A morte do herói.

A obra Silver Surfer: Requiem tem argumento de J. M. Straczynski e arte de Esad Ribić. Foi publicada no nosso país pela BdMania no ano de 2008, em capa dura. O argumento de Straczynski pormenoriza os pensamentos e atitudes do herói prateado, estando o desenhador croata em grande forma com o seu estilo naturalista e, de alguma maneira, sombrio. A banda desenhada começa com o Surfista Prateado a procurar Reed Richards, mais conhecido como o Senhor Fantástico do Quarteto Fantástico, e este a confirmar os seus piores receios – o material que contorna o seu corpo está a se deteriorar e tem um mês de vida.

Todo o livro é uma breve metáfora à nossa existência e à consequente mortalidade de todos os seres vivos. Requiem é uma obra que difunde a teoria filosófica do existencialismo; vejamos esta passagem do livro: “Vivemos e morremos em fogo, sabendo que, quando morremos, renascemos na mente e no espírito daqueles que seguirão o caminho que iluminámos para eles ao longo dos tempos.” É uma história para lá da vida e morte e Straczynski aproveita para contar a origem do ex-arauto de Galactus, o devorador de mundos.

É impossível não nos sentirmos impressionados com este livro e com a sua deriva existencialista, ao estilo do Surfista Prateado, em que se mete a questão se a vida faz sentido? Albert Camus, filósofo argelino do século XX dizia: “Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.” Ele está às portas da morte e não consegue perceber os habitantes do seu planeta de acolhimento. Refere: “Os vossos líderes oprimem e exploram-vos para seu próprio proveito, e vocês permitem-no de boa vontade se, em troca, eles matarem aqueles que vocês decidiram que não são como vocês. São uma raça de loucos.”

Para se falar do Surfista Prateado tem que se falar da solidão que o assola e a sua perceção da terra e seus habitantes: “… vão contra a vossa natureza quando se dividem para tornar mais fácil matarem-se uns aos outros. Países, bairros, credos, nomes, partidos, clubes. Vocês matam-se uns aos outros por um par de ténis.” A filosofia e moral cristã foram implementadas por Stan Lee, que foi um dos seus criadores com Jack Kirby. Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX dizia: “Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio do desconhecido ou do que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio.”

No livro, é descrita uma cena em que duas raças extraterrestes lhe pedem para acabar com a guerra entre elas e o Surfista destrói as suas armas e ataca os seus lugares religiosos para assim poderem ver que a uma das religiões não era melhor que a do outro. Isto constitui um paralelo com a terra e seus habitantes, na medida em que desfaz a ideia que existe uma religião “verdadeira”. É mais que a morte de um super-herói, é a morte de uma pessoa. É aqui que o leitor entende quem é o Surfista Prateado, ou melhor, Norrin Radd, um alienígena pacifista e pleno, cujo maior desejo é estender isso a todo o Universo.

Este livro do Surfista Prateado – personagem que apareceu na capa do álbum de Joe Satriani Surfing with the Alien e foi um dos protagonistas do filme de 2007 Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado – conta também com a participação do Quarteto Fantástico, do Homem-Aranha e do Doutor Estranho. Originalmente publicada pela Marvel em 2007 na sua chancela Marvel Knights enquanto uma minissérie de 4 revistas, tornou-se um clássico instantâneo que vale a pena ler, ainda mais tendo um personagem tão misterioso e grandioso como o Surfista Prateado.

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo PereiraColaborador
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.