Análise de O Último Homem…

Ele há histórias que são épicas! Ou porque nos contam uma qualquer saga heróica ou porque nos relatam a ascensão e queda de impérios, grandes potências ou famílias ou ainda porque nos dão a conhecer um acontecimento que, de tão grandioso, se ultrapassa a si próprio.

Ora, O Último Homem… não é nada disso! Não é nada disso, mas é épica! A obra, magnificamente escrita por Jérôme Félix e superiormente desenhada e colorida por Paul Gastine, é um western crepuscular grandioso que nos coloca no fim de uma Era, a dos últimos cowboys.

E se no começo poderemos ser levados a pensar que estamos perante um novo Shane com laivos de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, rapidamente percebemos que a rudeza poética de um e a doçura pueril dos outros não cabe em O Último Homem…

Vamos à história!

A abertura:

Russell é um típico cowboy, condutor de gado, solitário, metido consigo e com algumas economias no bolso. Um dia, resolve passar pela quinta dos Hattaway para rever o seu velho amigo William. Mas o que encontra é William seis palmos abaixo de terra com uma simples placa a assinalar a sua tumba. Dentro de casa está Martha, na cama, igualmente morta, ainda que recentemente. Resta o filho Bennett, um pouco simplório demais: ele julga que a mãe está a dormir há três dias.

Russell enterra Marta ao lado de William e parte levando o órfão consigo, decidido a encarregar-se da sua educação e a transformá-lo num homem.

Mas a tarefa não será fácil de cumprir pois Bennett não só é ingénuo como um pouco pobre de espírito.

Alguns anos depois:

Russell sabe que os seus dias de cowboy estão a chegar ao fim. Esta será a última manada de Longhorns que conduzirá até Abilene. As linhas do cavalo de ferro rasgam as grandes pradarias a céu aberto e o gado anda agora de comboio, acabando por ser entregue directamente em Chicago.

Nesta última entrega de 1200 cabeças, ele é acompanhado por três outros cowboys. Bennett continua com ele. E continua simplório e desajeitado. Ele ocupa-se das refeições sem grande sucesso. À sua maneira rude, Russell continua a protegê-lo e a tentar educá-lo.

Uma vez em Abilene, Russell é pago pelo seu cliente, paga por sua vez aos cowboys que o acompanharam e o grupo é desfeito para sempre. Mas Russell pretende escrever o seu futuro em alguns acres de terra cultivável no Montana e criar o seu próprio rancho. Com ele levará Bennett. Mas não pensa fazê-lo sozinho e propõe sociedade a Kirby, o seu braço direito. Kirby não tem um tostão no bolso, mas Russell não pretende o seu dinheiro… Apenas a promessa de Kirby de como tomará conta de Bennett quando o seu benfeitor morrer. Para gáudio do rapaz, Kirby aceita.

Trilhando o longo caminho que os levará ao destino sonhado, os dois cowboys e o rapaz fazem uma paragem em Sundance – um vilarejo do Wyoming – de modo a reabastecerem-se.

O que eles ignoram é que, por aqueles dias, Sundance fervilha com a hipótese de entrar na onda do futuro. Clifton, um crápula embonecado e corrupto, acaba de propor ao presidente da câmara um negócio que colocará a vila no mapa do progresso e do dinheiro. Em troca da astronómica quantia de 6000 dólares, Sundance poderá tornar-se a gare do Wyoming onde embarcará todo o gado do estado.

Esta soma corresponde a todas as economias dos habitantes de Sundance, mas com ela Clifton promete convencer a Union Pacific a escolher a vila como paragem obrigatória. Os habitantes põem-se a sonhar com um amanhã promissor, o presidente começa a gizar planos e o xerife acompanha-o. Tudo parece correr pelo melhor até que, de manhã, é encontrado o corpo do pobre Bennett com o crânio esmagado.

Acidente ou assassinato? Com o futuro de Sundance em jogo, ao presidente da câmara convém abafar o caso a todo o custo. Afinal de contas, a Union Pacific não escolherá como estação de comboios uma vila onde matam crianças.

A ira de Russel é incontrolável. E a sua vingança far-se-á sentir até ao último homem, mesmo que o último homem seja ele.

Este é mais um western publicado num tempo em que o género parece voltar a estar na moda. Mas se o leitor está à espera de encontrar mais uma história de cowboys entre tantas outras, desengane-se desde já! É que Jérôme Félix escreveu um conto universal que, “só por acaso”, é ambientado no Faroeste e numa época muito específica, pouco tratada em livros ou no cinema – o fim da era dos cowboys.

E não é pela pena de Félix que vão encontrar plasmados os mitos hollywoodescos. Não há assaltos a bancos ou a diligências, duelos ao sol, comboios a apitarem três vezes, caravanas cercadas por índios, bandidos vingativos ou ricos donos de ranchos a desapropriarem pobres agricultores. Não! A pena de Félix demarca-se dos clássicos do Western e de Hollywood.

