Análise de Lena – Edição Integral.

Se ignorarmos o que diz a sabedoria popular, até poderíamos pensar que ser espião é uma das mais antigas profissões do mundo. Se nos determos em alguns relatos da Grécia e Roma antigas, lá estão eles a desempenhar o seu papel para oligarcas, reis, senadores, chefes militares ou imperadores.

Saber o que o adversário prepara, de modo a anteciparmos os seus movimentos, é, muitas das vezes, uma questão de sobrevivência tão antiga quanto o surgimento da primeira civilização – quando a História começou na Suméria, há cerca de cinco mil anos.

Desde então, a profissão que deveria ser uma das ou a mais discreta do mundo, e que tantas vezes está também associada ao mundo da Diplomacia, acabou por se expor a nível universal através da ficção, sobretudo na literatura e no cinema.

Quando pensamos em romances de espionagem, imediatamente nos vem à memória os nomes de Ian Fleming e de John Le Carré e dos seus tão conhecidos personagens, James Bond (007) e George Smiley, respectivamente.

Mas uma miríade de agentes secretos povoa hoje as páginas de livros e os ecrãs de cinema e televisão. Em regra, o que os une a todos é uma mistura de glamour, bravata, uma excelente condição física e a disposição para entrarem sempre em acção, sobretudo aquela que contém os feitos mais incríveis. E aqui temos o já citado agente 007, Jason Bourne (o espião sem memória criado por Robert Ludlum), Ethan Hunt (o agente da IMF da série Missão Impossível) e tantos outros.

Do outro lado do espectro, temos então o personagem icónico de John Le Carré – George Smiley. Smiley não é glamoroso, não dá nas vistas, não tem um físico extraordinário, não procura as mais complicadas e inacreditáveis situações, mas tem uma memória invejável e um cérebro bem oleado. Mas talvez a sua maior característica seja o saber actuar nos momentos silenciosos que entremeiam duas cenas de acção de um qualquer James Bond. Um verdadeiro espião silencioso.

E é aqui que se enquadra Muybridge, Lena Muybridge – a espia criada pelo génio contido de Pierre Christin (um dos pais do agente espácio-temporal Valérian) e pelo traço sereno e inconfundível de André Juillard (conhecido em Portugal pelas séries Máscara Vermelha, As 7 Vidas do Gavião, Arno e por vários álbuns das aventuras de Blake & Mortimer).

De facto, Lena faz parte do grupo realista dos espiões silenciosos que, de algum modo, são também espiões solitários.

De 2006 a 2020, Christin e Juillard criaram três álbuns da série Lena ,que em 2021 são publicados em Portugal pela Arte de Autor numa edição integral, cujos apresentação e previews pode ser lidos aqui.

Vamos às histórias!

1 – A LONGA VIAGEM DE LENA

Originalmente, é publicado em álbum em setembro de 2006 pela Dargaud.

Um calor tórrido esmaga as ruas vazias de um subúrbio da antiga Berlim-leste. Lena calcorreia solitária e silenciosa as ruas vazias e frondosas até se deter junto da morada que lhe indicaram. É lá que se vai encontrar com um antigo dignitário do regime socialista da extinta RDA. O homem sem nome, sob o olhar atento do busto de Lenine, retira da gaveta de um aparador uma lista com várias páginas e entrega-a a Lena. A troca é breve e cortês e Lena gasta apenas o tempo necessário para decorar os nomes, moradas e telefones para logo queimar a lista. A viagem só se reinicia após ela nadar num lago ali perto.

Depois de se banhar, não há tempo a perder e retoma a sua viagem, agora com rumo à Hungria. É em Budapeste que a espera um novo contacto, mais rude e grosseiro que o anterior e com um discurso ainda pautado pela influência soviética que imperara por ali no tempo do Bloco de Leste. Ao senhor Imre Sambor, entrega uma requintada caixa com bolinhos de massapão vienenses, chamando-lhe a atenção para o único de cor verde e para a sua utilidade quando o momento certo chegar.

Na manhã seguinte, Lena volta a partir e atravessa a fronteira com a Roménia, com destino a uma pequena cidade universitária, onde a espera um terceiro contacto, a antipática professora Danitça, a quem entrega um frasco de perfume para homem, também ele contendo algo que será útil no momento certo.

