Entrevista por altura do lançamento do seu 50.º livro de BD.

A Escorpião Azul é uma editora fundada por Jorge Dedodato (um dos editores fundadores da primeira Polvo) e Sharon Mendes. A sua atividade inicial restringiu-se a banda desenhada portuguesa, entre novos autores e aqueles já com diversos álbuns publicados. Em 2017, alargou o seu catálogo editorial a autores estrangeiros com o início da publicação de bandas desenhadas do espanhol Miguel Ángel Martín, ao qual se sucederiam outros autores e outras nacionalidades. Em 2019, editou o seu primeiro livro sobre banda desenhada, um ensaio da autoria de Rita Alfaiate. No final de 2020, editou o seu 50.º livro de banda desenhada, o mote perfeito para se realizar esta entrevista.

As respostas foram fornecidas em nome da editora, exceto as devidamente identificadas em nome individual.

Nuno Pereira de Sousa: Como se deu a criação da Escorpião Azul e quais eram os vossos objetivos iniciais?
Jorge Deodato: A Escorpião Azul foi criada aquando da minha saída da editora Calçada das Letras, que pertencia à distribuidora Letras em Marcha. Nessa altura já conhecia a Sharon e seu gosto pela banda desenhada; ela andava na faculdade de Belas Artes de Lisboa. Decidimos então dar corpo a uma editora que pudesse corporizar os nossos gostos e objetivos relativamente à 9.ªArte, bem como à ilustração. O objetivo primordial era por de pé uma casa editorial que acolhesse, essencialmente, autores nacionais conhecidos ou desconhecidos do público bedéfilo e não só. A nossa ambição era criar o maior catálogo de criadores portugueses. Somos uma editorial um pouco diferente do habitual; damos liberdade aos nossos autores de realizarem, sem constrangimentos, as suas histórias. É esse o nosso lema, “máxima liberdade, máxima responsabilidade”.

NPS: Sharon, a Escorpião Azul é a tua estreia no mundo da edição. O que te fascina nesta atividade?
Sharon Mendes: É, sim! É aqui a minha estreia na edição e fico muito contente por isso. Agradeço imenso ao Jorge por esta oportunidade e por todas as inúmeras coisas que tenho aprendido com ele e com a experiência das coisas que tenho tido nesta casa editorial. Não sabendo absolutamente nada sobre este meio e das envolvências todas que tudo isto traz, posso dizer que tudo me fascinou e que continua a fascinar. Quer pela positiva bem como pela negativa (risos)! É um “Mundo Pequeno” mas muito rico, sempre em mutação e em crescimento e que tem a possibilidade de trazer e de juntar cada vez mais pessoas, quer desenhadores como leitores e amantes da BD. É fascinante conhecer os autores e o seu trabalho, quer seja nacional ou internacional. Gosto imenso de trabalhar o livro e é fantástico saber como fazer um livro de raiz e todo o seu processo, passando também pela impressão, acabamentos e outros procedimentos até à sua materialização final de uma história ou ideia de alguém. Outra parte interessante é toda a área comercial e a distribuição do livro. Todo o processo até chegar à estante para o leitor final é bastante complexo e bem mais difícil do que esperava. Não pensei também que o trabalho – e tudo o que está envolvido – fosse tanto. Gostava de aproveitar e dizer aos que não sabem… Que, de facto, nem a obra do autor de BD é feita em 5 minutos, nem o processo todo que há pela frente, quando o projeto já esta todo desenhado e pronto para ser entregue à editora para o trabalhar. O processo seguinte em relação a toda a envolvência comercial e de distribuição também não acontece assim tão facilmente e aceite da forma como queremos para que chegue à estante. Também não é rápido, como desejaríamos. Nem tudo se consegue controlar e o livro passa por muitas pessoas antes do leitor final. Lidar com pessoas é igualmente fascinante nesta área mas que nem sempre as coisas são fáceis em algumas situações e tomar uma ou outra decisão.

