Análise de Peter Pan vol. 5: Gancho.

Neste conto de fadas para adultos, Loisel tem-nos surpreendido, álbum após álbum, com a sua interpretação da obra de J. M. Barrie, Peter Pan.

Dura, violenta, cómica e enternecedora, conta-nos a história de Peter Pan antes de o ser, a história de Peter Pan antes de Barrie e antes de Disney.

Mas, a pouco e pouco, a narrativa de Loisel começa a fundir-se com a narrativa clássica do “rapaz que não queria crescer”. Contudo, nunca do modo que poderíamos esperar. Da surpresa à incredulidade, o leitor mal pode acreditar nas soluções encontradas por Loisel para justificar que o rapazinho londrino chamado Peter se transforme em Peter Pan ou qual a verdadeira razão para que um certo réptil gigantesco não desista de perseguir o irrascível Capitão dos piratas. E, no entanto, tudo faz sentido!

Tal como no álbum anterior (Mãos Vermelhas) assistimos ao surgir da nova identidade de Peter, agora assistimos à transformação do Capitão (finalmente!) em Capitão Gancho. Mas também, embora num discreto segundo plano, ao começo da transformação dos órfãos amigos de Peter em Meninos Perdidos. Duplas identidades, duplas personalidades, são o mote de arranque de mais um capítulo de Peter Pan no quinto volume, intitulado Gancho.

Vamos à história!

Após a morte do seu amigo Pan, Peter tornou-se Peter Pan aos olhos de todos, como se o povo mágico da Ilha já tivesse esquecido o infeliz ser com pés de cabra.

De Londres, Peter Pan conseguiu trazer os seus amigos órfãos e todos se ocupam agora da organização da sua nova vida, com a inocência e a ligeireza própria das crianças. O seu maior desejo é conhecerem e atacarem os piratas ou serem atacados por estes, pois todos esperam a terrível vingança do Capitão.

Entretanto, tão explosivo quanto Peter Pan, o Capitão é brindado por um dos seus piratas com um gancho de metal ornado de pedras preciosas para substituir a mão que Peter lhe cortou e deu a comer ao “guardião” da Ilha. De agora avante será o Capitão Gancho!

E tal como é esperado por todos os do povo feérico, o Capitão Gancho prepara a sua vingança e organiza uma expedição à Ilha para tentar localizar e apanhar Peter Pan, reservando-lhe o pior dos destinos.

Peter Pan e companhia embrenham-se na floresta e refugiam-se num velho esconderijo, antecipando os movimentos dos piratas. Mas durante a noite, assombrado por pesadelos, Peter Pan abandona o grupo e, mais uma vez, parte para Londres.

Lá, vai encontrar o seu velho amigo e mentor, o Sr. Kundal, que jaz moribundo no seu leito de morte. Antes de dar o último suspiro, este oferece a Peter os seus bens mais preciosos: uma velha carta lacrada e uma caixa que contém o seu tesouro e que nunca deverá ser aberta. Peter entrega-lhe a mala de médico que tinha levado para a Ilha de modo a poder operar Pan, mas o Sr. Kundal oferece-lha pois agora não mais lhe fará falta. Peter agradece, como agradece também o facto de ter tornado possível que ele e Pan se tornassem para sempre inseparáveis… Lá fora, encoberto pelas sombras da rua sórdida, Jack, O Estripador desliza pelo silêncio da noite.

Ao mesmo tempo, o Capitão Gancho e os seus piratas desembarcam na Ilha e começam a perseguir um Peter Pan ausente, numa expedição que vai de desgraça em desgraça, atolados e perdidos nos pântanos da Terra do Nunca e aterrorizados pelo “tic tac” omnipresente do despertador alojado nas entranhas do crocodilo que não descansa enquanto não devorar o resto de Gancho.

Mas, para além do ataque do crocodilo, o chefe dos piratas deverá enfrentar um demónio final, uma revelação que fará tremer todos os seres da Ilha… até Peter Pan!

Mais um álbum de Peter Pan e mais uma vitória de Loisel!

Como sempre, a sua narrativa consegue criar um certo estado de espírito no leitor ao longo de várias páginas para, num breve segundo, o destruir com uma reviravolta absolutamente inesperada.

Se o registo principal deste álbum é a trágico-comédia, com a expedição falhada do Capitão Gancho e dos seus piratas à Ilha, rapidamente o nosso humor desaparece com a inacreditável (mas credível) revelação final. Do riso às lágrimas num estalar de dedos!

Mas a dualidade prossegue, uma vez mais, com a intriga a desenrolar-se em dois teatros de operações diferentes: Londres (cada vez mais esquecida por Peter e onde deambula o mais famoso assassino em série de todos os tempos) e a Ilha que conhecemos antes de tempo como a Terra do Nunca (na qual é travada uma guerra cada vez menos silenciosa entre piratas e índios e todos os outros habitantes).

