De Ricardo Henriques e Nicolau.

Estou muito contente por ter comprado o 1.º Direito de Ricardo Henriques e Nicolau. Um livro de ilustração infantil pode fazer-nos o dia. Ainda mais quando nos revemos numa miúda de oito anos. Revemos? Palavra estranha. Penso que é mais ver. Vi-me naquela miúda. Assim, talvez. Uma miúda de oito anos que observa as pessoas do seu prédio e faz um filme mental com o senhor do 1º direito.

Graça, é assim a sua graça em homenagem a Grace Kelly do filme Janela Indiscreta do Hitchcock e parece-me uma boa altura para rever o filme. Não me recordo de quase nada e ainda aprendi e “conheci” Hal Pereira. É feio “cuscar” mas quando temos oito anos torna-se delicioso ver. Digo eu. Mas Graça quer ser detective, espero. São ossos de ofício, claro. Vamos lá dar-lhe o mérito pelo seu esforço.

O livro está tão bem sacado e desenhado: cores quentes e tão “largas” que se torna engraçado ver como o Nicolau não usa o contorno e as manchas se transformam em figuras quase prontas a ser animadas. Recordo Paul Auster, também ele um pouco detective de pessoas que simplesmente querem desaparecer.

Aqui, vemos o café da esquina de noite e de dia com as suas sucessivas animações e transformações. A vida vai acontecendo “Ob-La-Di, Ob-La-Da” e a vida pode ser comovente, assim como os várias direitos da vida de um cidadão do mundo. A espécie humana vista de uma janela (indiscreta) pode ser muito aborrecida ou cheia de cor; todavia, Graça tem um reboliço no fim e espero mesmo que não fique zangada. Um suposto detective não gosta de ser observado. Assim como um fotógrafo nem sempre gosta de ser fotografado. Um curiosidade: o livro ganhou um prémio em Xangai em tempos de pandemia e confinamentos. Parece-me um bom presságio (eheh). Talvez ainda nos safemos como humanidade.

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Eis a sinopse da editora:

Este é um livro para pessoas que gostam de observar pessoas, como acontece com Graça, a protagonista desta história, contada com cores quentes, contornos policiais e alguma intriga internacional. Graça desconfia que o vizinho do 1.º direito anda a planear um assalto. Será verdade? Pelo caminho vamos conhecer várias vidas do prédio em frente: os clientes do Café Dias, um músico que dá concertos para a vizinhança e um fotógrafo incompreendido, entre outras. Quem é que observa quem? Só saberemos no final da investigação em curso.
A nova produção do Pato Lógico, com realização de Nicolau (ilustrações) e Ricardo Henriques (texto) é ligeiramente inspirada no filme Janela Indiscreta, com James Stewart e Grace Kelly, realizado por Alfred Hitchcock em 1954. Leitores mais curiosos poderão descobrir neste 1.º Direito desassossegos criativos e uma homenagem ao director de arte Hal Pereira, habitual colaborador de Hitchcock. 

Eis o booktrailer:

Ricardo Henriques é lisboeta desde sempre. Herdou o gosto pelo desenho via paterna e o gozo da escrita via uterina. Não se decidindo por nenhum dos amores, já fez design gráfico, ilustração, redação publicitária e escrita para imprensa. É editor de duas revistas, uma para adultos e outra para crianças, onde escreve sobre minudências e faz reportagens. Quando, juntamente com amigos, entrevistou e retratou pessoas com duas faces – Projecto 2 Faces – e criou um político íntegro de bigode – Presidente Honesto – aumentou sobejamente a sua felicidade interna bruta.  Em 2012, lançou, com André Letria, o livro Mar, que foi transformado numa exposição patente na Feira Internacional do Livro de Bogotá, em 2013, e um ano depois foi premiado na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Em 2015, lançou o actividário Teatro. Escreveu também o livro Elvas, a Cidade-Fortaleza, para o Município de Elvas. Usa barba e vernáculo.

Nicolau nasceu em 1986, em Vila Nova de Cerveira.
Após ter estudado design, passou uns anos a percorrer Portugal como músico com os doismileoito e depois com Nuno Prata. Entretanto fez trabalho de ilustração para músicos como Miguel Araújo e Carminho. Entre trabalho editorial e álbuns ilustrados, com projeções ao vivo e murais pelo meio, recentemente trabalhou com Casa da Música, Metro do Porto, Bibliotecas de Lisboa, Pato Lógico, Esporão, entre outros. Organiza com Joana Estrela as noites de desenho coletivo e errático Drink&Draw do Porto, cidade onde pedala.  Ilustrou o livro António Lobo Antunes. O Amor das Coisas Belas (ou pelo menos das Que Eu Considero Belas), da coleção Grandes Vidas Portuguesas, co-edição Pato Lógico/Imprensa Nacional. 

1.º Direito
Ricardo Henriques & Nicolau
Editora: Pato Lógico
Páginas: 64, a cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 19,8 x 28,8 cm
ISBN: 978-989-54344-1-1
PVP: 14,50€

SOBRE O AUTOR |

Ana Ribeiro
Ana RibeiroColaboradora
Costumava desenhar de joelhos, com os braços em cima da cama quando era pequenita e mais tarde numa mesa de escola. Os joelhos agradeceram. Cresci com banda desenhada e criei o fanzine "durtykat" em 2001. Viajei quase à pala e fui colaborando e comunicando através de desenhos, nascendo assim as Nits, em 2014. Voltei a desenhar de joelhos mas eles não se têm queixado. A última exposição foi na Galeria Mundo Fantasma, no Porto, no ano de 2019.