De María e Miguel Gallardo.

A ignorância não é uma benção. A ignorância leva-nos a ser cruéis de graça e mão beijada!

Este livro de um pai que fala de María, sua filha, é delicioso.

María tem 12 anos, um sorriso lindo e tem autismo. E, caramba, como a banda desenhada pode ajudar através das suas “imagens claras e sintéticas que transmitem ideais ou situações”. Crescemos a pensar que a BD é para crianças, preguiçosos que não curtem ler muito e coleccionadores nerds. Este livro quebra com alguns conceitos algo pré-definidos no nosso “eu”, ajuda a descomplicar várias situações e pode até ser uma boa ferramenta de estudo. Para quem não sabe bem o que significa o transtorno do espectro autista (tal como eu) e reage por vezes inconscientemente com alguma repulsa, é importante conhecer María e eu e tudo o que nele está implícito.

O pai explora e desmistifica esses medos e preconceitos de uma forma tão bonita que mais parece uma receita culinária. De um delicioso bolo de chocolate ou de um cheesecake de mirtilos e framboesa com pepitas de chocolate preto por cima.

Em adolescente, pensava que tudo não passava de um enorme esgotamento nervoso. Culpa do sistema nervoso – “estás com muitos nervos”. E quem nunca ouviu isso? Uma vez na vida?

Melhor, não vou googlar “autismo”. Amo o livro, tal como ele é. Tal como o pai ama María. Como ela é.

Gosto dos seus desenhos e narrativa simples, expressivos e meigos, sem grande bicho-papão à mistura. Tudo luminoso e amoroso, tal como a praia e a areia de María.  É possível ser feliz tendo autismo?

Parece bem que sim. Sem penas. Com amor.

Apesar do desenho “ter alguns pêlos”, o que dá um estilo “estranho à coisa” (para mim que aprendi que o traço deve ser firme e seguro e não peludo, mas já foi há muitos anos), é tão certeiro e expressivo que captamos a essência da linguagem do pai e María logo à primeira. Sucinto e rápido, com cheirinho a verão ou a um bolinho bom de chocolate.

Ouço a música que o pai falou e curto. É fixe!

“Everything is falling into place” de Kevin Johansen.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

María tem 12 anos e é autista. Vive com a mãe em Las Palmas, nas Canárias, e quando o pai, que mora em Barcelona, a vai visitar, decide levá-la a passar alguns dias… Num resort, cheio de turistas alemães. Os dias sucedem-se, todos iguais: praia, piscina, karaoke, hidroginástica, buffet à discrição… María crispa os dentes, olha intensamente para a areia que lhe escorre entre os dedos das mãos, raramente sai do muro invisível que a rodeia, belisca com força os braços daqueles de quem gosta e diverte-se com os desenhos que o seu pai lhe faz. Tudo isto, é evidente, acontece sob o olhar “dos outros” – o “pesado” olhar dos outros… Mas para Miguel Gallardo isso pouco importa. Preferindo o humor perante o que observa no seu dia-a-dia à manifestação de uma cólera legítima, este conceituado desenhador espanhol oferece-nos uma comovente obra autobiográfica sobre o autismo.

Miguel Gallardo vive e trabalha em Barcelona. Colabora habitualmente como ilustrador para o “La Vanguardia” e diferentes revistas espanholas e internacionais como o “Herald Tribune” e o “New Yorker”. Ganhou dois prémios no Salón del Cómic de Barcelona e um Serra D´OR. Além de ser um dos criadores de Makoki, publicou outras obras como “Perico Carambola”. “María e Eu” foi o primeiro livro da editora espanhola Astiberri publicado em Portugal.

A María vive em Las Palmas da Gran Canária e tinha 12 anos quando “María e Eu” foi editada. Tem uma capacidade fora do normal para lembrar os nomes das pessoas que alguma vez conheceu, ainda que tenha sido apenas por uns minutos.

María e Eu
María Gallardo e Miguel Gallardo
Editora: ASA
Ano: 2012
Páginas: 64 páginas, a 2 cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 246 x 171 mm
ISBN: 9789892317731

SOBRE O AUTOR |

Ana Ribeiro
Ana RibeiroColaboradora
Costumava desenhar de joelhos, com os braços em cima da cama quando era pequenita e mais tarde numa mesa de escola. Os joelhos agradeceram. Cresci com banda desenhada e criei o fanzine "durtykat" em 2001. Viajei quase à pala e fui colaborando e comunicando através de desenhos, nascendo assim as Nits, em 2014. Voltei a desenhar de joelhos mas eles não se têm queixado. A última exposição foi na Galeria Mundo Fantasma, no Porto, no ano de 2019.