NPS: Jorge, quais são as semelhanças e as diferenças do trabalho desenvolvido na Escorpião Azul e na fase da Polvo na qual eras um dos sócios?
JD: São projetos diferentes; a formação das Edições Polvo foi um sonho conjunto da nossa adolescência e que o concretizámos. Na altura da Polvo, o trabalho era dividido pelos três sócios. Tinha a meu cargo a responsabilidade da direção comercial e da promoção das obras. Participava com o o Rui Brito e o Pedro Brito na escolha das obras a editar. Na Escorpião, somos duas pessoas responsáveis por tudo. Temos mais dois colaboradores na nossa equipa. Mas a diferença essencial está na minha experiência adquirida ao longo do tempo que passei pelas várias casas editoriais do nosso pais e onde desempenhei várias funções relativas ao mundo do livro. A Sharon veio dar um grande apoio na área do design e na atividade mais artística deste meio. Mas a maior diferença consiste no nosso amor pela Arte no seu geral e nesta em particular.

NPS: O nosso querido Geraldes Lino designou a Escorpião Azul como uma microeditora no início da sua atividade, com tiragens muito reduzidas, muito poucos títulos por ano e venda exclusiva em eventos. Porque razão a aposta inicial foi tão modesta e que condições tiveram de estar reunidas para a fase atual da editora?
JD: O meu amigo Geraldes Lino tinha razão; éramos uma microeditora porque, de facto, não tínhamos a estrutura que fomos paulatinamente construindo ao longo destes anos. Os primeiros dez livros que lançámos foram uma espécie de teste de mercado, feito essencialmente nos certames da especialidade. Em 2017, avançámos para a edição em larga escala e sua distribuição através da distribuidora Europress. A partir desse momento fomos crescendo, porque queríamos ter um catálogo de autores lusos num curto espaço de tempo para mostrar aos leitores que existe banda desenhada portuguesa.

NPS: Após os primeiros anos de atividade, houve quem escrevesse que a Escorpião Azul era uma editora que publicava livros de autores que ninguém conhece (apesar dos veteranos Geral e Derradé serem os autores do primeiro livro por vós editado) e quem referisse, com desdém, que as obras que editavam eram de autores amadores. Como foram vividas por vós as críticas iniciais negativas que foram recebendo?
Escorpião Azul: Se fosse só nos primeiros anos (risos)! Ainda hoje continuam, estupidamente, as críticas e nem sabemos bem o porquê. Estas duas que referiste também continuam a ser postas em causa. Alguém tem que começar a fazer BD em algum lado e em alguma fase da sua vida, independentemente da idade. E quem já não faz há imenso tempo e que queira voltar também tem de começar por algum lado, obviamente. A editora também teve de começar por algum lado. Não temos problemas em publicar alguém mais novo ou alguém desconhecido; esses fatores não vão implicar que uma obra tem algum valor ou qualidade. É feita uma avaliação da obra a vários aspetos e, se achamos que transmite algo importante ou interessante, que tem boa qualidade e que o autor em causa tenha um mínimo de profissionalismo e que queira desenvolver um projeto, avançamos. O facto de não começar em grande e não ter autores conhecidos logo no início… Bem, pensamos que raramente alguém começa assim. As coisas constroem-se com o tempo e, como sabes, um dos objetivos na editora sempre foi ter autores portugueses consagrados e no ativo, mas muitos desses que contactámos não quiseram trabalhar connosco na altura e outros nunca nos deram uma resposta. Em relação aos autores amadores… Bem, cada um fica com a opinião que tiver acerca do assunto e quem ou a quem quiser chamar amador ou não. A resposta que damos é… Sempre é melhor ter algo do que não ter nada; a culpa é, de facto, da cultura no nosso país e da BD ser um nicho em Portugal. Se houvesse mais condições, como escolas para a 9.ª arte, e que os portugueses lessem mais e não achassem que a BD é para as crianças… E se os leitores, em geral, tivessem a consciência que a BD é um ótimo meio de comunicação através do qual se transmitem mensagens muito importantes para a comunidade, talvez as coisas estivessem melhores. As pessoas, basicamente, só dão valor ao que se faz internacionalmente. Sabemos que as coisas não funcionam de forma igual, mas não podemos estar constantemente a comparar e a deitar abaixo, logo no início, um projeto. Aqui, nesta casa editorial, vamos mais no sentido do amor pela arte; dar oportunidade de desenvolver um projeto aos que também gostam, que têm o “bichinho” e interesse de contar e desenhar histórias aos quadradinhos. Damos imenso valor e temos respeito pelos autores lusos, porque a BD não é uma arte fácil de se fazer, tanto com argumentista ou a solo, e porque já não é nada mau haver BD “amadora”, em que o autor, depois de um dia de trabalho, chega a casa e tem algumas ideias e desenha algumas vinhetas; porque, infelizmente, como todos sabemos, não fazem disto a sua profissão. Em ralação à parte das críticas… Já estamos um bocado fartos, mas não ligamos absolutamente a isso nem nunca ligámos. Há quem, de certeza, inventa e diga coisas que não são verdade, pelos vistos, sobre o nosso funcionamento; quem tivesse dúvidas, mais valia perguntar-nos. Levamos o trabalho de uma forma muito séria e damos sempre o nosso melhor. Estamos de consciência tranquila e não andamos a brincar nem com a Arte nem com as pessoas que a fazem.

