Análise à série.

WandaVision é uma série que conta nos principais papéis com Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff, Paul Bettany como Visão e Kathryn Hahn como Agatha Harkness. A realização está a cargo de Matt Shakman. Estreou no dia 15 de janeiro com os dois primeiros episódios e terminou no dia 5 de março com o nono episódio, estando disponível para visualizar no Disney+. O facto de ter sido lançado um episódio semanalmente, ao invés de um lançamento integral, fez com que os espetadores que a acompanharam durante o seu lançamento a interpretassem das mais variadas formas e dessem as mais díspares teorias na internet. Uma das mais pronunciadas era a inclusão do personagem Mefisto, que não se veio a proporcionar.

Trata-se de uma série que deixa algo a desejar e o que realmente é destaque na produção é o seu mistério e enigma que acompanha os episódios. O próprio realizador explicou que “alguns fãs, com certeza, ficarão dececionados devido a uma teoria [errada] ou outra. Mas estávamos a contar essa história sobre Wanda a lidar com o luto e a aprender a aceitar perdas… E espero que as pessoas achem o final surpreendente e satisfatório”. A história vale pelo mistério em que toda a série é inserida mas, perante as expectativas, há um sentimento de perda. Em geral, os atores interpretam bem o seu papel mas os diálogos são por vezes forçados e alguns aspetos relacionadas com magia são mal explicados e somos forçados a aceitá-lo como algo para lá da nossa perceção. A conceção da série era “criar” alternativas e ideias, de modo à Marvel poder utilizar esses conceitos em futuras produções, ou seja a história narrada em WandaVision, integrada no Universo Cinematográfico Marvel (UCM), pode ser um catalisador para futuros produtos da Marvel.

Esta primeira série da Marvel no Disney+ usa referências das sitcoms norte-americanas clássicas, mostrando a rotina do casal Wanda e Visão e como eles tentam viver uma “vida normal”. Com estes 9 episódios exibidos, chegou ao seu final, como planeado, não estando prevista uma segunda temporada. Decidir se tudo isto é “bom” ou “mau” é querer aplicar os critérios certos ao objeto errado; fará tanto sentido como perguntar se um brinquedo de infância é bom ou mau, ou se as fotos num álbum de família têm ou não qualidade artística. Como quase todos os produtos do UCM, WandaVision é elaborada por pessoas competentes e inteligentes, que aprenderam aquilo que qualquer modelo de produção cultural intensiva aprende mais tarde ou mais cedo – fazer com que as massas gostem. WandaVision alternou momentos de comédia e suspense com relativa mestria, prendendo o público e gerando grande “barulho” nas redes sociais.

É verdade que a série criou muitas expectativas que não foram bem concretizadas, o que leva alguns espetadores a se sentirem frustrados. No entanto, WandaVision entrega exatamente, sem tirar nem por, o que se propôs a entregar, sem suavizar a tragédia de Wanda Maximoff e do Visão e deixando as portas abertas não exatamente para uma continuação, mas sim para que a Fase 4 do Universo Cinematográfico Marvel, que aqui se iniciou, vá por outros caminhos.

A história torna-se lenta e pouco interessante e, por vezes, parece que está a fazer episódios apenas para criar volume e não para fazer avançar a narrativa. Muitas vezes, a ação é previsível e a informação providenciada pelas mais várias personagens surge do nada. Ao contrários das boas atuações Elizabeth Olsen, Paul Bettany e Kathryn Hahn, destaca-se pela negativa Kat Dennings, no papel de Dra. Darcy Lewis, que nunca consegue credivelmente parecer uma cientista.