E a chegada dos novos personagens, os Meninos Perdidos, é deixada aqui em segundo plano, dando lugar a variadas sequências humorísticas que aligeiram a atmosfera tensa (mesmo que não dêmos por ela) e que nos levam ao engano por um mundo que parece encantado e até bucólico, mas que está muito longe de ser bondoso ou maravilhoso.

Porque é que Gancho é mau? Porque é que as Crianças Perdidas perdem a noção do tempo e ficam eternamente jovens? Loisel, de forma magnífica e poética, leva-nos até à fronteira com o romance de J. M. Barrie e a versão de Walt Disney (mais ligeira), para logo nos fazer mergulhar na sua versão e nos afastar para outra realidade, mais próxima das trevas e de espíritos perturbados.

São todos estes espíritos, onde se inclui o nosso protagonista, que parecem esquecer rapidamente as suas vidas passadas. E é esta força do “esquecimento” que permite fazer a ligação com o Peter Pan por todos conhecido, fazendo tábua rasa de quase tudo que Loisel nos deu a conhecer ao longo da série, no que à consciência dos personagens diz respeito.

De facto, o esquecimento desempenha um papel central na narrativa de Loisel.

Vejamos! Peter Pan representa a criança que não quer crescer. Ele aparece-nos como um personagem simpático, positivo, divertido, mágico e corajoso. Mas por trás desta fachada esconde-se uma realidade bem mais complexa, fortemente ligada à noção de esquecimento. Ele já está presente na obra original de Barrie que explica que a infância eterna de Peter Pan só é possível enquanto ele esquecer as suas aventuras e o que aprende acerca do mundo. Cada aventura e cada aprendizagem são indícios do tempo que passa. Tudo o que Peter vive e aprende aproxima-o do mundo dos adultos. Por isso, ele deve esquecer de modo a ficar eternamente criança. E Loisel estende o conceito de esquecimento a toda a Ilha. Esta perda de referências, de consciência das consequências dos seus actos tornam-se a regra.

Todos os actos mais cruéis, como a tentativa de afogamento de Peter por parte das sereias, não parecem preocupar especialmente ninguém. À falta de memória e de consciência das consequências dos seus actos, tudo parece não passar de um jogo, de uma brincadeira. Mas quantos não são vítimas destes jogos tão inocentes?

E no decorrer da série, estes jogos vão-se multiplicando e acumulando, até ao derradeiro desfecho que nos aguarda no próximo e último volume. E a cada jogo, o esquecimento acaba por triunfar.

Na sua última viagem a Londres, Peter encontra-se com o Sr. Kundal. Este conta-lhe acerca do assassinato da sua mãe. Peter chora? Fica histérico? Não! Limita-se a afirmar: “!?Minha mãe!? Mas que mãe?… Eu não tenho nenhuma mãe!? Bizarro… não me lembro de nada… ou vagamente…” E quando o Sr. Kundal lhe pergunta se a intervenção cirúrgica que Peter executou no seu amigo Pan correu bem, Peter hesita, acaba por recordar o “pé de bode” e diz que tudo correu pelo melhor. Peter não mente… apenas se esqueceu que Pan morreu.

Este esquecimento, que no mundo dos adultos é uma conveniência e no mundo dos idosos é o declínio, no mundo das crianças é o elixir da eterna juventude, mas é também a arma mais perigosa do mundo. À custa do esquecimento, tudo é permitido, tudo é brincadeira. E o que alguém acaba de ser ou fazer é já obra do passado e esse alguém já é outro ou já está apto para cometer uma qualquer outra crueldade.

Um fio condutor esquizofrénico que gera duplas personalidades alicerçadas no que para uns é uma panaceia, para outros é um papão e para todos uma desculpa: o esquecimento!

Curiosamente, até o desenho de Loisel, quer pelo traço quer pelas cores, segue também uma espécie de noção de esquecimento. É nas ruas escuras e sórdidas de Londres que Peter tem a luz do seu melhor amigo e mentor, o Sr. Kundal. E é nas paragens iluminadas e coloridas da Ilha que ele tem e continuará a ter os seus momentos mais duros e os seus maiores pesadelos (ver o álbum Opikanoba) e pratica as maiores crueldades.

Uma última palavra para a reviravolta que Loisel nos reservou para o final deste álbum e acerca da qual nada direi a não ser que pressagia um sexto e último álbum à altura da excelência de toda a série. Um último álbum cravado pelo horror e pela tragédia e que, ao contrário de Peter Pan e do povo feérico, nós os leitores não conseguiremos esquecer!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.