Durante a noite, Lena viaja de comboio e acaba por apanhar um barco fluvial para atravessar o delta do Danúbio em direcção à Ucrânia. É já em Kiev que se encontra com o seu quarto contacto, Iuri Repitski, um homem bem vestido, bem-falante e simpático demais. A ele entrega um falso estojo com injecções de insulina para diabéticos.

Nova partida. Lena atravessa o Mar Negro num pequeno cargueiro até aportar em Trabzon, na Turquia. Uma demorada viagem de minibus leva-a a Izmir, na costa do Mar Egeu. O quinto contacto é o senhor Adnan Beyamoglu, a quem entrega um caderno de desenho onde, entre vários esboços, se encontram os planos “dos locais onde a acção se irá desenrolar”.

Por fim, após quatro dias de descanso, isolada do mundo, a última etapa da longa viagem leva Lena até Alepo, na Síria, onde se encontra com os irmãos Al-Azmeh e lhes entrega os planos da acção codificados.

A longa viagem chega ao fim, mas não é ainda o momento de nos despedirmos de Lena. Lena, a figura misteriosa e melancólica com um passado trágico. Lena, a mulher solitária e silenciosa, que deambula sem pressas por vários países do antigo Bloco de Leste a distribuir “prendas” a contactos suspeitos. Lena, que carrega no olhar uma triste determinação e que todas as noites, a seu lado, coloca a fotografia de um homem e de um rapaz desconhecidos. É tempo de a acompanharmos agora numa longa viagem interior e, já sem ela, voarmos até ao Dubai, onde vai ter lugar a conferência que pretende resolver o conflito israelo-palestiniano.

A história que abre o álbum Lena é, na verdade, o primeiro álbum da heroína publicado no mercado franco-belga.

Desde logo há a assinalar a autoria da obra – a reunião de dois monstros sagrados da Banda Desenhada que já por cá andam há muitas décadas. Uma equipa de sonho composta por Pierre Christin e por André Juillard que criam A Longa Viagem de Lena após uma viagem que os dois fazem a Berlim.

Ao longo de toda a sua carreira, Pierre Christin nunca deixou de denunciar as falhas dos homens e as consequências destas, quer sob o traço de Enki Bilal com As Falanges da Ordem Negra e A Caçada (ambos publicados no nosso país pela Meribérica) quer com o entusiasmo de Valérian em denunciar todas as formas de totalitarismo.

Nesta primeira missão de Lena, ele analisa, ao longo da viagem, os destinos e sobressaltos patéticos de regimes e organizações que estavam activas durante a Guerra Fria e tornadas quase inofensivas após o desmoronamento do antigo Bloco de Leste, da queda do muro de Berlim e da Perestroika.

O ritmo da narrativa é lento, mas nem por isso deixa de ser muito interessante e esclarecedor. Dois terços da história são dedicados à viagem de Lena. De maneira repetitiva, ela encarrega-se de uma estranha distribuição de objectos desconexos a vários contactos, em vários países, feita de maneira muito linear e sem qualquer explicação. As caixas estão carregadas com os pensamentos de Lena e, aparentemente, são pouco reveladoras. O leitor é quase levado a pensar que Christin se limitou a fazer um diário de viagem para dar prazer ao seu desenhador.

Mas, embora sem muito nos ser revelado, percebemos rapidamente que se trata aqui de uma missão de espionagem, na qual o terrorismo internacional dos nossos dias se mistura com os velhos fantasmas do bloco comunista.

As motivações que levam Lena a efectuar esta longa viagem permanecem secretas ao longo da maior parte da missão. Ela carrega uma profunda nostalgia que nos parece estar na origem da sua determinação. E é uma tristeza íntima, um passado doloroso que ela vai tentando exorcizar, que encontra um eco subtil nas ambiências de desuso que planam sobre as sociedades em plena reconstrução de identidade, ainda entre o outrora e o amanhã.

No final da missão de Lena, a narrativa de Christin consegue surpreender-nos com o talento que se lhe reconhece e onde cada peça do puzzle encontra o seu lugar numa intriga mais complexa do que parece à primeira vista. O fim está bem urdido e conclui a aventura com subtileza e elegância.

