Um silêncio de morte.

Mais uma grande história do cavaleiro das trevas em que alguns dos seus principais inimigos aparecem (Crocodilo, Hera Venenosa, Joker, Enigma, etc), com a particularidade de se mostrarem mais agressivos e com um modus operandi diferente do habitual.

A obra redefiniu o personagem, mais uma vez, no início do século, preparando o “terreno” para mudar a conjuntura da banda desenhada e do próprio Batman. O feito teve a sua produção originalmente nas revistas Batman 608 a 619. Com muito mistério, o homem morcego procura desvendar uma trama que coloca em causa o próprio Bruce Wayne, desconfiando que quem está por trás dos acontecimentos sabe a sua identidade secreta. Embora tenha sido publicada há quase vinte anos (outubro de 2002 a setembro de 2003), a obra continua a ser relevante e divertida. Após o sucesso do arco entre os seus leitores, o argumentista Jeph Loeb e o ilustrador Jim Lee chegaram a planear a sua continuação por mais seis edições mas isso acabou por não se concretizar.

A história, que conta com arte-final de Scott Williams e com Alex Sinclair nas cores, foi editada em Portugal pela Devir em 2003, em 5 publicações. O argumento é complexo numa boa vertente e cheio de mistério mas peca por ter demasiados heróis e vilões. A arte de Jim Lee merece destaque, com o seu traço fino, colocando todos os pormenores em evidência; pormenores esses que acrescentam beleza à história – do princípio ao fim, a narrativa visual é forte. Quando Jeph Loeb define a cena à noite, o trabalho de Williams é realçado, com o capuz do cavaleiro das trevas a sobressair e os olhos brancos a brilharem como uma estrela. Também temos de realçar as cores utilizadas por Alex Sinclair, as quais, por um lado, dão vivacidade ao enredo mas também um aspeto noturno. Ele utiliza apenas uma corpara enfatizar uma determinada cena; por exemplo, quando Clayface se faz passar por um Jason Todd mais velho e aparece um céu vermelho-sangue. Também a relação entre o Batman e a Mulher-Gato tem mais um episódio no seu romance.

O Duas-Caras, que, após uma cirurgia que restabeleceu o seu rosto, se tornou de novo Harvey Dent com o regresso da sua sanidade mental, é tido como o culpado de ter orquestrado o plano para exterminar o homem morcego. No final, quem orquestrou o plano, é, afinal, outro personagem e constitui uma grande surpresa… O livro tem particularidades noir, sendo a narração, qual voz off, a do próprio Batman. Nesta história, também foi introduzido um novo vilão do homem morcego, Hush (Silêncio), o qual era amigo de infância de Bruce Wayne, sendo um homem sem superpoderes mas valendo-se de um grande intelecto e fortes habilidades ao nível do combate corpo a corpo.

Quando o Batman vai para Metrópolis no encalce da Hera Venenosa, encontra-se e com o Super-Homem e defronta-o. Os dois são amigos mas a Hera está a controlar o homem de aço e dá-se uma batalha entre ambos, luta essa que é ganha pelo cavaleiro das trevas. Literalmente, espanca o Super-Homem com a ajuda de um anel de kryptonite. Aliás, o homem morcego aparece, em algumas situações, mais agressivo do que o habitual. Quando supostamente o Joker mata Thomas Elliot, leva-o quase a matar o palhaço do crime, não fosse a intervenção de Jim Gordon.

A banda desenhada também foi adaptada à animação, sendo escrita por Ernie Altbacker e com a voz do Batman protagonizada por Jason O’Mara. Esta produção da Warner Bros. Animation e DC Entertainment, com cerca de 81 minutos, foi lançada a 20 de julho de 2019.

Silêncio é uma banda desenhada que prende do início ao fim e que procura explorar o lado mais humano de Bruce Wayne, ao ser confrontado com os seus sentimentos e medos. É uma obra cheia de mistério, intriga e ação e, neste momento, configura-se como uma banda desenhada de “leitura obrigatória”, que faz um bom balanço entre o lutador mascarado e o grande detetive que é. Para quem gosta do Batman, é uma BD de que certamente apreciará muito e, para quem (ainda) não gosta, é uma boa maneira de se se interessar mais pelo universo do cavaleiro das trevas!

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.