O racismo não tem lugar numa sociedade civilizada.

Na banda desenhada, Raio Negro, no original Black Lightining (não confundir com o personagem Raio Negro da Marvel, originalmente denominado Black Bolt), apareceu pela primeira vez na revista Black Lightning #1 da DC Comics em abril de 1977, tendo sido criado por Tony Isabella e Trevor Von Eeden. A série televisiva Raio Negro (Black Lightning) baseia-se nesta personagem da DC Comics

Basta ver alguns minutos da série para ver que tem qualidade, esta que é a primeira com super-heróis negros. Uma série politizada que fala dos problemas do racismo e como o negro é visto como um “ser inferior e como se deve desconfiar dele”. Fala de questões como a violência e de bairros tipo “gueto”, tal como aquele onde Raio Negro reside, em que a maior parte das pessoas são negras e pobres e é controlado por um gangue de seu nome os cem. Como diz o reverendo Holt, interpretado por Clifton Powell na primeira e segunda temporada, “se fosse um branco era um super-herói mas como é negro é um vigilante ilegal”. Ou como diz a filha mais nova de Raio Negro, Jennifer Pierce, “a raça influencia tudo nos EUA, se disser que não, então está a mentir ou é demasiado ingénuo”.

A primeira temporada tem 13 episódios e a segunda e terceira têm 16 cada. A quarta e última tem estreia marcada para o dia 8 de fevereiro nos EUA. As primeiras 3 temporadas estão disponíveis em Portugal na Netflix. Os episódios têm entre 39 e 43 minutos. Nos principais papéis, temos Cress Williams como Raio Negro, China Anne McClain como a sua filha mais nova, Nafessa Williams como a filha mais velha, Christine Adams como a sua mulher e Marvin “Krondon” Jones III como o vilão Tobias Whale. O destaque inequívoco vai para este último, graças à sua representação. De uma forma muito geral, a primeira temporada é muito politizada, a segunda é menos e dá mais lugar à ação e a terceira é a melhor, com uma ocupação à cidade por parte do governo americano.

Logo na primeira temporada sabe-se que o governo lançou um composto na água da cidade num momento de tensão racial para assim poderem controlar melhor a população; como efeito secundário, criou pessoas com poderes. A terceira temporada explora mais essa questão com um país (Markovia), a tentar invadir Freeland, onde reside o Raio Negro, para os raptar. Esta temporada é uma metáfora à situação dos negros – Markovia quer levar as pessoas com poderes e criar um país. Como diz Gravedigger, um dos líderes da invasão, “isto é um país criado por brancos ricos e Obama foi comprado pelas multinacionais”. E se Freeland for invadida, o governo dos EUA vai explodir a cidade.

Raio Negro tem várias menções a acontecimentos e situações reais como Rodney King, que foi espancado pela polícia em 1991, ou, no princípio da segunda temporada, em que um negro é morto pela polícia como George Floyd em maio de 2020. Os serviços secretos que perseguem o Raio Negro chamam-se ASA e neste caso trata-se de um claro trocadilho com a sigla NSA (a Agência de Segurança Nacional é um dos órgãos americanos dedicados a proteger as comunicações nacionais). Um dos seus responsáveis profere a frase mais conhecida do ex-presidente dos EUA, Donald Trump,“make America great again”. Na série, existe ainda a referência a uma droga altamente viciante de seu nome “luz verde”, sendo isto uma menção às alegações do envolvimento de instituições governamentais americanas com o tráfico de cocaína dos Contras em solo americano na década de 80.

Mas nem tudo é bom em Raio Negro. De uma forma geral, capta bem o drama familiar da separação forçada ou de a filha mais nova precisar de esconder e aprender a controlar os seus novos poderes. O problema é quando o super-herói entra em ação – tudo parece uma caricatura e a série perde qualidade. A própria relação entre a filha mais nova do Raio Negro e o seu namorado Khalil é mal conseguida e, por vezes, torna-se infantil e forçada. Outro dos problemas é que, por vezes, temos a impressão de que existem demasiados episódios para a história que está a ser narrada.

Em jeito de conclusão, estou ansioso pela quarta temporada, em que tanto Gravedigger como Tobias Whale (vilões da primeira e segunda temporada) estão livres. Não é uma série espetacular, mas aborda temáticas muito interessantes. Como dizia Martin Luther King, “Eu tenho um sonho. O sonho de ver os meus filhos julgados pela sua personalidade, não pela cor de sua pele.”

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo PereiraColaborador
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.