Análise de Peter Pan vol. 2: Opikanoba.

Conseguir manter sempre alta a expectativa do leitor é obra que poucos conseguem!

Desde logo, não se consegue agradar a todos; há sempre os que ficam desiludidos com a tomada de decisão do autor por fazer o seu protagonista enveredar por este ou aquele caminho; outros há que, de tão apegados às obras originais, não concebem existir qualquer processo criativo à volta delas; e há ainda aqueles que criticam por tudo e por nada.

Ora, se há algo em que Loisel conseguiu ser consensual na sua apropriação de Peter Pan é que, de álbum para álbum, o índice de expectativa vai sempre aumentando e o leitor, goste ou não goste, acaba sempre por ser surpreendido.

Quase dois anos depois da publicação original do primeiro volume, Loisel volta a Peter Pan. E se aqui a acção se passava em Londres, por ruas sombrias e sórdidas que nos remetem para a cidade tão bem retratada em algumas obras de Dickens, no segundo volume somos levados até às terras aparentemente luminosas da Ilha, que muitos conhecerão como a Terra do Nunca, onde um segredo se esconde por entre as brumas tenebrosas de Opikanoba que trazem ao de cima o pior de cada um.

Peter prepara-se para nos surpreender com inocência e perversão, com doçura e maldade, com sonhos e pesadelos, com bondade e violência, numa miríade esquizofrénica que tanto nos incomoda como encanta.

Vamos à história!

O nevoeiro de Londres ficou para trás. Sininho polvilhou Peter com o seu pó mágico e os dois levantaram voo, sobrevoando os céus da cidade suja. Lá em baixo fica tudo o que Peter conhece de mau, todos os seus problemas e traumas. Pela frente, parece adivinhar-se uma nova vida, mágica e mais feliz.

Peter acorda num galeão pirata no camarote do Capitão, ladeado por este e pelo Sr. Smee. Incrédulo e entusiasmado com a novidade, Peter corre pelo navio, perscrutando todos os cantos. Ele já está a sonhar com grandes batalhas, em manobrar o seu sabre e estripar uns quantos adversários. O Capitão apanha-o e coloca-lhe três questões: quem é ele, de onde vem e o que quer.

Peter relata a sua longa viagem através dos céus na companhia de Sininho. O riso dos piratas ecoa pelo convés, não acreditando numa palavra do rapaz. Para lhes provar que não está a mentir, Peter salta do barco agitando os braços como se fosse voar. Mas o que consegue é cair ao mar e quase ser devorado por um crocodilo. Irritado, o Capitão apanha-o, suspende-o acima das ondas e volta a colocar-lhe as três questões. E Peter volta a falar do seu voo com a Sininho. Num acesso de fúria, o Capitão larga-o; abaixo de Peter, o crocodilo abre as suas mandíbulas gigantescas; Sininho intervém e borrifa Peter com o seu pó de estrela; ele fica a pairar pouco acima da boca do crocodilo que, ainda assim, consegue arrancar-lhe a sacola com uma dentada.

O Capitão e os seus flibusteiros mostram-se atónitos com o feito. Ele propõe a Peter tornar-se um dos seus. Mas Sininho tem outro destino reservado para Peter e tenta fazê-lo abandonar o galeão, sem sucesso. É então ela que abandona a embarcação à pressa para prevenir os seus amigos da Ilha que esperam, ansiosos, pela sua chegada com Peter que julgam ser o seu salvador.

Já o Capitão, tendo em conta o atributo especial de Peter, pretende usá-lo para roubar o tesouro dos habitantes da Ilha – um bando de criaturas fantásticas composto por centauros, elfos, sereias, fadas, gnomos, trolls, sátiros, índios… e por Pan, aparentado com o homónimo grego, com pés de cabra, pequenos chifres e sempre com a sua melodiosa flauta.

Todos eles querem salvar Peter das mãos dos piratas e mesmo ele começa a temer pela vida quando se apercebe que só consegue voar devido ao pó de estrela da Sininho.

Mas um perigo maior aguarda Peter. Ele terá de enfrentar o temido Opikanoba e os seus próprios medos e traumas pessoais. Se perder o confronto, o desfecho é a morte!

Com este segundo volume, Loisel oferece-nos uma continuação brilhante da saga de Peter Pan.

Se por um lado nos leva para um lugar mais luminoso do que os bairros pobres londrinos onde vivia Peter (cf. o artigo O perturbador e fascinante Peter Pan), leva-nos também a visitar os piores pesadelos do rapaz. Se nos dá a conhecer um conjunto de criaturas fantásticas que desejam Peter como seu líder, atira-nos também para o meio de um bando de piratas chefiados pelo irrascível, inconstante e perigoso Capitão. Se nos coloca numa ilha paradisíaca, também nos leva até ao seu pior habitante – o Opikanoba.

