Análise de Peter Pan vol. 6: Destinos.

Cerca de 15 anos… Cerca de 5500 dias! Estes são os números do desespero, os números que revelam a angústia por que passaram todos os admiradores de Régis Loisel à espera que concluísse Peter Pan, uma das suas obras maiores. E se pensarmos no público português, essa angústia é aumentada em mais 17 anos. Ou seja, em Portugal termina agora uma saga que começou há quase 30 anos (1993). Mas mais vale tarde do que nunca!

Ao longo de cinco volumes, temos assistido à história de origem de Peter Pan, fruto da imaginação prodigiosa de Loisel e da sua interpretação dos muitos indícios que J. M. Barrie deixou na sua obra original, Peter Pan.

De surpresa em surpresa, fomos sendo encantados com as raízes ocultas da história do menino que não queria crescer, entre momentos de ternura, de coragem e de violência física e psicológica extremas.

Dura, violenta, cómica e enternecedora, este conto de fadas para adultos conta-nos a história de Peter Pan antes de o ser, a história de Peter Pan antes de Barrie e antes de Disney.

E tudo convergiu para este momento, para este sexto álbum, no qual Loisel define os Destinos trágicos de cada personagem e nos prepara então para uma leitura mais iluminada da obra de Barrie e para um visionamento de “boca aberta” da animação de Walt Disney.

Vamos à história!

Na ilha feérica (ou na Terra do Nunca), os amigos de Peter Pan já podem brincar sem temerem os ataques dos piratas. O navio do Capitão Gancho zarpou da enseada e pôs-se ao largo.

Para se divertirem, e numa espécie de desejo mudo de conforto e ternura, os Meninos Perdidos tiram à sorte o dia de cada um ter o direito de ficar com a famosa foto da “mamã”, que Peter Pan diz ser a sua progenitora.

Mas um deles alheia-se por completo deste jogo. Na verdade, Narigudo, o mais pequeno dos órfãos, guarda a memória de sua mãe que agora está no céu e não a quer substituir por uma mera fotografia de uma desconhecida. Para além disso, é na ternura e apoio de Rose que ele encontra o conforto maternal.

Mas chega o dia em que a sorte o escolhe para ser o portador da foto. Enquanto ele dorme, as crianças enfiam-na no seu bolso. Às escondidas de todos, Sininho rouba-a e dá-lhe sumiço, consumida que está pelos ciúmes que tem em relação à sua rival de papel. Ao acordar, Narigudo é acusado de ter perdido a mamã. Não satisfeita com o que fez, a sinistra Sininho sussurra ao ouvido de Peter Pan, o chefe incontestado do grupo, a punição a dar ao pequeno órfão. A tarefa é difícil, mas Rose vai ajudar Narigudo. Juntos, têm de guardar um cofre no fundo do refúgio do feroz e voraz Guardião – o enorme crocodilo que devorou a mão do Capitão Gancho.

Só que Sininho também vai estar por perto, e quando os seus olhos se tingem com a cor da raiva, ela não olha a meios…

Foram muitos os anos que Loisel levou a preparar o final desta saga de contornos trágicos, mas de uma grande mestria artística e narrativa.

Os personagens de James Matthew Barrie têm neste volume o episódio mais negro, mais brutal e mais horrendo de toda a série. Mas também aquele que justifica a ligação lógica ao livro de 1911 e ao filme de animação de 1953.

A fada Sininho, que já conhecíamos ciumenta, revela-se aqui verdadeiramente ignóbil e miserável.

E nunca foi tão grande o fosso entre a despreocupação das crianças e a gravidade dos acontecimentos com os quais são confrontadas. Vale-lhes a propensão para esquecerem quase instantaneamente toda e qualquer forma de problemas ou tragédias que, na vida real, marcam para os adultos a fronteira com esta felicidade ilusória.

A última prancha apanha-nos desprevenidos e é apresentada sob a forma de um epílogo evasivo que nos abandona, quais Meninos Perdidos, em busca de conforto e orientação.

A narrativa de Loisel conta-nos a história das origens de Peter Pan, aquela que Barrie parece ter escondido dos seus leitores, talvez com medo de os amedrontar. É que, à parte a bonomia, a boa disposição, o bom humor, todos são aqui mais estridentes e cruéis. E não será a verdadeira natureza das crianças a que se nos apresenta aqui? Talvez não, mas Loisel mergulha magistralmente no espírito delas, conseguindo descrever-nos os seus verdadeiros pensamentos.

