Edição integral de Pierre Christin e André Juillard.

A trilogia Lena foi originalmente publicada pela parisiense Dargaud entre 2006 e 2020 na sua coleção Long Courrier. Esta série foi concebida por dois autores com obra já publicada no nosso país ou não fosse o argumento de Pierre Christin (argumentista de Valérian) e as ilustrações de André Juillard (que desenhou alguns álbuns de Blake e Mortimer).

Ao contrário do público franco-belga, que teve de aguardar 14 anos para que a trilogia se encerrasse, os leitores portugueses têm este mês à sua disposição um volume integral com as 3 bandas desenhadas originais – A Longa Viagem de Lena (2006), Lena e as Três Mulheres (2009) e Lena em Pleno Braseiro (2020).

A narrativa de Lena já se encontra disponível no site da editora Arte de Autor, estando planeada a sua distribuição no canal livreiro a partir de dia 15 de maio.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Lena é uma série de ficção política que conduz o leitor aos bastidores das alterações geopolíticas que marcaram a história do século XX e XXI.

A LONGA VIAGEM DE LENA
Ela chama-se Lena. É uma jovem morena, elegante e misteriosa. Ignoramos de onde vem e para onde vai. A sua viagem começa em Berlim-Leste, no bairro onde vivem os antigos dignitários de um regime apagado pelos ventos da História. Lena vai visitar um homem que lhe entrega uma lista de nomes e números de telefone, que ela decora antes de destruir. Depois de Berlim, virá Budapeste e um outro encontro. E depois de Budapeste, Kiev, Odessa, a Turquia e a Síria. De cada vez, um encontro. Poucas palavras são pronunciadas, apenas um objecto estranho é dado por Lena ao seu destinatário: um frasco de perfume, um estojo de emergência para diabéticos. Com A longa viagem de Lena, Pierre Christin e André Juillard conduzem o leitor através de uma Europa onde se entrelaça o presente e o passado. Uma Europa onde os sobressaltos de uma História não muito longínqua parecem prolongar-se em estranhos projectos partilhados por aquelas mulheres e homens com quem Lena se cruza. Mas, ela própria, que papel desempenha? Christin e Juillard deixam pairar a dúvida sobre as suas intenções. Como pano de fundo, adivinham-se as sombras do terrorismo internacional alimentado pela frustração de um passado que parecia enterrado, o do ideal comunista. Narração de um percurso que não é como outros, impregnado de nostalgia e melancolia. A longa viagem de Lena permite a Pierre Christin dar livre curso ao seu interesse pela História e pelo destino contrariado dos países do Leste.

LENA E AS TRÊS MULHERES
Refugiada na Austrália, Lena tenta reconstruir a sua vida longe da violência cega dos atentados. Os serviços secretos, entretanto, não a esqueceram. Em breve ela volta a mergulhar na loucura humana, passando por uma Geórgia perturbada e um campo de treino subsariano, antes de acabar num esconderijo parisiense na companhia de três mulheres destinadas ao martírio. Pierre Christin e André Juillard voltam a formar a dupla que tanto nos perturbou com A longa viagem de Lena e assinam uma obra rara, ao mesmo tempo política e contemplativa, que nos permite decifrar o nosso torturado mundo.

LENA EM PLENO BRASEIRO
Numa região perdida do norte da América, uma importante conferência desenrola-se no maior segredo, reunindo representantes de diferentes países (Irão, Turquia, Estados Unidos, Rússia, França, etc.) com o objectivo de discutir a crise que sacode o Médio Oriente, incluindo a Síria, que é objecto de considerações geopolíticas. Os diplomatas confrontam os seus pontos de vista, oferecendo por vezes um espectáculo chocante num mundo ameaçado, pronto a explodir… Lena assiste a essa conferência, que tem de supervisionar, não sem dificuldades… Dez anos depois do segundo tomo, Pierre Christin e André Juillard reencontram-se graças a Lena, a personagem que é o centro de uma narrativa de rara inteligência, onde as questões geopolíticas estão mais presentes que nunca.

