Armazém Central, volume 1: Marie.

A simplicidade é infinitamente mais difícil de realizar do que a exuberância. E é precisamente a simplicidade que sempre me encantou no conto Uma Alma Simples de Gustave Flaubert (1821-1880), publicado em 1877. Uma obra-prima da contenção que consegue abanar estruturalmente cada leitor com o relato do correr inexorável da vida banal de uma criada.

130 anos depois, Régis Loisel e Jean-Louis Tripp conseguem criar, por mérito próprio, uma nova obra-prima da simplicidade: Armazém Central.

Obra em nove volumes, vê agora reeditada pela Arte de Autor o primeiro volume, Marie.

Entre as duas guerras mundiais, na região do Quebeque, existe uma pequena paróquia de nome Notre-Dame-des-Lacs. Perdida no Canadá rural, o centro de toda a comunidade é o Armazém Central que, na verdade, é o único estabelecimento comercial num raio de muitos quilómetros.

Félix Ducharme é o dono da loja há muitos anos, respeitado e acarinhado por todos. É por isso com grande choque e surpresa que os aldeões acordam com a notícia da sua morte súbita durante a noite.

Durante o funeral já todos esperam que Marie, a viúva chorosa, assuma o papel do defunto e fique à frente do Armazém Central.

Mas Marie sente-se só, enganada pela vida, com um desalento que lhe corrói a alma. Sendo originária de outro lugar e não tendo filhos, ela interroga-se se estará à altura de assumir o peso de estar à frente do Armazém Central. E a comunidade treme, só de pensar que pode perder o centro nevrálgico da paróquia.

E por isso, não a poupa, não lhe dá descanso e mostra-lhe como ela lhes é indispensável. É que o Armazém Central tem de tudo: víveres, pregos, ferramentas, tecidos e, sobretudo, uma alma simples e bondosa, sempre pronta a ajudar e a colocar-se em segundo plano. E as qualidades de Marie evidenciam-se quando o filho dos Archambault parte uma perna e é ela que o leva ao médico, em Saint-Siméon, no único automóvel da aldeia… Ela que nem sequer sabia conduzir e que aprende durante o caminho.

Ao longo da história, Marie vai-se resignando à sua nova condição de viúva e de responsável por grande parte do bem-estar da paróquia, guardando para si os seus próprios dilemas.

Sem lhe ouvirem um queixume, os aldeões não lhe dão descanso, habituados a que ela lhes resolva os mais variados problemas e que execute os trabalhos que os outros não querem ou não podem executar.

Até quando Marie vai conseguir corresponder às expectativas de todos…?

Em Armazém Central, Régis Loisel e Jean-Louis Tripp, dois consagrados veteranos da 9.ª Arte, reúnem esforços, enterram egos e levam-nos nesta viagem a quatro mãos, onde os dois são argumentistas e desenhadores. A arte de ambos é fundida num desenho único, estando Loisel encarregue da divisão da narrativa por página e do desenho preparatório a lápis e Tripp encarregue do desenho final a tinta e da iluminação.

A história parece não contar grande coisa. Apenas o quotidiano de uma pequena comunidade rural nos fundos do Quebeque, durante uma estação quente nos anos 20 do século passado.

E, no entanto, cada prancha, na sua aparente simplicidade, consegue exprimir uma miríade de emoções, habitualmente difíceis de sentir num mesmo momento.

Marie, o primeiro volume desta série, é uma verdadeira ode à solidariedade, à tolerância, ao bem-estar como derivado da entreajuda, à felicidade como que alcançável pela simplicidade, e à estima sincera, mais forte que uma qualquer amizade fugaz.

Embora o dia-a-dia de Marie possa parecer banal, a riqueza das relações humanas e o saber aproveitar a vida não o é!

E a prová-lo, Loisel e Tripp criam já neste primeiro volume da série uma galeria de personagens ricos e inesquecíveis. Desde logo, Marie a protagonista que, com todas as suas incertezas, é uma força da natureza e o motor não reconhecido da aldeia. Jacinthe, a sua jovem amiga que se orgulha de fazer xixi mais longe que os rapazes. O novo padre, que é um padre novo, com laivos de modernidade e conhecimentos de engenharia náutica. Gaetan, o “tontinho” de bom coração. O velho Noel que parece construir um barco fadado a afundar-se. Alice, a professora grávida com marido em parte incerta há sete meses. Maurice, que inunda a escola com os vapores etílicos saídos do seu alambique. Os irmãos Latulippe, madeireiros briguentos e truculentos. E tantos outros.

E o que dizer do desenho, já que a associação dos dois autores é verdadeiramente alquímica? Os personagens truculentos de Loisel, com as suas habituais “carantonhas” são adocicados pelo traço um pouco mais anguloso e pela iluminação de Tripp.

Cada interacção de personagens é dinâmica e muito bem conseguida. A expressividade dos rostos é uma constante e faz-nos mergulhar de imediato no estado de espírito de cada personagem. A composição de cada quadro bucólico é absolutamente poética.

A coroar um álbum que a preto e branco já seria magnífico, estão as cores de François Lapierre com a predominância do pastel e que nos dão a sensação generalizada de conforto.

Enfim, Marie é um hino à vida e à felicidade, um apelo à humanidade e um voltar às coisas mais simples e mais autênticas.

Uma obra para saborear calmamente, no nosso sítio favorito, num momento em que estejamos bem com a vida. E depois digam-me se não acabaram a leitura com um sorriso giocondesco nos lábios e uma sensação estranha de satisfação plena.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.