Em termos de narrativa, uma palavra ainda para o carácter quase de “manual do espião eficaz” que Christin vai introduzindo ao longo da história, sobretudo através de informações que Lena nos vai dando nas suas reflexões. Numa viagem destas, nunca andar de avião, pois os aeroportos são dos sítios mais vigiados; é interdito o uso de telemóveis, cartões de crédito ou estadias em grandes hotéis, ou seja, tudo o que facilite a localização e a escuta; nunca transportar objectos pessoais ou somente vestígios deles; ter um contacto seguro de apoio, como uma falsa mãe.

Entre questões geopolíticas da actualidade e actos puros de espionagem, a narrativa de Christin é um puro deleite, estendendo ainda esta viagem até ao Dubai e ao seu término em Sidney.

O argumento de Christin parece ser criado milimetricamente para que André Juillard possa exprimir todo o seu talento através da graça e pureza do seu traço fino e realista, que o tornam um dos últimos desenhadores de BD que utiliza com talento a “linha clara”, tão cara a Hergé e Jacobs (aliás, por alguma razão ele é um dos desenhadores actuais de Blake & Mortimer, série na qual já desenhou sete álbuns).

O resultado é elegante, as ambiências são fortes. E se podemos ser tentados a criticar a falta de expressividade de Lena, tal se deve ao facto da sua melancolia se sobrepor a qualquer indício de felicidade que pudesse deixar transparecer. Ela só se irrita na página 48 e só ri na página 60, a última da aventura, para logo ficar a boiar no mar australiano, de olhos postos no infinito azul do céu, enquanto outros se divertem no segundo plano da sua vida.

A Longa Viagem de Lena é uma história de espionagem clássica e elegante que analisa de forma precisa e justa a geopolítica dos antigos países do Bloco de Leste e o terrorismo internacional, através dos olhos de um verdadeiro espião – silencioso e solitário – que, não por acaso, é uma espia.

2 – LENA E AS TRÊS MULHERES

Originalmente, é publicado em álbum em outubro de 2009 pela Dargaud.

Na Austrália, em Adelaide, Lena tenta refazer a sua vida com Rob e com o filho deste, Danny. Mas ela continua assombrada pelas memórias doces da sua vida passada. Afinal, Rob não é Antoine, o seu marido. E Danny não é Sylvain, o seu filho.

Depois de três dias sob um calor sufocante, ao longo das paisagens desérticas do bush, ela tenta reencontrar-se e definir o seu percurso de vida. De repente, um canguru atravessa-se na pista. Para não o atropelar, ela prefere despistar-se, derrapar num tapete de sal e embater num banco de areia.

Vindo do nada, aparece-lhe o seu antigo chefe, o agente secreto Paul-Marie de Calluire. Ela de imediato percebe que o “golpe do canguru” foi montado por ele e encoleriza-se. De certa forma, naquela terra de ninguém onde nenhum ouvido os escuta, ele lembra-lhe diplomaticamente que uma vez nos serviços secretos, para sempre nos serviços secretos.

Embora reticente de início, e após uma longa exposição acerca do que se espera dela, Lena acaba por concordar em participar numa nova missão. Uma missão perigosa, como agente infiltrada, e na qual não podem garantir por completo a sua segurança. A ideia é infiltrar-se num grupo de islamitas radicais que preparam um triplo atentado suicida no metro aéreo de Paris.

Mantendo o nome de Muybridge, Lena Muybridge, os serviços secretos arranjam-lhe um novo e notório passado revolucionário que a torna credível no seu novo papel junto dos meios radicais e, durante vários dias, passa por uma formação rápida e intensa em Sidney, na qual lhe são apresentados os diferentes protagonistas com quem ela arrisca cruzar-se.

Oficialmente, Lena, por um preço proibitivo, deverá “preparar” três jovens mulheres para saberem comportar-se no mundo ocidental sem levantarem suspeitas, ensinando-lhes para isso novos usos e costumes. Três jovens mulheres preparadas para serem mártires. Na verdade, como é óbvio, Lena deverá de algum modo ajudar as autoridades a evitarem o atentado.

Recrutada pelos radicais em Tbilissi, na Geórgia, Lena acaba num campo de treino no Sahel, onde a verdadeira missão tem início.

