As Nomeações de Inverno 2021 dos Prémios Bandas Desenhadas.

Como tínhamos anunciado, desvendamos hoje a primeira lista de Nomeados dos Prémios Bandas Desenhadas 2021. As obras elegíveis para as Nomeações de Inverno são as constantes dos relatórios mensais referentes ao 1.º trimestre do ano do site Bandas Desenhadas. Apesar das exaustivas avaliações, não foi possível aceder à totalidade das 46 obras publicadas nesse período, estando salvaguardado o direito de poder vir a considerá-las para as Nomeações Extemporâneas finais.

Apesar de uma expressiva diminuição do número de lançamentos comparativamente ao trimestre equivalente no ano anterior (traduzido em 73 lançamentos), muitas das categorias abrangidas pelos prémios geraram interessantes discussões entre os jurados na altura de realizar as nomeações do 1.º trimestre, prova de que, apesar de em número mais modesto, os leitores foram brindados com um bom leque de propostas nos meses mais frios do ano.

O júri deliberou em nomear a obra Discórdia de Nani Brunini, editado pela Pato Lógico, para a categoria de Melhor Obra Nacional com Distribuição Comercial, uma narrativa visual da coleção de livros silenciosos Imagens Que Contam, resultante de um trabalho do Curso de Ilustração do Centro de Arte & Comunicação Visual Ar.Co. Trata-se do primeiro livro de Brunini, autora brasileira a residir no nosso país, onde é ilustrada a polarização de opiniões, nascido numa altura em que Brexit, Trump e Bolsonaro dividiram países, amigos e famílias, sem pontes de entendimento. A nomeação é feita pelos jurados cientes de que este tipo de obra pode gerar questionamento sobre se uma narrativa visual sem texto, ilustrada em página dupla, se enquadra melhor no que se designa simplesmente por “livro ilustrado” ou na “banda desenhada”. A nossa posição foi tomada há muitos anos mas todo o questionamento que coloque em causa o meio é bem-vindo pois permite reflexão e crescimento.

Quanto à nomeação para a categoria de Melhor Obra Nacional com Distribuição Alternativa, os jurados ficaram rendidos com Palácio n.º 2 de Francisco Sousa Lobo, em edição de autor, tendo inclusivamente sido também nomeado para Melhor Argumento em Obra Nacional. Apesar de se tratar de um autor multipremiado e com grandes obras já publicadas, a aparência singela de Palácio n.º 2 – como se de um mero segundo número de uma publicação (a)periódica se tratasse – contrasta com um Sousa Lobo em plena forma, seja na publicação dos arrebatadores capítulos de “40 Ladrões”, seja nas restantes narrativas curtas apresentadas, cujas ilustrações e temáticas lhe conferem unidade.

No que toca à nomeação de Melhor Ilustração em Obra Nacional, o escolhido foi Mnemosina, da autoria de André Coelho, editado pela Bestiário. Esta obra confirma que o autor de Terminal Tower e Acedia domina não só a ilustração das paisagens desoladas como a figura humana, com os contrastes poéticos do preto na página branca a deslumbrar os leitores.

A Outras Bandas n.º 4, com trabalhos de Daniel Maia, Henrique Gandum, João Raz, Jorge Rodrigues, José Bandeira, Nuno Dias, Rui Serra e Moura, Susana Resende, Tiago Martins e Yves Darbos, revelou-se uma antologia equilibrada quanto às suas diferentes propostas, tendo sido nomeada para Melhor Antologia. Várias das suas bandas desenhadas curtas foram equacionadas para a nomeação de Melhor BD Curta por diferentes razões, tendo as ilustrações de Susana Resende em “Menino Perdido” acabado por conquistar os jurados.

Quanto às obras estrangeiras, após muita ponderação, a nomeação para a Melhor Obra Estrangeira foi para O Castelos dos Animais vol. 2: As Margaridas do Inverno, de Xavier Dorison e Félix Delep, editado pela Arte de Autor. Se as ilustrações de Delep são um regalo para o olhar, o argumento de Dorison valeu-lhe também a nomeação para Melhor Argumento em Obra Estrangeira. Esta obra distingue-se pela importância da temática e a sua pertinência, não sendo douradas as agruras e consequências da resistência a regimes ditatoriais.

No que toca à Melhor Ilustração em Obra Estrangeira, o júri nomeou a banda desenhada O Burlão nas Índias, ilustrada por Juanjo Guarnido e editada pela Ala dos Livros. Não só o magnífico desenho de Guarnido se revela um trabalho épico, como a aguarela garante que se preserve a memória da obra.

