Análise à banda desenhada Desvio de Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho.

Ana Pessoa é autora de vários livros infantis e juvenis, todos eles editados pela editora Planeta Tangerina. Contudo, já trabalhou com Bernardo P. Carvalho, editor e ilustrador, em outros livros, mas não em banda desenhada. Juntos, em 2020 decidiram criar Desvio, uma banda desenhada portuguesa, lançada também pela editora Planeta Tangerina.

Desvio explora, através da banda desenhada, uma analogia entre os jovens da atualidade e os seus complexos, tanto pessoais como existenciais, uma vez que todos, por vezes, os vivenciamos.

Ao longo da história, o leitor pode-se sentir na pele do personagem principal, Miguel, e identificar-se com ele, assim como diante dos seus problemas quotidianos. Da mesma forma que o personagem lê o código de estrada está, de certa forma, a aprender como enfrentar novos desafios na vida, como regras, o que pode nos ajudar  a pensar como a vida reflete as linhas da monotonia, da solidão e do tédio nos instantes do quotidiano e em contextos pessoais, assim como está a acontecer com ele. O personagem expressa tanto os seus pensamentos como os sentimentos cheios de significados que nos acolhem a alma.

Miguel partilha com o leitor pensamentos, complexos existenciais e pessoais que dão a conhecer todas as suas dúvidas e os seus medos – como o medo pelo desconhecido -, assim como incertezas e inseguranças, marcadas na vida de um jovem, de quem é sempre esperado muito, por parte do mundo que o rodeia e onde este apenas quer fugir “a sete pés” da sua própria mente.

Apresentando agora o livro, estamos em pleno verão. Miguel reflete estar há dezoito anos sem saber o que ele próprio espera de si mesmo. O último ano não o ajudou muito, pois o seu cão morreu e ele, agora, enquanto vagueia pela casa, sente a sua falta. Por outro lado, também não fala com o pai há semanas, não passou a matemática e foi operado ao joelho.

Para piorar o seu ânimo, a namorada saiu-se com a clássica fuga resumida por “preciso de um tempo”. Miguel sente-se melancólico com as circunstâncias do momento um pouco frias e resolve ficar em casa, decidido a não ir de férias com os seus pais nem com os amigos.

Miguel tem então agora a casa livre só para ele.

Porém, mesmo entretido a jogar computador, a estar nas redes sociais e a ler o Código da Estrada, Miguel tem pensado muito e o seu cérebro aventura-se a consumir os seus dilemas.

Contudo, tanto os silêncios, como as interpretações ocultas e as reflexões manifestadas no desenlace do livro recorrem a monólogos fluídos e expressivos, bem como aos diálogos com a tia, pessoa de fora do meio de Miguel, que o convida a almoçar com ela para este espairecer e onde ela tenta entender o que vai na sua cabeça. Há ainda momentos vagos, como quando a mãe de Miguel lhe pede um abraço e ele se sente confuso.

Quanto à ilustração, apresenta um estilo moderno, vivaz e confiante que dá identidade, personalidade e frescura à história através de cores vivas.

Abaixo, partilho alguns esboços do livro, fotografados por Joana Pardal:

SOBRE O AUTOR |

Sara Sofia Rodrigues
Sara Sofia Rodrigues
Gosta de ler. É apaixonada pela luz, cor e movimento, tanto na ilustração como na expressão de movimentos em criar efeitos visuais na animação e vídeo. A ilustração é a fuga das suas ideias, assim como é respirar.