Enquanto na primeira história, os dois veteranos da 9.ª Arte, Christin e Juillard, nos apresentam uma heroína de personalidade forte, mas assombrada pelo passado e pelo desejo de vingança, colocando-a no meio de uma intriga de espionagem credível e palpitante, agora é uma Lena que se tenta encontrar a si própria que está no centro da acção e preparada para uma missão bem mais perigosa.

Bem mais perigosa e bem mais actual que os resquícios bafientos da Guerra Fria. Agora, assume a primeira linha na luta contra o islamismo radical, infiltrando-se numa rede de “produção” de mártires.

E, em termos de narrativa, esta é uma tarefa que Christin desenvolve com mestria e verosimilhança, mostrando um conhecimento profundo da problemática do radicalismo islâmico, desde os seus mecanismos intelectuais e manipulações, até ao mimetismo discreto das nossas sociedades, passando pelo intermediário e pelo indispensável campo de treino.

Christin, como é hábito nas suas histórias realistas com implicações políticas e sociais, cria com facilidade a trama da sua história que povoa de personagens tão cativantes como inquietantes. É o caso do jovem e sedutor Xeque Najib, o organizador de vários atentados; de Abdel Rachid, o rude responsável do campo de treino; do Xeque Sagheb, o mentor moral e religioso; ou de El Shaburi, ideólogo do sacrifício que ajuda as três jovens mártires a redigirem os seus testamentos.

Bem documentado, Christin trata de temas delicados e impossíveis de serem silenciados. Mas fá-lo com tacto e contenção, sem fazer julgamentos supérfluos acerca dos factos e dos actos que falam por eles próprios.

Mas Christin faz-nos mergulhar também nos motivos, não dos que comandam os actos terroristas, mas dos que os executam. As três mulheres que Lena acompanha, mais ou menos voluntárias, ameaçadas ou endoutrinadas, encontram as suas próprias razões no drama da sua história pessoal.

Mais que um simples thriller político ou de espionagem, Christin e Juillard oferecem-nos, nesta segunda aventura de um classicismo exacerbado, uma narrativa intimista na qual, mais que as próprias missões, é a força de cada personagem que nos intriga e impede que a tensão nos dê tréguas.

E, no entanto, o ritmo criado por Christin e coadjuvado pelo desenho bastante estático (mas de grande classe) de Juillard, não poderia ser mais lento. Os textos narrativos que nos apresentam cada etapa da história, cada faceta dos protagonistas e cada pensamento de Lena, numa espécie de voz-off, reforçam essa ideia de ritmo lento, num registo quase literário. Mas é, precisamente, esta doce lentidão que nos permite apreciar a personalidade de cada personagem e aproveitar o suspense habilmente entretecido. Para o final da história, este tempo lento acaba por acelerar, como se a violência, durante tanto tempo contida, tivesse de explodir numa fracção ínfima de tempo, que volta a entrar num tempo lento e distante nas duas últimas vinhetas, como que ganhando tempo para contemplar o tempo do futuro (ou a próxima história).

Do bush australiano à Geórgia, do campo de treino no Sahel à missão em Paris, Lena faz mais uma longa viagem (como na primeira história). E, do mesmo modo, volta a dar-nos a tal espécie de “manual do espião eficaz”, com pensamentos e atitudes (“…fechar o meu espírito a tudo o que não é o presente… E esperar”). O presente é o foco e o passado a distracção; a paciência é das maiores virtudes e a rapidez e frieza no improviso pode ser a salvação. A isto há que juntar a capacidade de se ser discreto (“nunca exibir a totalidade dos nossos conhecimentos”).

Lena e as Três Mulheres é uma história de espionagem tensa, realista, actual, cativante e elevada ao sublime pelo dom e fluidez de Pierre Christin a criar argumentos e pela linha clara, precisa e elegante, de André Juillard.

3 – LENA EM PLENO BRASEIRO

Originalmente, é publicado em álbum em janeiro de 2020 pela Dargaud.

Ao quadragésimo sexto dia da Grande Conferência, Muybridge, Lena Muybridge, aproveita os últimos dias do verão índio para montar a cavalo por uma floresta soberba, perdida algures no interior da província do Quebeque. E não é por acaso que se cruza com o príncipe Mansur. Regressam juntos ao complexo hoteleiro – um imenso e luxuoso chalé com piscina interior, ginásio com treinador e um sistema de alta segurança. Todos com quem se cruza a tratam por Miss Lena.