O primeiro e segundo episódio são inteiramente a preto e branco e homenageiam tempos ultrapassados das sitcoms dos anos 1950 e 1960. Provavelmente, a referência mais óbvia para os espetadores portugueses será o paralelo que faz com a série Casei com uma Feiticeira de 1964, em que uma feiticeira procura ter uma vida suburbana com o seu marido, de modo a materializar o “sonho americano”. É um modelo algo duvidoso mas tem que se dizer que é um conteúdo arriscado e arrojado por parte da Marvel. Nos créditos finais (e fictícios) do primeiro episódio, um dos nomes que vemos é Abe Brown creditado como realizador. Abe Brown foi um estudante da Midtown School of Science and Technology com Peter Parker e apareceu no filme Homem-Aranha: Regresso a Casa (2017). Outra particularidade é o vinho servido por Wanda no jantar com os Harts denomina-se Maison du Mépris, que traduzido para o português, é a Casa do Desprezo. Trata-se, possivelmente, de uma referência à Dinastia M, minissérie de banda desenhada de 2005 em que a Feiticeira Escarlate sofre um colapso mental e tenta alterar a realidade

No segundo episódio, começa a haver particularidades misteriosas, tais como um rádio que emite a frase “Quem te está fazer isso, Wanda?” e um helicóptero de brinquedo a cores com o logótipo da S.W.O.R.D., que é uma organização considerada “irmã” da S.H.I.E.L.D. de Nick Fury. Tal divisão luta contra o terrorismo de forma ainda mais intensa do que a S.H.I.E.L.D., tendo como objetivo proteger o nosso planeta de qualquer tipo de ameaça extraterrestre. E surge ainda o número 57; é precisamente o #57 da revista norte-americana dos Vingadores, em 1968, que apresenta a primeira história do Visão.

As duas publicidades exibidas também têm o seu mistério. A torradeira de marca Stark está associada a um trauma significativo na vida de Wanda. Ela passou por uma guerra civil e, quando tinha apenas 10 anos de idade, o seu prédio foi atingido por morteiros. A Wanda e seu irmão Pietro ficaram presos nos escombros durante dias, enquanto à sua frente estava uma bomba da Stark. Quanto ao relógio de marca Stucker, remete para o nazi Wolfgang Von Stucker, que fez as experiências científicas na Wanda e no seu irmão, como se viu no filme Vingadores: Endgame (2019).

O terceiro episódio homenageia as sitcoms norte-americanas dos anos 1970, como The Brady Bunch (1969–1974). A tinta da marca Simser parece ser uma clara referência ao artista Jeremy Simser, que está envolvido não só em WandaVision mas também no filme Doutor Estranho (2016). A publicidade do terceiro episódio traz uma clara menção à Hydra, mas a narração do comercial não pode passar despercebida: “Precisa de uma pausa? Venha comigo. Fuja para um mundo todo seu, onde os seus problemas desaparecem. Quando quer fugir, mas não quer sair do lugar: Sabão Hydra, descubra a sua deusa interior”. Tudo isto espelha a atitude da Feiticeira Escarlate.

No quarto episódio, começam-se a realizar revelações, focando-se a narrativa mais na figura de Monica Rambeau e na organização S.W.O.R.D., que cerca a cidade de Westview, para entendermos o que está a acontecer. No decorrer do episódio, é revelado que foi Jimmy Woo, agente da S.W.O.R.D., quem tentou falar pelo rádio com Wanda. Na parte final, vimos novamente o momento em que Wanda expulsa Monica de Westview, chegando a chamá-la de “invasora”.

O quinto episódio tem o propósito de clarificação. Sem sombra de dúvida, Wanda é a principal causadora do que está a acontecer, enquanto a realidade de Westview se está a desintegrar. Se este episódio homenageia as sitcoms dos anos 80 e início dos anos 90, tem também uma alusão à sitcom Father Knows Best, a qual teve mais de 200 episódios nos anos 50. O Visão rompe o condicionamento de Wanda em Norm, libertando temporariamente a sua personalidade reprimida. Os gémeos, filhos de Wanda e Visão, para além de serem capazes de envelhecer à vontade, também estão completamente cientes dos poderes de Wanda e do aparente controlo sobre a realidade. A publicidade a toalhas de papel da marca Lagos, “para quando você faz uma confusão que não queria” é a referência comercial mais direta até agora à história da Wanda. E a grande surpresa que o episódio nos traz está reservada para o final – o regresso de Pietro Maximoff, também conhecido como Quicksilver (Mercúrio, em português). Sim, o mesmo Pietro que morreu em Vingadores: A Era de Ultron (2015).