NPS: Há também rumores de que algumas obras só foram editadas porque certamente os autores financiaram as mesmas. Vamos esclarecer esse assunto de uma vez por todas. Há autores a financiar ou cofinanciar as suas edições?
EA: Sempre pensámos que essa dúvida já tinha sido esclarecida no passado e várias vezes. A nossa resposta sempre foi clara e sempre a mesma, só não acredita quem não quiser. Não, não há autores a financiar nada nem a cofinanciar. Todos os projetos são escolhas e apostas nossas e pagas por nós e pagamos aos autores a percentagem de royalties sobre os livros. Também, até hoje, nunca coeditamos com nenhuma outra editora. Somos apenas nós a financiar – dois editores. A Editora nunca escondeu nada. Não sabemos que raio de rumores houve ou se isso foi alguma técnica por parte de alguém para os autores, por exemplo, não virem ter com a Editora para a possível publicação do seu trabalho. Isto pode ser um dos vários exemplos possíveis. Não sabemos. Nem nos interessa. Se fosse verdade, não haveria problemas em admitir ou de dizer como funciona. Só não gostamos que haja mentiras.

NPS: No vosso segundo ano de atividade, em 2014, um dos vossos livros foi uma obra juvenil ilustrada com dois contos. Nunca mais retornaram à literatura juvenil ilustrada. Está nos vossos horizontes vir a dar-lhe continuidade e, se sim, em que âmbito?
JD: Sim, é verdade… Em 2014, foi feito um pequeno livro juvenil com dois contos do autor Gabriel Raimundo… E com algumas ilustrações da Sharon, sendo estas as suas primeiras ilustrações a serem publicadas em livro. A Editora ainda não retomou esse caminho por vários motivos e, principalmente, porque não teve tempo para continuar essa linha pois tem estado muito ocupada e mais focada na BD. Gostaríamos também de dar continuidade e editar Clássicos com a ilustração de autores Portugueses.

NPS: Por outro lado, a Escorpião Azul teve a ousadia de experimentar, em 2019, a edição de uma dissertação de mestrado na área da banda desenhada no mercado editorial português. Em termos editoriais e financeiros, a aposta foi recompensada? Têm previstas iniciativas futuras semelhantes?
EA: É interessante. Da nossa parte, queremos dar continuidade e editar mais livros deste género, uma vez que há pouco conteúdo em Portugal, poucos livros que falam a respeito da Banda Desenhada de uma forma mais teórica.

