Análise ao livro de Daniel Clowes.

Como uma Luva Forjada em Ferro da autoria de Daniel Clowes lembra-me David Lynch (que também se dedicou à BD com a publicação semanal de The Angriest Dog in the World em Los Angeles Reader entre 1983 e 1992). A surrealidade é uma realidade literal, como comprova o facto de haver um cão sem focinho, uma rapariga que trabalha num café que é mutante ou um criminoso que está sempre de tronco nu. Foi lançada no nosso país no dia 29 de agosto de 2019 pela Levoir em parceria com o Público, sendo originalmente publicado em 10 capítulos (entre 1989 e 1993) na revista Eightball. Clowes é visto como o grande sucessor de Robert Crumb, um dos fundadores do movimento underground da banda desenhada americana. Como perfeccionista que é, redesenhou várias vezes as múltiplas personagens de modo a tudo sair como imaginou.

A ação começa com um deslocar do personagem principal (Clay Loudermilk) a um cinema para ver um filme fetichista e snuff (género em que as mortes filmadas são reais). Entre as várias curtas nojentas e malfeitas que são exibidas, uma delas chama sua atenção: “Como uma luva de veludo forjada em ferro”. Não há sexo, não há nudez. Há somente uma mulher com roupa e máscara de couro, espancando um homem, e dois outros velhos bizarros. No fim da curta, a cabeça dos velhos surge decepada em cima de um tapete e a mulher tira a máscara de couro, o que lhe permite reconhecer a sua ex-namorada Barbara Allen. Decide voltar a encontrar a encontrá-la e entra numa fila para consultar um guru numa casa de banho do cinema, que tudo sabe e lhe diz que o filme pertence à produtora Interesting Productions do Dr. Wilde, com sede numa cidade próxima, Gooseneck Hollow.

Desloca-se lá pedindo emprestado o carro a um amigo que tem lagostas em vez de olhos e conhece um sem número de personagens: entre eles uma dupla de polícias que o espanca ou hippies que rodeiam um profeta (baseado em Charles Manson). Como se começa a adivinhar, estamos perante uma obra sem heróis ou moralidades, que caminha entre trilhos metassexuais sujos e catárticos, colocando em causa preconceitos.

Como uma Luva Forjada em Ferro não pode ser lido duma maneira linear e esperar que tudo pode ser facilmente interpretado e compreendido, desta obra que já foi classificada como “uma assustadora jornada de loucura”. É uma história policial que tem muitos toques de grotesco e grande intensidade com muitas reviravoltas. O título reporta ao filme de Russ Meyer Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965), no qual a atriz Lori Williamns profere a expressão “És bonito como uma luva forjada em ferro”.

Daniel Clowes pegou em dois ou três sonhos seus e da ex-mulher, para construir um road movie cerebral que elimina qualquer fronteira entre o pesadelo e a realidade. Nas palavras do autor, “muito disto são apenas sonhos acordados, onde… Eu posso ter estes pensamentos que são incontroláveis pela lógica comum e consigo ver as coisas por outro prisma. É a mesma coisa como quando acordamos de um longo sonho e, por um minuto, vemos o absurdo do mundo.” Estranho, divertido e inquietante, Como uma luva de veludo forjada em ferro é um dos mais importantes e perturbadores livros de um dos maiores nomes da banda desenhada alternativa americana.

Os títulos de Clowes têm sido frequentemente adaptados ao cinema, como aconteceu com Ghost World, Art School Confidential e Wilson. Mas Como uma luva forjada em ferro, que está perto do mundo de David Lynch ou David Cronenberg não foi transposto, a não ser no mundo ficcional do próprio Clowes, como pode ser lido em Eightball #11. No entanto, este livro é, por vezes, é comparado à série Twin Peaks, criada por Mark Frost e David Lynch, devido ao seu caráter surreal e bizarro. Se não foi transporta para o cinema, não deixou de inspirar Victor Banana para realizar uma banda sonora para esta BD, lançada em 1993 pelo selo Jenkins-Peabod.

Em suma, Como uma Luva Forjada em Ferro é uma obra que merece ser lida e interpretada pelos leitores para se perceber como uma história do mestre Daniel Clowes e do seu estranho mundo pode ser complexa e profunda! A obra é de uma imaginação incontrolada e surge como algo provavelmente muito diferente das habituais leituras em BD, sendo um livro que aposta numa “adoração ao caos e ao nonsense. Clowes traduz com esta história um certo vazio existencial das pessoas, demonstrando também como as nossas opções de vida podem não ser as mais acertadas… Caótico, brilhante, doentio e surreal são alguns dos adjetivos que se lhe adequam.

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.