Análise de Procura-se Lucky Luke.

Ah, a imortalidade! Esse desejo de ultrapassar infinitamente a longevidade de Matusalém. Mas não vale a pena sonhar com ela pois é algo que nos está vedado. Já o mesmo parece não acontecer com os heróis de Banda Desenhada. E mesmo assim, não se pense que é com todos (ou sequer com alguns).

Um herói tem de ser alimentado, tem de ser reinventado, de maneira a que possa resistir ao inexorável correr do tempo, à tirania do desenrolar de gerações ou, mais prosaicamente, à moda da década. Digamos que, uma vez por outra, tem de haver um qualquer Brad Pitt a encarnar Aquiles de modo a que a chama da imortalidade se mantenha acesa.

Não nos iludamos por, em nosso tempo de vida, andarem por cá heróis que parecem imortais. Daqui a 5 gerações já ninguém saberá os seus nomes! Excepto daqueles que foram sendo alimentados e reinventados.

E o que é que tudo isto tem a ver com Lucky Luke?! Bem, anda por cá há cinco gerações (pelo menos no que me diz respeito), está sempre a ser alimentado com novas aventuras e acaba de ser reinventado (mais uma vez) por Matthieu Bonhomme, agora que o cowboy que dispara mais rápido que a sua própria sombra completa 75 anos.

O traço de Bonhomme torna Lucky Luke mais realista e, como tal, mais sujeito às emoções e tentações humanas. Aqui o vemos, perseguido e desejado por todos: três beldades que caem sob o seu charme, um filho vingativo e um bando de malfeitores bem conhecidos de outras aventuras.

Muito mais do que uma homenagem aos três quartos de século de Lucky Luke, Procura-se Lucky Luke, editado entre nós por A Seita, é um passo a caminho da imortalidade.

Vamos à história!

O sol vai alto e torra as rochas avermelhadas do Colorado. Lucky Luke leva Jolly Jumper até um curso de água – é tempo de se refrescarem. Mas um tiro ecoa no vale e por pouco não acerta no cavalo mais inteligente do Faroeste. Encadeado pelo sol, Lucky Luke não distingue mais do que uma silhueta lá no alto que lhe ordena para pegar na coronha do colt com o polegar e o indicador e o lançar à água. O cowboy que atira mais rápido que a própria sombra obedece apenas para apanhar a arma em pleno ar e disparar. E, mesmo estando o malfeitor em contraluz, o projéctil atinge o alvo.

Luke apressa-se a escalar o promontório rochoso em direcção ao seu assaltante. Lá em cima encontra apenas um cartaz ensanguentado. Nele está impresso o seu rosto e a frase “Procura-se vivo Lucky Luke” e a generosa oferta de 50 000 dólares para quem o capturar.

Visivelmente aborrecido, Lucky Luke não tem tempo para pensar no assunto pois já dois tiros ecoam pelos desfiladeiros. O cowboy cavalga sem hesitar, seguindo o som do tiroteio e cruzando-se com uma manada de vacas tresmalhadas. Um grupo de apaches faz um cerco cerrado a uma caravana. Luke consegue afugentá-los e parece não ficar surpreendido ao ver sair de debaixo da carroça três belas mulheres que se apressam a agradecer-lhe efusivamente. São as irmãs Cherry, a loira e a mais efusiva, Angie, a morena, e Bonnie, a ruiva sardenta.

Sempre cavalheiro, Luke oferece-lhes os seus préstimos para ajudar a levar as três jovens e a manada ao seu destino – a vila de Liberty.

Mas antes disso, a desconfiança para com o cowboy instala-se entre as irmãs quando Angie mostra nova cópia do cartaz com “Procura-se Lucky Luke”.

Ultrapassada a suspeita, os quatro reúnem o gado e, embora a noite já tenha caído, partem em direcção a Liberty pois de certeza que os apaches estão no seu encalço.

Mas a viagem vai ser atribulada e perigosa já que Luky Luke com a cabeça a prémio é um chamariz para todos os caçadores de prémios, foras-da-lei e seus inimigos. Para além disso, têm de atravessar território Apache e enfrentar a aridez mortal do deserto.

Mas o pobre cowboy solitário tem um problema adicional: as três irmãs não são insensíveis ao seu charme e pretendem mostrar-lhe isso mesmo, sem darem tréguas umas às outras. Ganha quem conseguir beijá-lo primeiro!

Cinco anos após O Homem que Matou Lucky Luke, Matthieu Bonhomme volta a pôr o cowboy na sela e faz uma dupla homenagem – a Morris, que morreu há 20 anos e a Lucky Luke, que apaga este ano 75 velinhas.

E se este álbum não deixa de ser uma bela homenagem a ambos, é também muito mais que isso, repleto de nuances e até de alguma complexidade numa segunda leitura.

(Antes de continuar, um breve à parte: sendo uma aventura que se lê isoladamente, ganha uma dimensão muito maior quando se lê primeiro o anterior álbum criado por Bonhomme.)

