Análise de Peter Pan vol. 1: Londres.

Foi no começo do século XX que o escocês James Matthew Barrie estreou a sua peça Peter Pan ou o Rapaz que Não Queria Crescer. Naquele ano de 1904, os espectadores deixaram-se encantar. Mas J. M. Barrie não ficou por aí e em 1911 adaptou e desenvolveu a peça em livro, que intitulou originalmente de Peter Pan e Wendy.  Várias gerações de crianças e adultos já se deliciaram com este livro que, entretanto, passou a ser conhecido simplesmente com o título Peter Pan.

Em 1953, Walt Disney, tal como Barrie, encanta multidões com a sua longa-metragem de animação Peter Pan. E é este Peter Pan que é imediatamente reconhecível pela maior parte da população mundial e que continua a espalhar a sua magia por crianças e adultos.

Mas eis que em 1990 entra em cena Régis Loisel (ver artigo Quando o Centro do Mundo é Uma Loja de Aldeia!) com a sua versão do Peter Pan. Uma versão que já não é para crianças, mas que continua a “encantar” adolescentes e adultos. É um Peter Pan perturbado e perturbador, fascinado e fascinante. É a génese do mito.

Com a edição da obra completa em 6 volumes (finalmente!) pela parceria ASA/Publico, tenho motivo acrescido para escrever um folhetim em 6 partes, do qual esta é a primeira.

Vamos à história!

1887. Londres. Este é o centro do mundo e aqui tudo acontece. Máquinas a vapor, modernas locomotivas, a fotografia, as últimas novidades científicas. A capital do Império da Rainha Vitória é um lugar fascinante.

Mas no emaranhado dos bairros pobres que se espalham pela cidade, o mundo é outro. Ruelas sujas e nauseabundas povoadas de ratazanas; a escória da humanidade reunida em pubs sórdidos; prostitutas desmazeladas, marinheiros de fraca reputação, assassinos, escroques e tantos outros pouco recomendáveis.

É nesta Londres que vive na miséria um rapazinho chamado Peter. Todos os dias, ele tenta sobreviver neste ambiente sombrio, por vielas assombradas por um assassino sádico.

Como se isso fosse coisa pouca, a mãe de Peter é prostituta e alcoólica e o ambiente em casa é quase sub-humano. Para fugir a esta dura realidade, Peter visita todos os dias os seus amigos do orfanato, onde lhes lê as histórias mais fascinantes.

Nestes finais do século XIX, a vida em Londres para os indigentes é muito rude. Muito poucos são aqueles que têm acesso à educação, mas Peter tem a sorte de ter como amigo o velho Sr. Kundal que o ensina a ler e lhe dá o que comer.

Os dias, Peter passa-os nas ruas a treinar. E para ocupar o espírito, ele conta histórias e mantém-se na sua bolha, de modo a conseguir ignorar a miséria que o rodeia. Mas a rua é um lugar perigoso onde os horrores humanos estão ao alcance de todos. Para lhes fugir, Peter usa a sua imaginação prodigiosa e agarra-se às histórias do Sr. Kundal.

Um certo dia dia, Peter regressa a casa da mãe, desconfortável e apavorado. A mãe recebe-o com uma metralha de insultos violentos e obriga-o a sair novamente à procura de álcool. Peter vai à “Taberna da Sereia” para pedir uma garrafa ao Sr. Kundal, mas este ainda não chegou. É então que o barman lhe propõe um acordo: se Peter se despir perante todos os que enchem o pub, pode levar uma garrafa. A turba exultante faz apostas, reúne dinheiro para pagar a garrafa e Peter, que não pode voltar a casa sem o álcool para a mãe, sujeita-se à humilhação.

De regresso a casa, Peter sente o desespero mais forte que nunca. Na rua fria, inesperadamente, uma fada deambulante esbarra com ele. É Sininho, que o vai arrastar para um país imaginário onde ele encontrará um fauno de nome Pan e um bando de piratas comandados por um capitão sem nome, mas que ganhará um apelido de má memória, fruto do seu encontro com Peter.