Pierre Christin nasceu em 1938 nos arredores de Paris. Em criança, apaixonou-se pelos números de Détective e as capas ilustradas de «Radar». Nos anos 1960, entre as suas atividades como pianista de jazz e os seus primeiros trabalhos de jornalismo, de tradução e escrita, parte à descoberta do Oeste americano. Lá, entusiasma-se tanto pela vida nos ranchos e pelas autoestradas urbanas como pela ficção científica, o romance policial e a música negra, que está então no seu apogeu. Em 1967, assina, com Jean-Claude Mézières, a primeira aventura de Valérian, sem imaginar a longevidade futura do seu herói. Traduzido em vinte línguas, Valérian foi rapidamente considerada uma série de vanguarda e inspirou numerosos autores e realizadores, entre os quais George Lucas e, claro, Luc Besson, que dirigiu uma adaptação ao cinema, em Julho de 2017: Valérian et la Cité des mille planètes.
Em 1968, foi nomeado para a Universidade de Bordéus onde criou o IUT de Jornalismo, de que foi sempre um dos animadores. Nos anos 1970-1980, em «Pilote», escreveu para Jacques Tardim François Boucq, Jean Vern e muitos outros — seis dezenas de álbuns nos quais experimenta todos os géneros. Guarda a sua vertente otimista ­— leia-se utópica ­— para o seu velho amigo Mézières, de quem aprecia a clareza narrativa e o humor jubiloso. Os temas mais sérios, alimentados por investigações no que ainda era nessa época o bloco comunista, trata-os com Enki Bilal, em álbuns que se tornaram grandes clássicos da banda desenhada política, como Les Phalanges de l’ordre Noir (Dargaud, 1979) ou Partie de chasse (Dargaud, 1983). Com Annie Goetzinger, exprime uma sensibilidade completamente diferente em retratos de mulheres, intrigas intimistas, à imagem da La Demoiselle de la Légion d’honneur (Dargaud, 1980) ou de Paquebot (Dargaud, 1999).
Grande viajante, faz uma primeira viagem pelo hemisfério Norte em 1992. Um périplo que narra em L’Homme qui fai le tour du Monde (Dargaud 1994), ilustrado por Max Cabanes e Philippe Aymond. Renova a experiência em 1999, passando desta vez pelo hemisfério sul. Mas, com frequência, os seus passeios não o levam mais longe do que Paris: a volta à cidade seguindo os carris abandonados da pequena cintura (La Voyageuse de petite ceinture, Dargaud, 1985, com Annie Goetzinger), ou da pequena coroa, em bicicleta (La Bonne vue, tomo 5 das Correspondances, Dargaud, 1999, com Max Cabanes). Sem nunca esquecer a banda desenhada, Christin experimenta outras formas de escrita. Nos seus romances, também evoca tanto a aventura citadina (ZAC e Rendez-vous en ville) como os mergulhos nas profundezas do território francês (L’Or du zinc). Com a coleção Les Correspondances de Pierre Christin (Dargau, 1997-2002), explora outras relações entre texto e desenho. Para estes álbuns, trabalha, entre outros, com Patrick Lesueur, Jacques Ferrandez, Jean-Claude Denis, Alexis Lemoine e Enki Bilal.
Em 2006, assina com o talentoso André Juillard o primeiro volume da saga Lena (Dargaud), cujo terceiro tomo saiu em 2020. Em 2019, saiu o segundo tomo de L’Avenir esta avancé, no qual Mézières e Christin revisitam na companhia de Valérian e Laureline alguns episódios míticos das mais célebres séries da ficção científica francesa. O círculo fechou-se, Mézières e o seu cúmplice de sempre estão a caminho de novas aventuras…
Vence o prémio Goscinny 2019 outorgado pelo festival internacional de banda desenhada de Angoulême pelo seu álbum autobiográfico Est/Ouest (Dupuis, 2018) desenhado por Philippe Aymond, e também pelo conjunto da sua obra.
Considerando que, para viver feliz, é necessário viver muito, mas escondido, teria adorado viver cem vidas em cem cidades e ter outras tantas identidades…

