… Os Covidiotas!

Não se deixem enganar pela imagem de abertura. Este não se trata de um artigo de serviço público, mas apenas uma análise possível ao mais recente livro de Luís Louro que a Ala dos Livros acaba de publicar, Os Covidiotas.

Devo começar por dizer que sou um incondicional admirador do trabalho de Louro. Desde tempos idos, quando esbarrei pela primeira vez com o seu (e de Tozé Simões) Jim del Monaco e os seus “sidekicks” Gina (nome inspirado) e Tião e, poucos anos depois, com Roques & Folques, que sempre acompanhei e admirei o seu trabalho. E continuei fã com a saga do Corvo, o delírio de Alice, os recentes Watchers e Sentinel, e todos os outros álbuns de permeio.

Sempre me fascinou o seu traço “linha clara” com um toque de modernidade. E a saída de cada novo álbum era, e ainda é, um verdadeiro acontecimento.

Para mim, é daqueles autores que me deixam feliz com a vida e a quem, por sua vez, não deveria ser permitido ter vida própria. Antes deveria estar agrilhoado ao estirador, com doses suplementares de bebidas energéticas, de modo a produzir, pelo menos dois a três álbuns por ano!

Dito isto, vamos ao que nos traz aqui!

Como o autor já disse em algumas entrevistas, Os Covidiotas surge da sua observação da sociedade nacional e internacional em pleno período pandémico e de confinamento. Em 2020, cria uma tira que vai publicando no facebook e que retrata os hábitos e costumes dessa nova raça recém-descoberta – os Covidiotas. E são essas tiras que são agora reunidas em álbum.

Quando se fala em tiras, regra geral esperamos ver uma sequência horizontal de vinhetas que podem variar entre duas e cinco. Mas com Louro, uma tira é uma tira. Ou seja, cada história ou gag é contada numa única vinheta. E é o “melhor” da raça de Covidiotas que ele vai retratar em cada tira.

Na verdade, inclusivamente devido aos diálogos em forma de texto no rodapé de cada trabalho gráfico, formalmente parecemos estar mais próximos do cartoon do que da tira. Mas permitam que continue a usar o termo “tira” ao longo deste artigo.

O álbum abre com esta pérola dos “coentros”. Pois toda a gente sabe que é preferível uma boa dose de coentros pela goela abaixo que um punhado de “covides” pelo nariz acima!

Na verdade, a primeira tira dá o mote a todo o álbum. Seguem-se 154 tiras de humor inspirado, várias delas a conseguirem fazer-me figura de parvo por estar a dar risadas, sozinho, no meio de uma esplanada – mas ao menos este vosso parvo não é covidiota, pois estava de máscara.

Situações do quotidiano alterado, figuras públicas de inspiração duvidosa, os chico-espertos que acham que só acontece aos outros, os que não respeitam nada nem ninguém ou os que parecem estar a viver numa realidade alternativa à nossa, ninguém é poupado pelo humor simpático, mas também corrosivo, de Luís Louro.

Para quem quiser dar-se ao trabalho, Os Covidiotas é bastante mais que um álbum humorístico. Na verdade, colige e faz o resumo do que pode ser a estupidez humana numa situação concreta – a de pandemia.

E é esse o fio condutor. Não há propriamente uma história ou um protagonista. Se bem que o vírus do covid-19 aparece em muitas tiras e está omnipresente em todas elas.

No entanto, há figuras recorrentes. Desde logo, Trump está no primeiro lugar do pódio. Bolsonaro em segundo. E o original, radical, mas simpático, Ahmed em terceiro.

Por fim, as famosas mamocas de Louro, que costumam povoar todos (ou quase todos) os seus álbuns também têm um forte protagonismo, directamente expostas ao vírus ou com máscara, como manda a etiqueta covid.

Apesar da forte crítica social, o humor de Louro não é ofensivo ou gratuito e, muitas vezes, é mesmo elegante.

Enfim! Os Covidiotas é um álbum divertido, mordaz, que faz pensar e que suscita comentários entre amigos.

Só espero que a imagem de contracapa (à laia de homenagem às animações da Warner Bros.) seja pronúncio de uma segunda dose a ser dada em menos de três meses.

E já agora, caro Louro, no caso remoto de me estar a ler, porque não umas quantas tiras com os seus heróis mais conhecidos?! Garanto que os fãs entrariam em delírio ao ver num Covidiotas, a Segunda Dose Jim del Monaco com Gina e Tião, o Corvo, Alice e outros.

Pense nisso, com carinho!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.