Nesta conferência secreta, Lena desempenha o papel de uma espécie de mordomo, responsável pelo acolhimento e provimento dos delegados de vários países, não fazendo parte do pessoal diplomático do país de acolhimento e representando apenas a empresa que é a organizadora material do evento, pelo menos aparentemente.

É uma conferência preparatória de uma cimeira internacional da máxima importância. O que está sobre a mesa é o território sírio e uma possível partilha das suas fronteiras num quadro geopolítico de futuro. Americanos, egípcios, franceses, ingleses, iranianos, nórdicos, russos, sauditas, todos estão oficialmente representados, mas é difícil saber se estes emissários não-governamentais enviados por cada um dos países estão realmente ali para preparar a futura cimeira ou antes para a definir desde já, propondo uma resolução para o problema sírio a ser adoptada pelos seus respectivos governos.

Tal como todos os participantes, Lena sabe que, após a primeira ronda de reuniões, um dos delegados, velejador experiente, encontrou a morte num acidente inexplicável ao ser abalroado por um cargueiro estónio. E o seu substituto acaba de chegar.

Lena mantém contacto com todos os delegados e tenta perceber se uma nova ameaça paira sobre a ronda de conversações que se segue. Em Sir Charles, o lorde inglês que preside à conferência, e em Mansur, o elegante e cortês príncipe saudita, Lena tem aquilo que se pode chamar de aliados.

Aos poucos, Lena vai percebendo que vários dos participantes têm dúvidas acerca do seu real papel no meio deste ninho de tensões diplomáticas. Todos têm algo a esconder. Cada um observa e desconfia, preparando-se para qualquer eventualidade.

Os dias passam e as suspeitas confirmam-se. Lena já não hesita. A ameaça, que só ela conhece, é real. E cabe-lhe descobrir quem, quando e como…

Nesta terceira missão de Lena, o mundo da diplomacia mistura-se com o da espionagem. E Pierre Christin parece não ter perdido o seu toque especial com o passar dos anos (foram 14, entre o primeiro e o terceiro e último álbum), oferecendo-nos uma visão realista da diplomacia e dos diplomatas, com as suas preocupações e com os seus caprichos, por vezes mesquinhos. Mas também com as suas mais profundas motivações e as suas reais alianças.

Lena tem, aparentemente, um papel discreto, mas muito eficaz. E sentimos que esta jovem engajada pelos serviços secretos encontrou finalmente a paz e a sua posição no jogo da vida.

Christin cria um ambiente denso, quase claustrofóbico, ainda que sem clausura. O tom político ecoa A Caçada, a obra-prima que criou com Enki Bilal, pleno de segundas intenções, de segredos diplomáticos e de identidades duvidosas.

A narrativa parte de um conflito no Médio-Oriente e de uma conferência discreta (ou secreta), como aquelas que se realizam regularmente e que são do conhecimento de muito poucos.

O objectivo é a delimitação de novas fronteiras sobre uma zona denominada de Faristão (uma antiga região da Pérsia). É proposto um mapa que tem como ponto central a Síria actual e no qual se coloca em cena a Arábia Saudita, o Iraque, Israel, a Jordânia, a zona curda da Turquia, o Líbano e os territórios palestinianos. Para legitimar o acto, é evocado o acordo Sykes-Picot de 1916 (mantido secreto durante longos anos), no qual Inglaterra e França, antecipando a derrota do Império Otomano durante a I Guerra Mundial, remodelavam arbitrariamente a região, criando esferas de influência e redesenhando o mapa geopolítico. O acordo Sykes-Picot é considerado, ainda hoje, responsável, em parte, pelas tensões e conflitos na região.

Ao mesmo tempo que se joga o xadrez da geopolítica, Christin vai mostrando como a paciência é uma das ferramentas principais de que se devem munir os intervenientes neste tipo de conferências, de modo a conseguirem um consenso que satisfaça todas as partes.

Tal como nas duas aventuras anteriores de Lena, Christin imprime à narrativa um ritmo lento, que funciona aqui como o garante da tensão crescente entre os protagonistas e como o que torna credível as hesitações e os avanços e recuos nas tomadas de decisões.