Bonhomme consegue, na perfeição, apropriar-se de um personagem que não criou, transformando-o em algo quase seu. E, mesmo assim, respeita os códigos criados por Morris (e Goscinny) desde 1946 e consegue agradar à imensa legião de fãs do cowboy, apesar de lhe imprimir mais realismo, mais violência e fazendo-o evoluir a nível psicológico.

Este Lucky Luke, sendo o de Morris, tem a forte marca de Bonhomme.

Logo na abertura, percebemos que Lucky Luke acaba de sair de uma aventura (provavelmente, a anterior de Bonhomme). Se assim não fosse, não estaria a cantarolar a célebre canção do “cowboy solitário” com a qual fecha cada álbum.

De certo modo, Bonhomme dá-nos logo de início a indicação de que vai preservar o que há de fundamental em Lucky Luke, mas também que lhe vai conferir uma outra dimensão.

Quanto a mim, são três os factores da narrativa que o transportam para essa outra dimensão: o factor mulheres, o factor cigarros e o factor humano que, juntos, criam um herói mais real e, por isso, mais próximo dos tempos que correm.

A dinâmica criada pelas três irmãs – Cherry, Angie e Bonnie –, e que são as principais dores de cabeça desta aventura, resulta num personagem que hesita, que duvida (ainda que por breves instantes), que nos faz pensar “o que seria das aventuras de Lucky Luke se ele casasse?” O leitor fiel é forçado a pensar e a tremer com a resposta à questão: casado, Lucky Luke deixaria de ter aventuras!!! Num arremedo de egoísmo, o leitor fiel preferirá sempre um “pobre cowboy solitário”.

Com as três irmãs e sob o fogo da paixão delas, Lucky Luke consegue mesmo deixar de ser fleumático, caso raro ao longo de 75 anos de existência. E, apesar de tudo, até conseguimos perceber para que lado pende a preferência de Luke.

Mas o pobre cowboy, para além de ter a cabeça a prémio, para além de ser cercado pelas três irmãs e para além de enfrentar o rigor do sol do deserto (ao contrário da aventura anterior onde era a chuva que ditava o ritmo da acção), para além disto tudo, enfrenta também a violência da abstinência tabágica, tendo como único paliativo uma mísera palhinha de feno. E não se pense que é coisa pouca pois o facto de ter deixado de fumar há pouco tempo vai interferir não só com o seu humor como com o correr de toda a acção.

A falta de cigarros fá-lo cair numa armadilha (página 25), fá-lo ser torturado e humilhado (“Dizem que o célebre Lucky Luke já não é um verdadeiro cowboy desde que deixou de fumar… Que se passeia com uma florzinha no canto da boca, como uma gaja.”), ficando até na iminência de perder o dedo do gatilho.

Mas também o faz hesitar (página 28), torna-o mais vulnerável e alvo constante de chacota: “…Desde que deixaste de fumar que és uma sombra de ti mesmo.” (página 40) ou “Sobretudo, hmm… Ouça… A propósito dessa florzinha…”, diz o coronel de cavalaria, respondendo um visivelmente irritado Luke “É uma palhinha”, para logo o coronel volta à carga “Hmm… Como queira. Suponho que esse detalhe não vai impedir que o levem a sério.” (página 60).

São estas tentações que concorrem maioritariamente a favor do terceiro factor, o humano. Ao longo de todas estas décadas, aconteceu com Lucky Luke o que aconteceu com o Super-Homem: ambos se tornaram imbatíveis e, por isso, as suas aventuras têm sempre desfechos previsíveis.

O leitor não precisa de chegar ao ponto de ver os seus heróis morrerem ou ficarem entrevados (o Super-Homem teve mesmo de ser reinventado por John Byrne, perder vários poderes e ser morto por um alienígena grotesco; o Batman ficou paraplégico às custas de Bane), mas precisa de os ver sofrer, hesitar, duvidar, errar e, uma vez por outra, precisa de ver correr o seu sangue. Ora, tudo isto acontece com Lucky Luke nesta aventura.

E até a sua imagem de marca – disparar mais rápido que a própria sombra – parece ter sido afectada a favor de um maior realismo. Ou Lucky Luke é agora apenas um gatilho rápido e certeiro ou sofre de artrite reumatóide.

Lucky Luke passou a ser um herói dos nossos, com defeitos e qualidades que conseguimos rever à nossa volta.

Mas Bonhomme respeita a série e não a descarta. Por alguma razão, ele pisca o olho com elegância e inteligência aos álbuns do passado. E se, por vezes, fá-lo através de meras referências (como ao Cavaleiro Branco), a maior parte das outras vezes o passado é motor da própria narrativa.

É assim que faz reviver Phil Defer (ou talvez não!), personagem do álbum de 1956 com o mesmo título e que é dos poucos não censurados pela editora original. A violência da morte do bandido é, de certa forma, transposta para a violência que Defer pratica nesta aventura.