Só aparentemente este álbum é menos sombrio que o primeiro e, tal como em Londres, a leitura deve ser feita a vários níveis. Na verdade, a violência (física e psicológica) é muito maior, tal como é a presença da sexualidade de determinados personagens femininos que desejam Peter, quer seja a Sininho na sua roupagem minimalista, a pequena índia ou as irrequietas e desnudadas sereias. Mas para Peter, as mulheres são, por um lado, sinónimo da sua mãe (perversa, má, violenta) e por outro, sinónimo da mãe que ele idealiza nas histórias que contava aos meninos perdidos do orfanato. Ou seja, de uma maneira ou de outra, para Peter as mulheres são mães e a sua sexualidade está apenas nos olhos do leitor.

Por outro lado, ele constata que as mulheres, sejam mães, fadas, sereias ou índias, são sempre muito ciumentas e de natureza taciturna e amuada, mesmo quando se caracterizam por uma personalidade alegre.

Ao longo da narrativa, Peter vai evoluindo no sentido de um ser cada vez mais andrógino de aparência, de sexo cada vez mais indefinido. Mas evolui também no sentido de liderar a pequena tribo de seres fantásticos e, após ser salvo por Pan, cimenta com este a sua melhor amizade.

Loisel engana-nos com a imagem colorida e divertida deste mundo imaginário que, afinal, não é propriamente idílico. Neste Peter Pan, ao contrário do recriado por Walt Disney, as aparências iludem. Entre cenas de acção muitas vezes violentas e situações divertidas condimentadas com diálogos saborosos, o autor contrapõe com a travessia inquietante de Opikanoba, o reino das brumas perenes, assombrado pelas fobias, terrores e angústias de cada um e no qual só a morte é uma salvação. Opikanoba concentra todas as forças negativas dos seres que vivem na Ilha e restitui-as àqueles que se atrevem a entrar neste lugar maldito. Um lugar sem cor, banhado por uma névoa permanente e sinistra. E é aqui que Loisel nos mostra toda a sua mestria, criando magistralmente todos estes ambientes e estados de espírito que nos fazem mergulhar fundo na história.

Aliás, a cena de Opikanoba é uma das mais virulentas e abjectas de toda a série. Peter alucina com os seus pavores, alucina com a sua mãe prestes a pari-lo e a arrancar-lhe o sexo, cuspindo-o depois, o que marca a morte da sua intimidade, da sua virilidade, da sua sexualidade e, não podendo procriar, mata-lhe também a possibilidade de se perpetuar no futuro.

O confronto de Opikanoba esteriliza Peter a todos os níveis. Ele passa do rapazola londrino ou do miúdo que quer ser pirata para o personagem assexuado e andrógino descrito originalmente por J. M. Barrie no seu romance para adultos (The Little White Bird). Os planos em contre-plongée, a dentição dantesca desta mãe canibal e o contraste encarnado-preto entre Peter e a sua mãe acentuam a terrível monstruosidade da cena.

No Peter Pan de Loisel, nem o Crocodilo escapa! Se no de Walt Disney temos um crocodilo cartoonesco e no de Barrie um que esboça ligeiras expressões e posições humanas, no de Loisel a criatura reptiliana parece ter acabado de chegar do Jurássico ou de um qualquer reino de pesadelo do qual as íris e pupilas foram banidas e, como tal, todo o sentimento e toda a alma (ou não fossem os olhos o seu espelho).

Loisel conta-nos a sua versão de Peter Pan a vários níveis de leitura. O do fantástico e do imaginário infantil, próximo de uma das versões de Barrie e, sem dúvida, da versão de Disney. O do adulto, ambíguo e mais violento, próximo da versão velada de Barrie. E o nível “puro” de Loisel, com uma narrativa do real entremeada com a viagem interior do herói entre loucura e esquizofrenia. Real e imaginário à vez; uma parte luminosa e outra muito sombria, mas das quais não conseguimos distinguir onde acaba uma e começa a outra.

Em Opikanoba, tanto pela narrativa como pelo desenho, Loisel consegue manter a expectativa elevada para o próximo volume. E mesmo a tensão, a violência e a repugnância de algumas cenas não conseguem levar-nos a desistir da leitura (ou talvez por isso mesmo). E é de nos perguntarmos: “Até onde irá a loucura da narrativa?!”.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.