Este primeiro volume lança as bases da fabulosa história de Peter Pan, se bem que na versão muito polémica de Loisel, muito mais sombria e realista que a original de Barrie ou a de conto de fadas de Walt Disney. E, no entanto, a magia opera às mil maravilhas e todo o encanto continua lá.

É o lado perturbante e inesperado que Loisel dá à “origem” de Peter Pan que torna esta obra em algo de especial. Desde logo, temos as dificuldades por que Peter passa na infância e o seu contexto familiar desfavorecido – ele não conhece o pai e a mãe é uma notória prostituta que se torna violenta com o álcool.

Peter rejeita por isso o mundo dos adultos, depravado e cruel, que só lhe oferece uma falta de amor crónico e um egoísmo que lhe corrói a alma e que deixará marcas na sua personalidade ao longo de todos os 6 volumes.

Loisel introduz nos cânones de Peter Pan o drama e o horror do real no mundo imaginário que, até então, tinha sido a única escapatória de uma criança torturada. Com o coração pleno de feridas e de cicatrizes, vamos conhecer um Peter que oscila entre a realidade monstruosa de Londres e a aventura do país imaginário, à procura da compreensão e afecto de uma mãe que o rejeita. Ele vai oscilar entre o bem e o mal, o egocentrismo e o altruísmo, a loucura e a razão que se digladiam pelo seu espírito cansado e manipulado por uma criatura possessiva.

Nesta sua apropriação de Peter Pan, Loisel vai a fundo ao coração da criança traumatizada disposta a tudo para preservar um sonho sem consciência nem memória. Para além de retomar os temas de J. M. Barrie, a narrativa de Loisel coloca também as interrogações essenciais acerca do que a humanidade faz pelas suas crianças e a maneira como estas lhe dão troco e a herança que lhes é deixada.

Mas adiantamo-nos na história que terá ainda mais cinco capítulos. Pois, neste primeiro volume, o foco vai sobretudo para o estabelecimento de ligações entre diversas personagens como Peter, o Senhor Kundal e o capitão dos piratas. Loisel lança as bases do que vai ser uma longa e dura aventura, semeada de provações e perigos.

Ao nível do desenho, o traço muito próprio de Loisel não deve nada a ninguém. Cada rosto, mesmo do personagem mais secundário, parece ter sido alvo de um estudo profundo ao ponto de serem todos inconfundíveis.

A personalidade visual de cada actor é gritante e anima perfeitamente este universo entre o sórdido e o onírico, como é o caso dos amigos do orfanato, o Sr. Kundal, a Mãe e o capitão, que terão um papel determinante no futuro de Peter.

Como curiosidade, e ao contrário de J. M. Barrie que baseou o seu Capitão num retrato de Carlos II, Loisel teve em conta a fisionomia do próprio Barrie, como se pode ver nas duas imagens seguintes.

Os décors dão o tom à história, seja ao nível das ruas e da sua sujidade, do pub e da sua promiscuidade ou das vistas aéreas da cidade que nos parecem afastar momentaneamente da crueza daquele lugar.

E depois há a Sininho, bem mais voluptuosa do que a de Disney, vestida de uma folha que termina num fio-dental, de carnes abundantes que extravasam os limites do vestuário. Sem dúvida, uma Sininho algo diferente da do tempo dos nossos bisavós, mas que é tão conhecida em França como é a imaginada por Disney. Mas dela falarei com mais pormenor no sexto capítulo deste folhetim.

Bebendo cuidadosamente de Barrie, Disney, Dickens e até do caso de Jack, o Estripador, Loisel oferece-nos um primeiro volume de Peter Pan notável a todos os níveis e um verdadeiro regalo para os olhos.

A não perder!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.