E também como nas anteriores, Christin prossegue com a sua espécie de “manual do espião eficaz”, quer através de dicas como “nem computador ou internet ou telemóveis” ou através das reflexões de Lena: “Quando se faz aquilo que eu faço e não se pode falar com ninguém, acaba-se por duvidar de tudo e de todos.”

E por fim, novamente como nas duas aventuras anteriores, Christin precipita o terminus, mas de maneira credível e inesperada. Nesta terceira missão existem, contudo, dois fins ou duas conclusões: a da conferência em si e a que nos mostra a resolução da vida da nossa espia silenciosa.

É com mestria que Christin conclui esta longa aventura em três partes, um pouco ao sabor do filme clássico Casablanca. Neste, a famosa frase proferida por Rick é hoje citada em todo o mundo (“…acho que isto é o começo de uma bela amizade!”), certamente sem a maior parte daqueles que o fazem saberem da sua proveniência. “Pfff! Pareço uma vaca!”, diz Lena. Sir Charles retorque, sorridente: “Mas por aqui as vacas são magníficas!”

E se Christin encanta nesta última missão de Lena (que não deve andar muito longe da realidade), o mesmo tem de dizer-se de André Juillard. O seu traço “linha clara” e o seu grafismo realista são de uma enorme beleza e elegância.

As suas silhuetas são agora mais alongadas e esbeltas, um pouco menos detalhadas que o habitual, mas os pormenores que o individualizam enquanto desenhador continuam todos presentes.

A delicadeza de um pé feminino num salto-alto, os quadros nas paredes que surgem de fugida, os personagens em segundo-plano a observarem as cenas principais ou o decorrer das acções laboriosas dos funcionários do hotel, enquanto em primeiro-plano se desenrola a verdadeira acção, tudo parece ter uma dimensão neo-realista no trabalho de Juillard, uma espécie de prolongamento em banda desenhada da pintura de Edward Hopper, da qual deixo dois exemplos em seguida.

Este, que foi originalmente o terceiro álbum de Lena, é de uma grande beleza, com os seus traços subtis e as suas cores doces. A composição das pranchas é falsamente rígida, com vinhetas onde nos podemos deter por longos momentos em contemplação, como acontece na última página, absolutamente soberba.

Em jeito de conclusão, esta edição integral de Lena que a Arte de Autor publica em Portugal é um must-have, não só para os apreciadores de banda desenhada de alta qualidade como também para todos os que não dispensam uma boa ficção política no seio do mundo da diplomacia e da espionagem, sempre com um fundo histórico muito contemporâneo, uma intensidade jornalística verdadeiramente apaixonante e inteligente e uma intriga eficaz e rica em ensinamentos.

A aliança do grande argumentista que é Pierre Christin com o grande desenhador que é André Juillard ofereceu-nos um novo personagem incontornável no mundo da 9.ª Arte – Muybridge, Lena Muybridge. E, embora com muitas semelhanças com o agente George Smiley de John Le Carré, a silenciosa e solitária Lena sempre é bem mais agradável de se ver.

EXTRAS

As Muitas Mulheres de André Juillard:

Juillard é conhecido por criar personagens femininos fortes e belos, Seja Lena, seja a aventureira de Máscara Vermelha ou Arianne, de As 7 Vidas do Gavião, todas elas de linhas sensíveis, silhuetas esbeltas, personalidades cativantes, vibrações eróticas e sempre belas.

Ficam aqui alguns exemplos.

Homenagens:

Seguem-se duas homenagens realizadas por Juillard.

Na primeira, representa alguns dos heróis que já desenhou e, daqueles que já foram publicados em Portugal, podemos ver Arno no primeiro quadro, Lena no terceiro, a Máscara Vermelha no quarto e Blake & Mortimer no quinto. Sobre o pedestal da esquerda, a banda desenhada Maus, de Art Spiegelman. Da janela, vê-se Guernica, imortalizada em tela por Pablo Picasso e passada à banda desenhada por Juillard no seu álbum Double 7, inédito em Portugal.

Na segunda homenagem, Juillard presenteia-nos com uma miríade de heróis de banda desenhada, com os seus adereços e símbolos das suas aventuras. Entre uns e outros, consigo detectar 28. E o leitor? Tente, por exemplo, encontrar a Lena, o Olivier Rameau, o coronel Olrik, Michel Vaillant, Gaston Lagaffe, Marsupilami ou Alix.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.