André Juillard nasceu em Paris em 9 de junho de 1948. Muito rapidamente, a paixão do desenho apoderou-se dele. Ainda criança, devora o semanário Tintin. A leitura de Hergé, Jacobs, Martin e Bob De Moor da época de ouro fazem dele um especialista, ainda inconsciente, da linha clara. O manual de história da turma do sexto ano será a sua segunda grande influência, em especial as páginas consagradas à Antiguidade. Ainda não o sabe, mas a sua paixão pela linha clara, a História e as histórias farão dele um autor moderno, sem nunca se esquecer das lições do passado.
Depois de ter acabado o secundário, em 1967, matricula-se nas Artes Decorativas de Paris, onde conhece Martin Veyron e Jean-Claude Denis. Em 1974, estreia-se na Formule 1, com um western com roteiro de Claude Verrien. Este último, escreve para ele Les Aventures chevaleresques de Bohémond de Sanit-Gilles. Os entusiastas esclarecidos adivinham nele já uma grande esperança da banda desenhada realista. Em 1978, desenha «Les Cathares» para a Djinn antes de iniciar uma frutuosa colaboração com Patrick Cothias ao publicar «Masquerouge» em Pif Gadget.
Em 1982, como o mesmo argumentista, publica as primeiras páginas das Sept Vies de l’Épervier que o fazem entrar diretamente para a secção «clássicos da BD contemporânea». Como Jacques Martin fez no seu tempo com Alix, Juillard criou uma nova área da BD histórica realista. Muitos se inspiram nela, alguns verdadeiros talentos, muitos apenas imitadores. Ele, humilde, continua o seu caminho. Como todos os grandes desenhadores, sente que tem asas para, de vez em quando, escrever a história que em seguida desenhará. Principalmente porque, às vezes, sente necessidade de fugir da História, a sua amante preferida. Para À Suivre publica o intimista Cahier bleu que lhe valeu, em Janeiro de 1995, o Prémio de melhor álbum no Festival de Angoulême. No ano seguinte, receberá o Grande Prêmio do mesmo festival.
O primeiro ciclo das Sept Vies de l’Épervier foi concluído após sete álbuns editados pela Glénat. A falta da bela Arianne de Troil é sentida tanto pelos seus criadores como pelo público. A necessidade impõe a sua lei: ela regressará na série Plume-aux-vents, na Dargaud. Se o primeiro ciclo decorre em França, a continuação (4 volumes) apresenta uma América que poderia ter sido francesa. Em 2014, Quinze anos depois, um novo álbum das aventuras de «L’Épervier» inicia um terceiro e novo ciclo da série. Em 2021, sai o segundo título deste ciclo, o último que Juillard desenha antes de o entregar a Milan Jovanovic.
A sombra de Blake e Mortimer acerca-se gradualmente de Juillard. No final dos anos oitenta, as edições Blake e Mortimer contactaram-no para produzir o segundo volume de Trois Formules du professeur Sato. Mas ele ainda não se sente preparado para um tal desafio. Entretanto, em 1998, criou na Dargaud, com o seu antigo cúmplice Didier Convard, a colecção «Le dernier chapitre», contando a última aventura dos mais famosos heróis da época de ouro da banda desenhada. Obviamente, uma das obras será reservada a Philip Mortimer e Francis Blake.
O momento da verdade chega quando, em 2000, desenha, com base num roteiro de Yves Sente, La Machination Voronov. Em 2003, a mesma equipa publica o primeiro volume do díptico Les Sarcophages du 6e continent, seguido um ano depois pelo segundo volume. Juillard continua o seu percurso, criando na mesma coleção O santuário de Gondwana. Em 2016, será lançada uma nova obra de Les Aventures de Blake et Mortimer, sempre com a cumplicidade de Yves Sente: Le Testament de William S.
Além de sua participação na série Blake e Mortimer, trabalha com muitos grandes argumentistas como Pierre Christin (Léna, cujo terceiro volume foi lançado em 2020) ou Yann (Mezek e Double 7). Como ilustrador, distinguiu-se sobretudo nas edições Beaulet e também com Daniel Maghen, que publicou uma autobiografia em imagens, Entracte. O seu talento foi celebrado no festival BDFIL de Lausana, em 2008, onde foi o convidado de honra. Uma exposição «Destins-Drawings» foi também dedicada à sua obra.

Lena (edição integral)
Pierre Christin, André Juillard
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a cores
Encadernação: capa dura
ISBN: 978-989-53114-0-8
PVP: 31,00€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.