Jérôme Félix oferece-nos uma história absolutamente original e tocante na qual descobrimos a grandeza e a pequenez do homem… E a coragem de uma mulher.

Tal como em Imperdoável, o já clássico filme de Clint Eastwood de 1992, O Último Homem… põe em cena um cowboy veterano prestes a reformar-se, numa época em que a profissão fazia cada vez menos sentido.

A magnífica abertura do álbum, a primeira cena, define bem o que se vai passar dando o tom da intensidade dramática que se adivinha, mas que ainda não conseguimos prever. Este começo parece o final de Shane se o final de Shane fosse diferente. Mas o que define a cena é a dureza de Russell, um velho cowboy do Wyoming. Dureza que é suplantada pelo amor que ele dedica ao rapaz que nem sequer é seu, que nunca será o filho perfeito, cheio de limitações intelectuais e, aparentemente, com muito pouco para dar para além de uma alegria quase extenuante. A mensagem é clara: por trás do universo muito duro dos cowboys, alguns indivíduos têm um sentido de honra completamente desinteressado.

E isto é o que se pode tirar apenas das três primeiras pranchas, que até têm pouco diálogo. E é isto que é a arte de contar uma boa história.

E nas páginas que se seguem, a continuação da narrativa chega a deixar-nos de respiração suspensa, desenvolvendo-se de um modo que ninguém poderia imaginar.

Por outro lado, ao longo da história, a narrativa leva o leitor pelos grandes espaços do Oeste Americano, alternando judiciosamente os lugares, as ambiências e a meteorologia, a tempo de colocar os personagens em novos locais e novas situações, sem nunca romper com o correr da intriga.

Mas o clique de tudo aquilo que, de facto, vai definir todos os personagens e os seus destinos, é a morte do jovem Bennett. Com ela, Russell mergulha numa cólera sombria, definitiva, que exige explicações e que entra numa espiral trágica.

Dizendo pouco, o argumento tem uma bela fluidez, é impecavelmente ritmado e equilibrado.

Uma história sem heróis, onde todos, de uma maneira ou de outra, são maus. Todos menos a professora que, do princípio ao fim, vai manter a coerência, a abnegação e o equilíbrio.

A narrativa parece ter sido desenvolvida sob medida para o traço realista e talentoso de Paul Gastine que nos apresenta vinhetas sumptuosas e espectaculares, onde o cuidado com a iluminação é uma constante e a utilização cuidada das sombras é, por si só, uma arte.

Aliás, o cuidado dado a cada prancha, leva Gastine a refazê-las até à exaustão, em busca do ângulo mais correcto ou mais dinâmico, numa tentativa de estar em perfeita sintonia com o argumento de Félix. Um bom exemplo é a prancha que se segue e que podem comparar com a versão definitiva mais acima.

E que dizer do traço e da expressividade dos seus personagens?! Todos eles expressam através do rosto o estado da sua alma. Desde logo, Clifton, de aspecto arrogante, irritante, que nos dá vontade de fazer correr a golpes de vara-paus. O presidente da câmara, mefistófeles encarnado, “preocupado” com o bem-estar dos seus concidadãos e capaz de tudo para atingir os fins. Kirby, de rosto bem-apessoado e que faz cantar as prostitutas. Bennett, simples, boçal e despreocupado. Miss Collins, a professora serena que parece conhecer o seu incontornável destino. E Russell, o velho cowboy de pele curtida pelo sol, rosto vincado pela vida e um brilho nos olhos que não disfarça a paixão.

Em suma, através do desenho de Paul Gastine, os protagonistas de O Último Homem… alcançam um realismo pungente. A “direcção fotográfica” é absolutamente cinematográfica, parecendo por vezes estarmos perante uma vinheta que foi desenhada sobre uma fotografia. A composição de cada prancha tem sempre um dinamismo que acompanha a narrativa. As vinhetas formigam de detalhes. A gestão da luz é magistral. A paleta de cores está muito bem conseguida. As paisagens do Wyoming são grandiosas e esmagadoras. As cidades fervilham de vida. Quase sentimos o cheiro a pólvora, a viscosidade da lama e o desvario do rancor. E a chuva, que inunda várias pranchas, encharca-nos até aos ossos. Tal é a eficácia da estética de Gastine.

Western épico e dramático, O Último Homem… é daquelas BD que marcam. É duro, é amargo, é áspero e é muito bom!

EXTRAS

Paul Gastine é conhecido por demorar o seu tempo no estudo de cada personagem, nos vários ensaios que faz até chegar a uma capa definitiva e na produção de cada uma das suas bandas desenhadas.

Seguem-se os estudos para a capa de O Último Homem…, sendo que a em baixo à esquerda é a da edição corrente, a em baixo no meio é da edição de luxo (original) e a da direita é o esboço para uma edição de luxo de uma livraria específica (em França). Seguem-se estas duas últimas na versão definitiva.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.