É assim com o regresso de Patronimo, o chefe Apache, e do Coronel O’Nollan e do Sargento O’Flanagan, três personagens do álbum Canyon Apache de 1971.

Ou ainda, e sobretudo, com Joss Jamon (1958) e o seu bando de malfeitores inconfundíveis: Jack o Músculo, Bill o Batoteiro, Joe Pele Vermelha, Sam o Lavrador e Pete o Indeciso, este uma caricatura de Goscinny criada por Morris e retomada por Bonhomme.

Quanto à arte de Bonhomme, se quisermos dizer pouco, basta apelidá-la de magnífica. O controlo do pincel é muito apurado, com a mistura certeira de linhas finas e grossas, semelhante ao trabalho brilhante do americano Jeff Smith no seu herói Bone – suave e preciso – deixando a página aberta para as cores controlarem o ambiente.

Mas quando é preciso, Bonhomme acrescenta texturas, seja às montanhas ou às silhuetas de arbustos no chão. E quando nos mete à volta de uma fogueira ou em frente a um pôr-do-sol, então carrega na tinta e nas sombras.

Um bom exemplo do controlo que Bonhomme tem do traço é a palhinha de Lucky Luke. O traço parece básico, mas se falhar uma linha, por mais pequena que seja, parece que o cowboy tem algo estranho na boca.

Para quem conhece os americanos, este estilo faz lembrar o de Carl Barks, Alan Davis, Jeff Smith ou Darwyn Cooke. Não é propriamente “Linha Clara”, mas a influência está lá.

Outro grande trunfo de Bonhomme é a composição de cada prancha e a organização das vinhetas a favor da narrativa – excelente para um storyboard de um filme. Sergio Leone ficaria deliciado.

E depois, o seu estilo mais realista torna interessante de ver como ele transforma personagens icónicas do universo caricatural de Lucky Luke num traço que o distancia do de Morris.

Para além de tudo isto, há que salientar a gestão inteligente dos segundos-planos e o sentido de ritmo dado a cada prancha, bem como o uso de planos em plongée e contre plongée, que dão uma maior dimensão à narrativa.

Por fim, a homenagem de Bonhomme a Morris não estaria perfeita sem o cuidado aplicado às cores. Certas (muitas) vinhetas são coloridas monocromaticamente, tal como Morris fazia. Mas se a este o que o movia era uma questão tecnológica ligada à impressão e ao empastelamento das tintas (ficando depois como imagem de marca da série), a Bonhomme a monocromia serve para destacar determinado pormenor ou para levar os olhos do leitor ou o sentido da leitura para onde ele quer. E se na primeira parte da história predominam os laranjas, encarnados e amarelos que dão o tom ao deserto e ao sol alto, na segunda metade, chegados à cidade de Liberty, predominam os azuis no exterior e os laranjas no interior dos cenários.

Um bom exemplo disso é a vinheta que se segue onde vemos a predominância do azul mais claro, o azul mais escuro para criar profundidade e os laranjas como indicação do interior. Mais uma vez, parece simples… Parece!

Outro bom exemplo da manipulação da leitura é a próxima vinheta. Para onde é que acham que cai o olhar?

A nível estético, não posso deixar de referir, por fim, a beleza singela com a qual o traço de Bonhomme representa as três irmãs e que através das suas expressões conseguem tantas vezes mostrar o que vai na mente misteriosa de Lucky Luke.

A todos os níveis admirável, este álbum é não só uma bela homenagem ao trabalho de Morris como o fortificar da dimensão do mito de Lucky Luke, o homem que disparava mais rápido que a própria sombra.

Afinal, alguns dos heróis do século XX continuam por cá, a caminho da imortalidade, nem que seja a cavalgarem solitários numa planície e a trautearem “Sou um pobre cowboy…”.

EXTRAS:

Deixo-vos agora com algumas curiosidades.

Primeiro, as várias etapas da criação da capa alternativa feita propositadamente para uma edição especial francófona, que em Portugal é exclusiva da Fnac.

A capa que se segue é a de uma edição de luxo com tiragem limitada para uma livraria francesa especializada em banda desenhada.

A próxima imagem é de uma homenagem que Bonhomme fez aos seus heróis do Western. Da direita para a esquerda podemos ver Buddy Longway, o tenente Blueberry, Red Dust (da série Comanche) e os dois protagonistas dos álbuns Texas Cowboys do próprio Bonhomme. A sombra no chão, claro está, é de Lucky Luke.

Cartaz do filme acerca da Batalha de Little Big Horn e da derrota do General Custer às mãos de Sitting Bull e de Crazy Horse e que parece ter influenciado Bonhomme na criação da capa de Procura-se Lucky Luke.

Por fim, e para gáudio da nossa vista, alguns exemplos do realismo e das qualidades tanto de desenhador como de colorista de Bonhomme.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.