Analisando o lado mais negro do duo Azzarello e Risso.

Mais uma aventura do morcego, ou melhor, neste caso três aventuras. Desta vez falamos de Batman Noir, lançado no nosso país no final do ano 2015, editado pela Levoir. A obra original foi publicada na íntegra pela DC Comics em 2013, compilando três histórias anteriormente publicadas em revistas individuais. São elas: Batman: Cidade Destroçada (que tinha sido publicada anteriormente pela Devir); Flashpoint: Noite da Vingança e Cicatrizes, as histórias compiladas que formam este álbum de 210 páginas.

Batman Noir revê uma adaptação por Brian Azzarello e Eduardo Risso, a preto e branco, a um ambiente “pulp” ou, neste caso, noir. Além da cidade de Gotham, também os personagens recebem alterações estéticas para que o livro melhor se adapte ao ambiente procurado.

Não só visualmente, mas também o ambiente narrativo proporcionado funciona igualmente bem. Em Batman Noir, Azzarello dá-nos uma imagem muito boa do morcego enquanto melhor detetive do mundo, título pelo qual é frequentemente reconhecido. Sendo eu um fraco conhecedor das histórias do personagem, falta-me o conhecimento para que possa destacar esta mesma afirmação e, por isso, posso apenas confirmá-lo quanto aos títulos que li (e sobre os quais resenhei) anteriormente. Refiro-me a um maior enfase dado às investigações de Batman e, exatamente, à forma como resolve os casos.

Nesta obra é-nos apresentado um leque de vilões, como Crocodilo, Pinguim, Joker e Scarface, entre outros, todos eles com um design próprio do ambiente noir em que se encontram inseridos.

Batman é-nos apresentado também, não apenas visualmente, mas carismaticamente, na sua forma mais “negra” até à data. O vigilante mascarado demonstra-se muito pouco compassivo, quase sem escrúpulos até. Acompanhamos Batman num modo, talvez, mais brutal e insensível do que o habitual.

Lendo esta obra, após ter já lido Sin City, as semelhanças são claríssimas. Bem conhecemos o impacto que a obra mencionada teve na banda desenhada, sobretudo pela novidade que trouxe em termos artísticos, com uma arte-finalização muito carregada e pesada, apesar de se apresentar quase sempre a preto e branco. Diria que Batman Noir faz mesmo muitas vezes lembrar o épico de Frank Miller.

O estilo de Eduardo Risso funciona muito bem em ambiente noir. Um pouco à semelhança daquilo que faz em 100 Balas, Azzarello volta aqui a explorar um enredo que gira à volta dos gangsters e da máfia, o que leva a uma comparação ainda mais próxima, novamente, a Sin City. A arte de Risso resulta, em alguns momentos melhor ainda aqui, no preto e branco, do que em 100 Balas.

Batman Noir resulta muito bem, em parte por termos uma dupla que está habituada a trabalhar em parceria e ainda mais por este duo nos introduzir um tema e ambiente com o qual se encontra bastante à vontade e ao qual já habituaram os leitores.

O destaque vai para Flashpoint: Noite de Vingança, que foi a minha história favorita. Nesta, Azzarello explorou uma introdução alternativa à origem do herói. Em vez de Bruce, temos Thomas Wayne (o pai de Bruce) a protagonizar o papel de Batman e a sua esposa, Martha Wayne, no papel de Joker. Nesta história alternativa, Bruce (o filho) foi o único personagem assassinado na trágica noite, à saída do cinema. A história desenvolve-se de forma trágica e é dessa mesma forma que termina.

Sinto que o conhecimento prévio das tramas de Batman, o acompanhamento do personagem e dos arcos anteriores, podem ter uma importância relevante para a leitura e melhor compreensão desta obra. Com isto não afirmo que seja necessário ter este conhecimento prévio, mas esse mesmo conhecimento poderá ajudar a entender melhor algumas das referências e a conhecer alguns dos personagens menos populares, por exemplo.

Azzarello e Risso são dois autores bastante populares e as suas parcerias geraram alguns dos melhores trabalhos elaborados pelos dois. Batman Noir não ficou aquém e é mais uma obra que valerá a pena conhecer, principalmente para os fãs desta dupla. Batman Noir é uma obra noir, não só pelo ambiente visual e “histórico”, mas por ser de facto sombrio, trágico e brutal.

Neste caso, o gosto pelo universo do super-herói da DC Batman, trará sempre um interesse especial aos fãs do mesmo, mas também para quem tenha apreciado a obra Sin City, penso que esta poderá bem ser uma obra de interesse. Claro que Sin City explora um universo diferente de Batman Noir, mas julgo que as semelhanças entre os ambos se destaquem das suas diferenças.

SOBRE O AUTOR |

Rafael Marques
Rafael MarquesColaborador
Rafael Marques tem 24 anos durante o ano de 2020. É músico em Lisboa e faz disso a sua profissão. A restante parte do seu tempo é dedicada ao sono, ao gaming e à leitura de banda desenhada, que terá descoberto como uma das suas maiores paixões entre 2018 e 2019, quando se envolveu numa relação com uma artista/ilustradora. Rafa é um apaixonado por tudo aquilo em que trabalha. Em segredo, escreve argumentos para banda desenhada, que são executados em belas pranchas pela sua companheira. Ainda sonha um dia vir a ser mordido por uma aranha radioativa…