Undertaker: Livros 1 e 2.

As pessoas não gostam de nós. Há quem diga que é porque passamos o nosso tempo no meio de cadáveres. Transmitimos a morte como outros transmitem as bexigas. Vá-se lá saber onde foram buscar isso! A verdade, é que as pessoas não gostam de nós. E ainda bem. Também não gosto delas.

É com esta sucessão de pequenas frases depressivas e azedas que se iniciam as aventuras de Undertaker, o cangalheiro do “Oeste Selvagem”.

Se estivéssemos na presença de uma aventura de Lucky Luke, o protagonista desta série seria apenas um personagem menos que secundário, apto exclusivamente a desempenhar um único gag.

Mas nesta série, o escritor é Xavier Dorison (o mesmo de, por exemplo, O Castelo dos Animais) e o que é secundário para uns, passa a principal para outros!

Inserindo-se no género western, e não deixando de respeitar os seus principais cânones, Undertaker é, no entanto, tudo menos mais do mesmo! E até o traço de Ralph Meyer à la Jean Giraud (aka Moebius) dá um cunho original a esta série.

1 – O DEVORADOR DE OURO

Originalmente, é publicado em álbum em Janeiro de 2015 pela Dargaud. Em Portugal, O Devorador de Ouro foi editado pela Ala dos Livros em Setembro de 2019.

Os grandes espaços a céu aberto… Estamos na segunda metade do século XIX, em pleno território selvagem dos Estados Unidos. A Guerra da Secessão acabou há pouco e nas vilas de fronteira, a maior parte das vezes, ainda vigora a lei… Do mais forte!

Jonas Crow é um cangalheiro que anda de terreola em terreola a oferecer os seus préstimos a quem mais precisa, ou seja, às famílias de defuntos. Mas o que não é habitual é ser contratado por um futuro defunto para fazer o funeral deste no dia seguinte a conhecê-lo.

É exactamente o que se passa com Joe Cusco, o magnata do ouro de Anoki City. Quando Jonas Crow chega à rica moradia de Cusco, depara-se com o “morto” ainda vivo e pronto a combinar com ele os mais ínfimos pormenores do seu enterro.

Convidado para jantar à mesa do milionário, o que Jonas Crow ainda não sabe é que Cusco resolve ter como última refeição a sua fortuna em pepitas de ouro regadas com um suculento molho – a forma perfeita de se suicidar e de se antecipar à chegada dolorosa da morte, já que o destino lhe tinha reservado uma doença terminal.

Literalmente cheio da sua própria fortuna, o último desejo de Cusco é de ser enterrado na mina onde encontrou o seu primeiro filão. As pepitas irão com ele para o Além e não serão de mais ninguém!

E é essa a missão de Jonas Crow: levar discretamente o corpo de Cusco até ao filão “Red Chance”, na companhia vigilante de Rose Prairie, a governanta inglesa, e de Madame Lin, a cozinheira chinesa.

Mas a missão secreta chega aos ouvidos dos mineiros de Anoki City que, indignados e fartos de serem explorados por Cusco e manipulados por um empregado descontente do milionário, acham ter direito a parte do quinhão. E atrás do tesouro sepultado nas entranhas de Cusco está também o ambicioso e implacável xerife da cidade.

Jonas Crow parte então com destino a “Red Chance”, levando o corpo de Cusco. Ao longo da viagem atribulada, tanto o Cangalheiro como a bela, fria e leal Rose e a rude Madame Lin vão revelando as suas personalidades, atributos escondidos e segredos.

A acompanhá-los vai Jed, o abutre de estimação de Jonas Crow. E no encalce do grupo vão os mineiros furiosos e o perigoso xerife.

Se já leram todos os álbuns de Blueberry, de Comanche, Duke, Lucky Luke ou Tex, se pensam que o western é um género datado e ultrapassado e se julgam que já nada os pode surpreender, desenganem-se!

Xavier Dorison podia ter escolhido como herói da sua nova série um cowboy solitário, um tenente com barba de três dias, um capataz de um rancho ou um pistoleiro calculista. Mas escolheu um cangalheiro bem-apessoado, irónico e cínico, com um passado obscuro. E como seu companheiro, um abutre desirmanado do bando que o segue incondicionalmente.

E, neste díptico de abertura da série, arranjou-lhe como companheiros de viagem uma bela Rosa inglesa e uma cozinheira chinesa da qual esperamos, a todo o momento, que se transforme num ágil guerreiro ninja.

Não deixando de respeitar os cânones do western clássico, Dorison quebra todos os códigos para depois os refazer bem ao seu estilo inspirado, criativo e talentoso.

Assim, não deixamos de ter brigas e rixas, disparos das mais variadas armas, perseguições a cavalo, a cobiça pelo ouro, multidões inflamadas, um xerife corrupto, um herói e uma bela heroína, canyons e terra avermelhada, pequenas cidades do Oeste e saloons.