Ao invés dos episódios anteriores, que homenagearam um grupo representativo de sitcoms de uma determinada década, o sexto episódio faz referência a uma única, A Vida É Injusta (2000–2006). Pisca também o olhos ao material original da Marvel, com as fantasias de Halloween de Wanda e Visão a corresponderem aos visuais originais dos heróis na banda desenhada. A publicidade de um iogurte chamado Yo-Magic é sombria. Uma interpretação plausível é a de que não importa o quanto Wanda seja poderosa, ela não pode evitar a morte de Visão e não pode continuar a fugir dessa realidade. Por seu turno, os gémeos manifestam os seus poderes. Tommy mostra a sua supervelocidade, à semelhança da do seu tio Pietro. Quanto a Billy, possui algum tipo de telepatia, sentindo que o seu pai, Visão, está em perigo a quilómetros de distância.

No sétimo episódio, a homenagem dirigiu-se às sitcoms modernas que utilizam o estilo de mockumentary, como Uma Família Muito Moderna (2009-2020). Intitulado “Derrubar a Quarta Parede”, o episódio finalmente confirma que a vizinha Agnes é realmente a bruxa Agatha Harkness, a qual tem vindo a manipular acontecimentos dentro do “Hex”. Por seu turno, Monica deteta tentáculos a emitir uma energia roxa e é surpreendida pelo falso Pietro Maximoff.

No episódio oito, confirma-se que Wanda criou esta realidade e descobrimos que, quando criança, ela, Pietro e os seus pais utilizavam os episódios de séries norte-americanas para treinarem o inglês. Até que a bomba da Indústria Stark explodiu e deixou a Wanda e o Pietro presos nos escombros por dois dias. Também temos a revelação de um vilão, o Visão branco.

O último episódio confirma que Wanda tinha “construído” aquele mundo. Não existe propriamente um vilão – a Feiticeira Escarlate tinha feito tudo isto para conseguir ultrapassar o seu luto e desgosto. No entanto, fica a ideia de que Wanda criou graves problemas, segundo Agatha Harkness, “Não tem ideia do que despoletou, vai precisar de mim [para o resolver]”. No fim, Wanda separou a sua forma física de uma projeção astral da Feiticeira Escarlate para poder estudar o livro Darkhold e aprender mais sobre os seus poderes.

Se as homenagens às sitcoms norte-americanas foram um característica evidente e predominante (ou o seu próprio título não evocasse também a television), a série encontram-se repleta de referências não só ao próprio UCM como à banda desenhada da Marvel em que tem origem, estando repleta de piscares de olho dirigidas desde ao leitor ocasional ao fã incondicional. E sim, até uma certa homenagem ao Stan Lee está presente. Terá sido tudo isto suficiente?

De acordo com um levantamento da Parrot Analytics, divulgado pela Forbes, WandaVision tornou-se a série mais vista em todo o mundo, chegando ao primeiro lugar entre as produções mais assistidas em streaming no episódio cinco.

Entretanto, a Marvel Studios anunciou a produção de Assembled (com o título traduzido de Unidos em Portugal), uma série documental que vai retratar o making of das suas produções. O primeiro episódio será disponibilizado a 12 de março, na Disney+, e será centrado, precisamente, na série WandaVision.

SOBRE O AUTOR |

Paulo Pereira
Paulo PereiraColaborador
Apaixonado por BD, o seu livro preferido é “Maus” e tem mais livros que amigos (embora goste de amigos). Também acha que alguém devia erguer uma estátua ao Alan Moore. Dá-lhe muito prazer ver séries e filmes baseados nas mais variadas bandas desenhadas.