Batman negro como a noite.

Antes de mais, temos que afirmar que Batman: Maldito é um livro com um muito bom argumento de Brian Azzarello e muito boa arte de Lee Bermejo, o que faz dele um objeto imprescindível em qualquer estante. Em Portugal, foi editado pela Levoir o ano passado. O Joker morreu e o Batman não se recorda se é culpado por isso ou não. Durante toda o enredo, vemos um Batman confuso e até desesperado perante a possibilidade de ter cometido assassinato. A história passa-se como se fosse um pesadelo ou algo de origem sobrenatural; pode ser mais ou menos consentânea mas a arte implementa a ideia de algo fantasmagórico e Bruce Wayne acaba por revisitar a noite em que perdeu os seus pais. Uma ferida que jamais será apagada e fechada.

A arte de Lee Bermejo é sombria e realista, imprimindo à história um lado negro mas sempre extremamente bela. Os desenhos de Lee Bermejo são super-realistas e o homem morcego aparece com um uniforme muito perto do que é utilizado por Christian Bale na tripla de filmes de Christopher Nolan (Batman – O Início, O Cavaleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Renasce). A arte cria uma Gotham negra e escura, como muitas vezes é representada, mas, desta vez, com uma surpreendente aura de sobrenatural. São utilizadas cores muito sombrias para realçar o tom escuro da narrativa, constatando-se também uma riqueza de pormenores no que toca a edifícios e vegetação. Ou seja, é uma junção de uma história extraordinária com uma arte transcendente, criando algo fora do normal.

A história tem um clima soturno, em jeito de cinema noir (ambiente contemporâneo e urbano, cenários noturnos e interiores sombrios, niilismo). E isto funciona muito bem num enredo de mistério  e enigma, perante a possibilidade do homem morcego ter matado o Joker. Constantemente, existe uma simbiose entre a realidade e a ficção, cuja tentativa de distinção poderá ser algo atrativo para o leitor. O argumento conta com as participações de John Constantine (criado por Alan Moore, Stephen R. Bissette, Rick Veitch e John Totleben) e o Monstro do Pântano (criado por por Len Wein e por Bernie Wrightson).

No fim, há também uma referência à Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland, que foi publicada pela primeira vez nos Estados Unidos da América pela DC Comics no ano de 1988 e, em Portugal, foi editada pela primeira vez pela Devir em 2002. Como se pode verificar em baixo, a primeira imagem refere-se a Maldito e a outra à Piada Mortal:

Em 19 de setembro de 2018, o primeiro número de três desta minissérie inaugurou a chancela DC Black Label, destinada a leitores adultos. Tal como outras obras da DC, Batman: Maldito não faz parte da cronologia ou temporalidade do universo DC.

Inicialmente, esta obra ficou conhecida por uma certa polémica devido, a dado momento, à nudez frontal de Bruce Wayne. Como resultado, a editora autocensurou tal nudez, substituindo a edição digital e reeditando em papel a uma nova versão sem a dia nudez, a qual também já não consta da compilação em livro norte-americana nem da edição portuguesa. No entanto, o livro é muito mais do que isso e esse pequeno detalhe é apenas um fait divers.

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo PereiraColaborador
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.