A nomeação de Melhor Publicação de Humor merece uma ressalva. Mika e Patata em D.A.D. de João Gordinho, BD nascida inicialmente enquanto webcomic, foi publicada online pelo site Bandas Desenhadas, antes de ser materializada em zine pela chancela Black Ink. No entanto, o júri garante publicamente que em nenhum momento tal influenciou a sua nomeação. Tendo a ideia nascido aquando do primeiro confinamento nacional motivado pela pandemia de COVID-19, o autor fez um crossover entre personagens imaginárias e reais (incluindo, entre outros, autores e editores nacionais de banda desenhada), que procuram encontrar uma solução para a quarentena forçada e a derrota do vírus. Despretensioso e sem um cuidadoso planeamento a jusante, a leitura da publicação retém a frescura e espontaneidade do humor, traduzidas numa diversão sem limites para o leitor.

A nível da nomeação para Melhor Série, os jurados optaram por Rio, da autoria de Louise Garcia e Corentin Rouge, editada pela ASA. Sendo a brasileira Garcia uma estreante no meio, é inegável não só o seu domínio narrativo mas também das temáticas que se propõe a abordar. Quanto a Corentin Rouge, que, ao contrário do seu pai, permanecia inédito no nosso país, demonstra que merece um lugar de destaque no meio por mérito próprio. Com uma série fechada, moderna e com menor números que o habitual, a ASA experimenta uma nova abordagem para as suas coleções em conjunto com o Público, que se revela vencedora. E, dada a nossa proximidade com o Brasil, as temáticas abordadas merecem toda a nossa atenção, embora a narrativa não tenha resistido a conferir-lhe também um pequeno toque de fantasia, alicerçado em práticas daquele país.

Quanto à Melhor Edição, a obra nomeada foi O Burlão nas Índias de Alain Ayroles e Juanjo Guarnido, editada pela Ala dos Livros. Não só a própria banda desenhada é merecedora, como todos os cuidados com os acabamentos da edição portuguesa sobressaem. Não fosse a ausência de um caderno de extras e estaríamos perante uma edição que cumpre todos os requisitos para ser la crème de la crème.

Por fim, o júri nomeou para a categoria de Melhor Reedição Armazém Central vol. 1: Marie, da autoria de Régis Loisel e Jean-Louis Tripp, editado pela Arte de Autor. Se é verdade que quer o argumento quer as ilustrações dos autores deste hino bucólico à humanidade se destacam, a edição não só prima pela elegância como o facto da editora providenciar a capa com o velvet ou soft touch garante unidade a toda a coleção da editora. Ressalva-se ainda o cuidado da editora em reeditar os álbuns esgotados de séries inacabadas no nosso país que se prontifica a continuar e terminar.

Apresenta-se de seguida a lista completa das Nomeações de Inverno dos Prémios Bandas Desenhadas 2021:

Nomeações de 2021

Melhor Obra Nacional com Distribuição Comercial

  • Inverno: Discórdia – Nani Brunini (Pato Lógico)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Obra Nacional com Distribuição Alternativa

  • Inverno: Palácio n.º 2 – Francisco Sousa Lobo (ed. autor)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Argumento em Obra Nacional

  • Inverno: Palácio n.º 2 – Francisco Sousa Lobo (ed. autor)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Ilustração em Obra Nacional

  • Inverno: Mnemosina – André Coelho (Bestiário)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Antologia

  • Inverno: Outras Bandas n.º 4 (Tágide)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor BD Curta editada em Antologia

  • Inverno: “Menino Perdido” – Susana Resende (em Outras Bandas n.º 4 – Tágide)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Publicação Estrangeira

  • Inverno: O Castelo dos Animais 2: As Margaridas do Inverno – Xavier Dorison & Félix Delep (Arte de Autor)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Argumento Estrangeiro

  • Inverno: O Castelo dos Animais 2: As Margaridas do Inverno – Xavier Dorison (Arte de Autor)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Ilustração Estrangeira

  • Inverno: O Burlão nas Índias – Juanjo Guarnido (Ala dos Livros)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Publicação de Humor

  • Inverno: Mika & Patata em D.A.D. – João Gordinho (Black Ink)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Série de Publicações

  • Inverno: Rio – Louise Garcia & Corentin Rouge (ASA)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Edição

  • Inverno: O Burlão nas Índias – Alain Ayroles & Juanjo Guarnido (Ala dos Livros)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

Melhor Reedição

  • Inverno: Armazém Central vol. 1: Marie – Régis Loisel & Jean-Louis Tripp (Arte de Autor)
  • Primavera:
  • Verão:
  • Outono:
  • Extemporânea:

O anúncio das Nomeações de Primavera dos Prémios Bandas Desenhadas 2021, referentes às obras editadas no 2.º trimestre, será realizado a 22 de julho.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.