Textos de Hilda Hilst, ilustrados por André da Loba.

Encontrei este enorme livro na livraria bracarense Centésima Página, por acaso. Tinha as páginas meias onduladas, devido à humidade. Ahah, talvez nada aconteça mesmo por acaso! Comprei-o pelas ilustrações do André da Loba, confesso. Vectores que se transformam em cores e figuras de seres e partes do corpo: vaginas, pénis e ânus rodeados de flores e vida são as suas personagens principais. Ou talvez não. Talvez – e depois de ler com toda a atenção Hilda Hilst – fique a conhecer o seu drama, o seu incrível e superinteligente e comovente drama: Deus. Talvez signifique a Criação em Si. Ou dó, ou em ré – eheh! – e todos sabemos que sem ovos não se fazem omeletes. Por vezes, não existe amor. Apenas sexo. Não quero eu dizer que Deus nos tenha feito sem amor. Sou uma optimista. Mas, para Hilda (e permitam-me que a trate carinhosamente pelo nome), existem “aqui” algumas sérias questões e dúvidas: terá sido mesmo por amor? 

Passei a gostar muito dela. Da sua dúvida. Não por ser inteligente mas por me parecer bondosa. E isso é amor. Comove.

As ilustrações acompanham a dúvida. Mas vem com doçura e algumas certezas, nem todas por amor. Mas por calor.

Não me vou alongar, vale a pena conhecer estes autores, sem esquecer os excelentes e clarividentes preliminares de Jorge Lima Alves.

Mas quero concluir a afirmar que este livro, ao contrário de outros – e torna-se engraçado descobrir porquê -, não me causa vergonha alguma. Talvez por não ser assim tão íntimo. Não está coberto por um véu e tem a luz acesa.

Para quem quiser ler ou ver.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Ó, as mulheres! Que sensíveis e doces, que lúdicas ladinas imaginosas e torpes! Mulheres! Fiquei amante de Clódia, a «leoa dos plátanos». Eu a chamava assim porque me parecia ser esse o seu verdadeiro nome. Os plátanos vão por conta da sonoridade da palavra. Chamava-a também de «putíssima amada», mais cabível ainda.
Hilda Hilst é, juntamente com Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Autora de uma obra eclética, que inclui ficção, poesia, crónicas e teatro, permanece enigmaticamente quase desconhecida em Portugal. De 1990 a 1992, Hilst decidiu «alegrar-se um pouco» escrevendo textos eróticos e satíricos, convencida de que «o erótico é uma santidade».
Esta antologia reúne alguns desses textos ditos obscenos, sarcásticos e grotescos, que surgem agora acompanhados pelas ilustrações de André da Loba, colaborador assíduo do New York Times e considerado um dos 200 melhores ilustradores do mundo.

Hilda Hilst (1930 – 2004) é uma das mais interessantes escritoras brasileiras do século XX. Autora de uma obra vasta, publicou mais de 40 livros de poesia, teatro, crónicas e ficção e ficou conhecida pelo seu espírito libertário. Passou a maior parte da sua vida no campo, inteiramente dedicada à escrita e também ao estudo dos fenómenos paranormais. Hilst foi agraciada com os mais importantes prémios literários do Brasil, nomeadamente o Grande Prémio da Crítica pelo conjunto da obra, atribuído pela Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1981. Para além de Contos d’Escárnio/Textos Grotescos (1990) e Bufólicas (1992), a sua fase «pornográfica» inclui também O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990) e Cartas de um Sedutor (1991).

André da Loba, artista e poeta relutante, nasceu em Aveiro, em 1979, e formou-se em Ilustração na School of Visual Arts, em Nova Iorque. Publicou mais de uma dezena de livros em Portugal, Espanha e Brasil e o seu trabalho tem sido reconhecido internacionalmente. Em 2010, a revista Lürzer’s Archive considerou-o um dos melhores 200 ilustradores do mundo. Colabora assiduamente com o New York Times e a Time Magazine, entre outras publicações. Em 2012, iniciou uma relação tórrida com a escritora brasileira Hilda Hilst, que culminou no livro Obscénica – Textos Eróticos & Grotescos (Orfeu Negro, 2014).

Eis o book trailer:

Obscénica – Textos Eróticos & Grotescos
Hilda Hilst, André da Loba
Editora: Orfeu Nego
Ano: 2014
Páginas: 96, a cores
Encadernação: capa mole
Dimensões: 23 x 33 cm
ISBN: 9789898327383 

SOBRE O AUTOR |

Ana Ribeiro
Ana RibeiroColaboradora
Costumava desenhar de joelhos, com os braços em cima da cama quando era pequenita e mais tarde numa mesa de escola. Os joelhos agradeceram. Cresci com banda desenhada e criei o fanzine "durtykat" em 2001. Viajei quase à pala e fui colaborando e comunicando através de desenhos, nascendo assim as Nits, em 2014. Voltei a desenhar de joelhos mas eles não se têm queixado. A última exposição foi na Galeria Mundo Fantasma, no Porto, no ano de 2019.