NPS: Ao contrário da 2.ª edição do primeiro volume de Júpiter, a 2.ª edição da antologia Histórias do Outro Mundo teve direito a uma nova capa. Porque sentiram necessidade de fazer essa mudança?
EA: A razão porque se fez duas capas foi devido a uma mudança na editora, um momento de transição em que passámos a estar no mercado e não apenas livros a serem feitos em pouca quantidade e apenas para certames. Como a capa anterior foi feita pelo nosso querido amigo Ricardo Tércio, achámos melhor pedir-lhe uma nova ilustração para que algo dele também fosse mais visível no mercado. Como ele não tinha tempo nem possibilidades de trabalhar connosco na altura – mas conseguiria fazer uma capa ou alguma ilustração de vez em quando -, foi feita uma nova para ir para o mercado.

NPS: Atualmente, as antologias de diversos autores com um conjunto de obras curtas é ainda um importante cartão de visita no panorama editorial nacional?
EA: Sim, acreditamos que as curtas em coletâneas são sempre bons cartões de visita e que as obras todas juntas ganham força e que demonstram o quão bom é o trabalho dos autores portugueses. Demonstra as capacidades do autor a vários níveis e o que cada um poderia fazer com calma e uma história de maior fôlego e mais desenvolvida para fazer um álbum. Nestes momentos, em que as obras curtas estão todas juntas, traz também uma força maior de afirmação em haver interesse em fazer banda desenhada portuguesa e que estas apresentam grande diversidade de traços, estilos e origens…

NPS: SINtra ganhou uma 2.ª edição revista e aumentada e Júpiter teve direito a uma edição integral que compila os 4 volumes. O que vos motivou a redobrar a aposta nessas edições? Têm planos semelhantes para outras séries publicadas pela Escorpião Azul?
EA: A ideia do Júpiter foi sempre em juntar toda a obra no futuro, quando estivesse toda a série terminada, porque não só foi um dos nossos primeiros autores na casa como ainda fez parte do tempo em que ainda não estávamos no mercado livreiro… Comercial. Temos muito respeito e carinho pelo seu trabalho e o autor merecia, sem dúvida, que a sua obra fosse compilada toda junta e lançada no mercado. Sim, temos planos para outros livros nestes moldes; tentamos sempre dar o nosso melhor e dentro das possibilidades existentes. Pretendemos, com o tempo, ir melhorando o nosso trabalho, bem como o livro em termos de objeto e há alguns livros que merecem estar no mercado e com outra roupagem. É importante referir que algumas vezes o autor faz uma obra e que depois acaba por lhe querer dar continuidade; e como também não estávamos à espera e, por vezes, nem o próprio autor tinha ainda pensado ou tomado a decisão de continuar a história, é provável que haja mais tarde a compilação de outras obras no futuro, para a história ficar finalizada e junta num único álbum.

NPS : A Viagem da Virgem e Universo Negro mostram uma preocupação em disponibilizar novamente material nacional há muito tempo esgotado nas livrarias ou que somente circulou em revistas e fanzines. É uma preocupação vossa recuperar material de difícil acesso aos leitores atuais?
EA: A preocupação e a edição de material antigo nacional sempre foi uma coisa que queríamos fazer. Dar valor à BD nacional e trazer de novo as coisas que já estão perdidas, material inédito ou histórias que saíram só em fanzines ou ainda livros que hoje já não existem à venda e estão esgotados
há muitos anos, pois há leitores que, já nesse tempo, não tiveram acesso nem conhecem o trabalho, bem como leitores mais novos, quer em idade quer em terem começado a ter interesse pela BD há pouco tempo. Também temos pena de convites que já foram feitos a algumas pessoas neste sentido e que até hoje não tiveram resposta… Quer em publicar material antigo ou inédito, quer em editar novo trabalho e novos projetos de alguns autores já bem conhecidos pelos seus trabalhos no passado.