Mas, depois, há as pequenas variações ao género que tornam este argumento numa verdadeira pepita: um morto que não está morto e que enche a pança de ouro, uma missão sem glória embora geradora de heróis, a perseguição ao cadáver fugitivo, pequenos momentos existencialistas e reflexivos amenizados com laivos de humor, um protagonista que tem tanto de compaixão como de raiva, tanto de bondoso como de violento, prendendo a nossa atenção logo na primeira página. E (tenho de falar de novo nele) o abutre Jed – porque será que acompanha Crow? Terá alguma relevância para o correr da história? Terá algum papel decisivo no desenrolar da acção?

Enfim, um argumento dinâmico e original magnificado por belas pranchas que tornam compulsiva a leitura deste álbum.

O traço de Ralph Meyer (que admite inspirar-se em Giraud) é elegante, preciso e eficaz, com um domínio superior das sombras e dos pontos de luz. A expressividade dos personagens serve magnificamente o correr dos diálogos. A divisão das pranchas acelera o ritmo da narração. E a rica e variada paleta de cores fornece o toque final a um álbum que é, todo ele, um puro deleite.

Com a dupla Dorison/Meyer, chegamos a sentir o cheiro da pólvora a emanar do cano de um revólver Colt e a brisa suave que sopra ao entardecer por entre os grandes desfiladeiros.

2 – A DANÇA DOS ABUTRES

Originalmente, é publicado em álbum em Novembro de 2015 pela Dargaud. Em Portugal, A Dança dos Abutres foi editado pela Ala dos Livros em Fevereiro de 2021.

Jonas Crow, Jed, o seu abutre de estimação, Rose e Madame Lin conseguiram abandonar Anoki City com destino à mina de “Red Chance”.

Agora, à sua frente estão três dias de viagem dura, por territórios pouco explorados, poeirentos e com temperaturas capazes de “fritar” os miolos dos cowboys mais experientes.

E como se isso não bastasse, enquanto são perseguidos pela população mineira da cidade, por McKullen, o braço direito do defunto Cusco, e pelo xerife ávido de ouro, são apanhados por uma tempestade enquanto tentam percorrer um perigoso trilho de montanha e atravessar uma perigosa ravina, apenas protegidos dos elementos pela carroça fúnebre.

Crow e companhia pensam estar a salvo quando, à sua frente, se lhes apresenta uma ponte suspensa que os poderá levar ao outro lado da ravina e distanciá-los da turba irada. Mas é nesse preciso momento que começa uma barragem de fogo, um tiroteio nocturno que, de tão intenso, ilumina a penumbra.

A cavalaria, em patrulha pelo local, e ao ouvir a violenta fuzilada, intervém a tempo e acaba por restabelecer a ordem.

Aproveitando-se da confusão, Crow, Rose e Madame Lin cortam as cordas da ponte e prosseguem, aliviados, com a missão de enterrar Joe Cusco em Red Chance. Com eles, levam prisioneiro McKullen.

Mas os problemas estão longe de terem terminado. Os seus perseguidores não se dão por vencidos e continuam a caçada por um caminho diferente…

Depois do sucesso internacional do primeiro álbum de Undertaker, o segundo era esperado com grande expectativa.

Xavier Dorison e Ralph Meyer não desiludem!

A narrativa desenrola-se num intenso jogo do gato e do rato, ao longo de paisagens deslumbrantes e com doses constantes de acção que não deixam o leitor descansar por mais de poucos segundos.

Ao mesmo tempo, a personalidade e segredos de cada um dos protagonistas é dada a conhecer através de uma série de flahbacks inteligentes. E neste álbum, Lin vai-se afirmando a cada prancha enquanto Rose tem uma presença ligeiramente mais discreta.

Jonas Crow não é o herói impoluto que poderíamos pensar, tendo liquidado “meio-mundo” e sendo conhecido pelo epíteto de “o Carrasco de Skullhill”. Rose Prairie não é uma santa nem, propriamente, uma governanta fria – teve de fazer “muito” para conseguir o seu lugar na mansão de Joe Cusco. E Madame Lin maneja bem demais a arma para uma simples cozinheira.

As informações acerca dos personagens são-nos dadas a conta-gotas e a acção progride, inexorável, até ao momento da chegada a Red Chance. E até esta mina revela a originalidade de Dorison e da sua escrita, pois, estranhamente, a sua instalação é feita em altura, tornando-se uma espécie de fortaleza inexpugnável. E vai ser para aqui que todos os intervenientes na história vão confluir para o dramático momento final.

Tal como no primeiro volume, os cânones do western são respeitados, mas, de certa forma, pode dizer-se que novos são criados pela fértil imaginação de Dorison.

E se a escrita deste é sólida, ritmada e imaginativa – com uma intriga que nos deixa sempre na expectativa –, o desenho expressivo, dinâmico e preciso de Ralph Meyer, com um traço próprio –, mas que nos relembra sempre de onde vem a sua principal inspiração –, está à altura do desafio que foi criarem um novo herói.

De realçar ainda a capacidade de Meyer em criar ambientes e sensações com os seus desenhos de tirar o fôlego, sobretudo quando se foca nos rostos dos protagonistas ou nas paisagens e décors do Faroeste.

Muitos tiroteios, cadáveres e reviravoltas depois, o leitor chega ao fim na expectativa de ter rapidamente entre mãos o terceiro álbum, O Ogre de Sutter Camp. Pois, afinal, a história não acaba aqui!

Magistral!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.