Análise de Fahrenheit 451: A adaptação autorizada.

Ultimamente, as adaptações de romances para banda desenhada têm começado a surgir mais regularmente no que toca à edição de banda desenhada no nosso país. Sendo propostas editoriais quase eclipsadas durante décadas em Portugal, têm-se tornado cada vez mais abundantes, existindo diferentes editoras a apostar neste registo com diferentes resultados.

Se algumas destas adaptações tentam concentrar em poucas páginas autolimitadas as narrativas que lhes deram origem, com resultados, de modo geral, sofríveis a nível de argumento e, frequentemente, desinteressantes a nível gráfico, com a vã ilusão de que podem ser a porta de entrada para despertar para a leitura da obra original, outros lançamentos merecem um olhar dedicado.

Seja a nível do argumento adaptado, seja do grafismo, seja do conjunto de ambos, têm sido lançadas obras que têm merecido destaque. Prova disso, é a seleção de algumas delas para as nomeações dos Prémios Bandas Desenhadas, nomeadamente A História de uma Serva de Renée Nault pela Bertrand (vencedora do Prémio de Melhor Argumento em Obra Estrangeira 2020), 1984 de Fido Nesti pela Alfaguara (nomeação na categoria de Melhor Argumento em Obra Estrangeira 2020) ou Dois Irmãos de Fábio Moon e Gabriel Bá pela G. Floy (nomeação na categoria de Melhor Ilustração Estrangeira 2019), já para não mencionar a série O Castelo dos Animais de Xavier Dorison e Félix Delep, uma adaptação livre da obra de Orwell, publicada em Portugal pela Arte de Autor (que conta com um total de 4 nomeações entre 2020 e 2021 em categorias como Melhor Publicação Estrangeira e Melhor Argumento em Obra Estrangeira).

Entre as demais adaptações que merecem destaque, encontra-se Fahrenheit 451: A adaptação autorizada de Tim Hamilton pela Relógio d’Água, a qual já tinha editado Mataram a Cotovia de Fred Fordham e A Quinta dos Animais de Odyr.

Tendo o romance de Ray Bradbury sido escrito em 1953 e sendo considerado uma das maiores obras-primas de ficção científica, a obra de Tim Hamilton consegue captar em pleno a essência do mesmo no que toca à narrativa.

Frequentemente, a obra é citada quando se alude aos perigos da censura. Ou o livro não se passasse numa sociedade futura distópica, na qual ter opinião é um crime e em que todos os livros são proibidos, sendo a função dos bombeiros destruí-los em nome da paz e da harmonia.

No entanto, os leitores reconhecerão que a semelhança da sociedade retratada com a sociedade atual é surpreendente. A aceleração da cultura e da tecnologia, bem como a dominação da superficialidade em detrimento da complexidade estão omnipresentes. Nesse mundo, os carros aceleram tanto nas autoestradas que nem notam na cor da erva nas bermas, se é que a mesma existe. A sala de estar ideal é composta por ecrãs televisivos enormes que transmitem os programas mais inócuos e estúpidos para manter a população “feliz”. Todos usam auriculares para criar a sua atmosfera privada de prazer e diminuir a necessidade da genuína interação humana.

Na verdade, os livros são queimados mais pelo espetáculo do que pela censura, qual reality show. Nada de novo, pois o espetáculo das fogueiras já caminha com a humanidade há vários séculos. E a população deste mundo nem tem vontade de ler. Escolheram a ignorância e a apatia em detrimento de uma relação com a palava escrita num mundo em que a televisão lhes grita o que pensar. A complexidade do raciocínio foi substituída por uma “felicidade” obtusa. O pensamento abstrato não tem lugar, somente o concreto.

Livros, jornais, revistas… Nada escapa. E, quando é explicado como se deu a transição entre o vagaroso século XIX e o mundo distópico representado, Hamilton até pisca o olho, na página 47, às adaptações de banda desenhada, como um exemplo dos resumos e leituras rápidas possíveis num mundo acelerado, sem tempo para a leitura dos originais. Esta alusão contém a private joke da vinheta ter representada uma adaptação de A Ilha do Tesouro, tendo o próprio Hamilton realizado essa adaptação 4 anos antes.

Se, como vimos, Hamilton capta a essência da obra de Bradbury, realizando um trabalho perspicaz na adaptação do argumento, é no grafismo que tem maior liberdade para criar o “seu” Fahrenheit 451. As suas composições de página não são as tradicionais, com as vinhetas a fundirem-se com os bordos das páginas, procurando diversificar as soluções gráficas em cada página, a serviço da história que está a ser contada. Isto confere uma contemporaneidade à obra que, aliada à tecnologia representada já parecer algo desatualizada, nos faz colocar a questão se este mundo distópico previsto por Bradbury, repleto de reality shows e demais programas de embrutecimento popular já não se instalou, numa população cuja leitura cada vez mais se parece concentrar nas legendas dos vídeos e mensagens dos chats

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.