NPS: Miguel Ángel Martín tem sido o vosso autor estrangeiro de eleição. Não sendo uma escolha óbvia, como surgiu a ideia de editar anualmente um livro deste autor espanhol?
SM: Para nós, publicar este grande autor é uma escolha óbvia e um desafio ao mesmo tempo. O Jorge sempre quis ter a oportunidade de trabalhar especificamente com este autor e de o publicar em Portugal. E eu gosto imenso do seu trabalho… E tornei-me fã das suas obras e pelo conteúdo importante que quer transmitir. Posso dizer que a BD, no seu geral, ficou a ganhar e ficou mais rica com este autor, quer se tratasse de um autor nacional ou internacional. Temos a mania de dizer que é um autor que não é fácil e que é catalogado como “underground”. No fundo, o que isto quer dizer é que o público é que é difícil e que não quer ler esta obra ou que a leitura desta seja mais complexa. Para alguns, se calhar é melhor que estes temas que dizem algo e que queiram transmitir algumas coisas importantes sejam underground. É um autor que retrata de uma forma muito clara – linha clara – situações complexas sobre o Homem e o contexto social em que vivemos. Por vezes, podemos ler esta obra como pura ficção mas, no fundo, tem conteúdos realistas e pesados, como a violência e sexo. Também gostaria de referir que este autor veio algumas vezes a Portugal como convidado de certames de BD, sem uma única obra editada em Portugal.

NPS: Em entrevista anterior ao Bandas Desenhadas, declararam que Miguel Ángel Martín era um autor que merecia uma maior atenção por parte da crítica especializada e dos leitores. Como explicam esse aparente alheamento?
EA: É, sim, um autor que merece maior atenção por parte de todos. Entendemos que há um alheamento deste tipo de obra porque é de difícil leitura. São obras frias, quer no argumento quer no desenho, com um impacto forte e sujo, sendo as histórias mais pesadas do que parece à primeira vista. Também tem, ao longo da obra, componentes agressivas, sendo estas os conteúdos-base do enredo. As pessoas estão mais habituadas às BD “bonitinhas”, aos álbuns franco-belgas e material dentro desse género e não procuram nem leem tanto as coisas “diferentes”, como este caso.

NPS: O Espírito do EscorpiãoA Máscara do Genocídio de Srebrenica foi galardoado com a Menção Honrosa de Melhor Argumento Estrangeiro nos Prémios Bandas Desenhadas 2019, abordando uma temática extremamente importante. Quais são as temáticas atuais que mais os preocupam e quais delas têm vindo a ser alvo de lançamentos de obras que versam os mesmos?
EA: Os temas são os mais diversos. Tentamos publicar obras que transmitam mensagens de alerta para aquilo que se passa neste planeta. Mas cabe ao leitor ir descobrindo as temáticas que vamos lançando com os nossos livros.

NPS: Para além de Portugal, Espanha e Itália, têm nos vossos horizontes a publicação de obras originárias de outros países a curto ou médio prazo?
EA: Temos interesse em editar obras e trabalhar com autores europeus.

NPS: O vosso plano editorial tem vindo a crescer ano após ano quanto ao número de lançamentos. Qual o segredo? E como se sentem com a edição do 50.º livro de banda desenhada?
SM: O segredo é resistência e o gosto por aquilo que se está a fazer. Trabalhar e dar sempre o nosso melhor, dentro das possibilidades existentes. É ter muita paciência e resiliência e não ligar a “coisas menores” e outros tipos de comentários e situações que possam aparecer.
JD: Resiliência a todos os factores adversos que existem no nosso meio editorial e amar a Arte.

