Releitura de Quotidiano de Luxo de Júlia Barata.

O título deste livro de Júlia Barata, Quotidiano de Luxo, é engraçado, para começar (e até acabar). E, depois a revelação: “Entrosar-se na vida familiar não é um dom. Pelo contrário, é um trabalho árduo.”

Noutro dia, discutia algo sobre a família. Como sendo um casulo de lagarta. Não quero dizer que ser lagarta é errado (naturalíssimo, ehehe); contudo, é um “processo em transformação”. Por acaso, estou aqui tentada a googlar, pois tenho uma dúvida. Todas as lagartas se transformam em borboletas? Não existem lagartas-lagartas? Como a do livro da Alice no País das Maravilhas?

Falei que quem vive bem, isso, é o pessoal da Escandinávia – e falei com inveja. Chega-se a uma altura da vida em que se dá mesmo valor.

Júlia tem um puto (tem… Cof cof) e um companheiro (tem… Cof cof). É uma mulher pós-moderna que fuma e bebe os seus canecos (socialmente e por vezes). Desenha os seus mikises e trabalha como arquitecta (o tal trabalho sério). Este livro é uma espécie de diário gráfico, onde revela as rotinas do seu dia-a-dia. E o que tem isso de especial?
Ora, engraçado. Mais uma vez. Talvez a partilha.

E porque algumas partilhas são especiais e outras não? (para quem acreditar nisso do especial, eheh)

Basicamente, porque tem amor ou humor.

“Pulquê?”, pergunta o puto. A difícil balança entre o vaistelixarmaistarde SIM e o ohquecaraçasvaihavershow NÃO. Os nossos quereres e os quereres dos putos.

O livro toca noutro ponto: Júlia e o seu tempo. Seja para desenhar, vestir uma roupa fixe, pintar os lábios ou simplesmente “desbobinar” cenas. Qual o ser humano que bem lá no fundo não gosta de falar nele? (ok, encontramos bastantes, mas retirem-lhes algumas situações e timidez da timeline das suas vidas, acrescentem um copo de vinho ou cerveja, atenção, carinho e tempo e é ver a K7 a desenrolar).

Devo estar a ser palerma mas o bom deste livro é que não nos sentimos tão sós (em ser palermas também).

Existe uma cena linda: “Vamos brincar?” “Eu sou tu, tu és eu.”

Faz falta brincar no mundo dos adultos, também .Sem isso, tornámo-nos pessoas neuróticas, aborrecidas. Doentes, no fundo. Bom, pelos vistos temos as redes sociais. O playground dos adultos. Mas parece estar sempre “minado”.

E para terminar (uma frase retirada do quotidiano de luxo, por sua vez retirada de outro livro):
“Quem não quer triunfar? As pessoas inteligentes”

E partilho da sensação da Júlia
“Sinto-me tão estúpida por querer reconhecimento”(e likes).

SOBRE O AUTOR |

Ana Ribeiro
Ana RibeiroColaboradora
Costumava desenhar de joelhos, com os braços em cima da cama quando era pequenita e mais tarde numa mesa de escola. Os joelhos agradeceram. Cresci com banda desenhada e criei o fanzine "durtykat" em 2001. Viajei quase à pala e fui colaborando e comunicando através de desenhos, nascendo assim as Nits, em 2014. Voltei a desenhar de joelhos mas eles não se têm queixado. A última exposição foi na Galeria Mundo Fantasma, no Porto, no ano de 2019.