar esta datação também nos dispositivos tecnológicos, como nos telemóveis da época, por exemplo. Pormenores como estes não tornam a série exatamente datada, mas apresentam pormenores aos quais os jovens da atualidade são alienados ou com os quais não se podem identificar.

Os livros encontram destaque no exagero que as emoções adolescentes representam para os próprios. A mim, o livro parece-me falhar na representação das idades dos personagens. Com isto, quero dizer que, apesar da premissa passar a ideia de que os personagens são adolescentes ou pré-adultos, as idades dos mesmos encontram-se entre os 22 e os 25 anos para a maioria. Falta algum rigor na representação etária do livro, que acaba por passar ao leitor a ideia errada de que o enredo se desenrola num meio adolescente.

Este pequeno problema pode ser também encontrado na tradução. A Booksmile optou aqui pela utilização de termos e maneirismos linguísticos fortemente associados aos jovens e adolescentes da época descrita. Refiro-me a termos como “bué” ou “curtir”, que não têm, obviamente, traduções diretas à versão original (embora não conheça a versão original). Este tipo de termos está associado a uma época específica, mais particularmente entre os anos 2000 e 2010, e também a uma faixa etária especifica dessa mesma época, que se encontraria entre os jovens de 10 e os 20 anos (diria eu). A tradução poderá, portanto, ser um grande marcador na audiência desta série em Portugal, mas não se pense que se trata de algum tipo de entrave, pois apesar disso, a leitura é clara e funciona bem.

A arte apresenta-se a preto e branco (com alguns tons de cinza, por vezes). Existe uma clara influência manga, não só na arte e no estilo, mas também no próprio formato dos livros. O traço é simples, em certa parte infantil. Apesar da clara influência manga, principalmente na expressividade dos personagens, o estilo de O’Malley não deixa de ser cartune.

A evolução artística do autor é também bastante notável ao longo da série. Podemos sentir a crescente confiança do seu estilo.

Embora a obra tenha espaço para momentos introspetivos e de reflexão, a temática principal está assente no humor. Apesar de se tratar de um humor imaturo, associado também à faixa etária acima mencionada, os livros têm muito espaço para diversão.

São leituras rápidas, ainda que cada volume tenha um número de páginas generoso. O valor do PVP acaba por ser também bastante equilibrado para as edições portuguesas. Apesar de tudo, são edições bastante modestas, de capa mole, que (na minha opinião) têm uma apresentação visual muito simples e pouco apelativa.

Admito a minha relutância quanto à leitura de Scott Pilgrim, uma vez que inicialmente nada me chamou a atenção, nem as capas, nem o traço, nem a temática. Neste caso, já tinha visto o filme, pelo que também não me deixou suficientemente curioso para conhecer a obra. Posso ainda afirmar que a adaptação cinematográfica é bastante fiel aos livros, embora em alguns momentos a adaptação represente melhor o ambiente pretendido do que os próprios livros. Os momentos que resultam melhor no grande ecrã são, por exemplo, a representação do ambiente dos videojogos retro. Na BD essa mesma representação falha muitas vezes em termos visuais devido à simplicidade da arte apresentada, mas na adaptação e com as ferramentas disponíveis no meio cinematográfico, esse mesmo ambiente foi recriado de forma brilhante.

Creio que teria aproveitado esta obra de uma forma totalmente diferente caso a tivesse conhecido enquanto adolescente e é por isso que a aconselho, principalmente, a esse mesmo público. Esta é, possivelmente, uma das melhores séries de BD editadas em Portugal direcionado ao público juvenil. Seguir-se-á um segundo artigo referente aos restantes três livros da série, conforme a apreciação da leitura dos mesmos. Para já, fica a sugestão de leitura para todos os jovens portugueses.

Scott Pilgrim vol. 1: Na Boa Vida
Scott Pilgrim vol. 2: Contra O Mundo
Scott Pilgrim vol. 3: E a Tristeza Infinita

Bryan Lee O’Malley
Editora: Booksmile
Data: 2010 – 2011
Páginas: 168 | 200 | 200, a preto e branco
Encadernação: capa mole
Dimensões: 12,7 x 19 cm
ISBN: 9789896681050 | 9789896681043 | 9789896681036
PVP: 11,99€ (cada)

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…