NPS: O vosso plano editorial para 2020 era inicialmente mais ambicioso. Com a pandemia de COVID-19, os livros de MAF, de Derradé, de Inês Fetchónaz e de Diogo Lourenço com Maggie BC (presume-se que o título “Dissonâncias Cognitivas” de Ricardo Santo tenha sido alterado para “Planeta Psicose”) não se concretizaram. Foram cancelados ou adiados para 2021?
JD: Com a pandemia as coisas complicaram-se e vão continuar a complicar; não é algo que prejudica somente este ano de 2020. O livro Planeta Psicose, que tinha anteriormente outro título, como identificaste, teve alguns atrasos por vários motivos mas editámos e lançámos ainda este ano, como tínhamos acordado. Há obras que foram adiadas… Umas porque os autores não conseguiam concluir para a altura que tinha sido prevista e combinada e porque também a pandemia fez com que alguns projetos não pudessem ser publicados como desejaríamos.
SM: Por vezes, o atraso também acontece na editora porque muitas vezes temos de mexer na obra, como limpeza de pranchas, tratamento das páginas e colocação de tamanhos uniformes, balonar ou refazer várias coisas porque alguns autores não o querem fazer, por exemplo. E ainda há quem goste de dizer e criticar que “apenas publicam e não editam” e que não há “trabalho de editor”… Sem saberem sequer como se trabalha e como se fazem as coisas na Escorpião Azul. Também gostávamos de referir que, por vezes, há obras que nos são apresentadas e acordadas para publicação e que os autores mais tarde desistem e não desenvolvem o seu projeto, não avisando sequer a editora que tomaram outro caminho ou que já não pretendem fazer a obra. O que é uma pena e também é a uma grande falta de profissionalismo e de respeito para com a Editora. Se a editora dá ar que tudo é fácil e que não há trabalho e corre tudo sempre bem e à primeira … Ainda bem, é bom sinal.

NPS: É possível viver da edição de BD em Portugal com uma pequena editora? A Escorpião Azul é um projeto autossustentável?
EA: Ser editor em Portugal não é fácil e muito menos de banda desenhada de autores portugueses. Há quem diga que somos loucos por investirmos o nosso dinheiro na sua publicação. Neste momento, a editora é autossustentável e dependemos ambos dela com muito esforço da nossa parte. No ramo da edição, é preciso gostar daquilo que faz e nós os dois gostamos imenso.

NPS: Quais foram as 3 obras mais vendidas em 2020?
EA: As obras mais vendidas foram Júpiter (edição integral), O Penteador e Universo Negro.

NPS: Que obra de 2020, publicada por vós, merecia mais atenção por parte da crítica e do público?
EA: Achamos que o livro que passou lado foi O Último Sopro dos Mortos do Davide Garota. É uma obra fantástica, cheia de dinâmica cinematográfica e de misticismo. 

NPS: Que revelações podem realizar do vosso plano editorial para 2021 e quais são os vossos planos para a editora a médio prazo?
EA: As coisas que se podem afirmar são muito poucas, pois o ano é completamente imprevisível em vários aspetos. Não nos queremos estar a comprometer com toda a certeza, quer com o autor que com o público, porque pode acontecer alguma coisa que vá impedir de algo acontecer e de concretizar. A primeira obra a lançar em 2021 será de um novo autor. O livro chama-se Um Trovão no Caminho e outras Histórias e é da autoria de António Rocha. Temos também a sair em 2021 A Guerra nas Margens do Rovuma do MAF, aka Mário Ferreira, um autor que já foi publicado por nós anteriormente. Por fim… Podemos também dizer que vamos ter uma obra estrangeira. É de um autor italiano, Andrea Ferraris, e o livro chama-se Churubusco. Claro que teremos outras obras a produzir mas faremos a sua revelação um pouco lá mais à frente.

NPS: E, para terminar, num tom animado, porque alguns autores nos recomendam que nunca lhes perguntemos se vão editar obras em capa dura?
EA: O nosso objetivo não é publicar livros de capa dura; esse trabalho já é feito pela grande maioria das editoras de banda desenhada. A diferença da Escorpião relativamente aos concorrentes é essa mesma, bem como publicar livros portáteis e acessíveis de autores portugueses, para os dar a conhecer aos possíveis leitores.


SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.