As crianças não são cruéis, mas são crianças e, como tal, agem segundo as suas vontades, convencidas de o fazerem correctamente e por direito próprio, mesmo ignorando quais são os seus direitos. E Loisel mostra-nos isso mesmo da mais bela das maneiras, usando o justo tom de crianças a brincarem aos adultos.

Este último volume de Peter Pan é, sem dúvida, o mais duro de todos e a série parece ter um fim abrupto. Um fim que, lá bem no fundo, desejaríamos que fosse mais alegre ou ligeiro, tão bombardeados que somos com finais hollywoodescos ou telenovelescos ou, pura e simplesmente, porque todos desejamos que a vida seja boa. Só com algum distanciamento conseguimos aprovar este epílogo que destrói parte do nosso imaginário de infância, mas que era inevitável.

Só mesmo no fim, estamos preparados para colocar os nossos sonhos de criança de lado e ler agora o romance de Barrie ou ver a animação de Walt Disney com um novo olhar. Pois Loisel deixa-nos no ponto onde a história dos nossos sonhos começa. Neste trágico e brutal fim do princípio!

Outros Considerandos

Como fui dizendo ao longo dos cinco artigos que precedem o presente, este Peter Pan de Loisel é um conto muito adulto ou para adultos (e, mesmo assim, para adultos esclarecidos). A Sininho com as suas formas voluptuosas a transbordarem da vestimenta minimalista; os inúmeros conteúdos “vulgares” e sexuais; a linguagem várias vezes ordinária; a dureza e violência que caracteriza vários personagens que fomos habituados a ver como encantados e quase perfeitos; a sua densidade psicológica e a sua duplicidade; tudo nos parece afastar da peça teatral de Barrie, do seu livro e do filme de animação da Disney. Mas, na verdade, como tive oportunidade de dizer num outro artigo, não nos podemos esquecer que Barrie termina Peter Pan com a seguinte frase sinistra: “…e assim continuará, enquanto (as crianças) forem alegres, inocentes e sem coração.” Loisel retira o subtexto das sombras e coloca-o sob o foco da nossa atenção, tornando o seu Peter Pan bem mais interessante sem, no entanto, o desvirtuar.

Um Peter mais negro

O Rapaz Que Não Queria Crescer é uma figura muito familiar para milhões de pessoas em todo o mundo. E a imagem universalmente reconhecida é a do rapazote amigável e travesso, vestido de verde e com orelhas de elfo que Walt Disney tornou famoso na sua animação de 1953. E esta imagem, em conjunto com a massificação da imagem da Sininho, estrela de linhas inteiras de merchandising, tende a fazer-nos esquecer dos aspectos mais problemáticos e sombrios que existem na aventura de Peter Pan desde a sua origem em 1911.

Qual foi o rapaz que não sonhou voar até à Terra do Nunca, fazer parte do bando dos Meninos Perdidos e lutar junto deles contra os malvados piratas? Mas esta fantasia de tenra idade começa a esboroar-se quando pensamos que, por exemplo, nos Meninos Perdidos não há lugar para meninas.

Na verdade, as mulheres na Terra do Nunca (e no mundo real na obra de Barrie e na de Disney) desempenham papéis muito rígidos – Wendy e a Senhora Darling; Sininho – a amante ciumenta; as sereias – as prostitutas perigosas; e a pequena índia – adoradora silenciosa.

A Terra do Nunca parece dizer-nos que expressar a nossa natureza sexual é algo de terrível, como quando as sereias tentam seduzir Peter e afogar Wendy, levando a surtos de ciúmes e de fúrias assassinas. Não! O correcto papel feminino é aspirar a ser uma mãe (o papel de esposa é inconsequente) e não querer que rapazes se transformem em homens. Por alguma razão, os homens presentes nas obras de Barrie e de Disney se comportam como crianças, quer na Terra do Nunca quer no mundo real.

E a única mulher a quem é permitido expressar os seus sentimentos sem sofrer consequências é a pequena índia Tiger Lily, sempre silenciosa e representada como a “outra”, exótica e sexual, num estereótipo racista.

Loisel entra em cena

Aparte Wendy e os Darlings, todos estes personagens entram na interpretação detalhada de Loisel acerca desta fantasyland. Tudo começa num bairro degradado e pobre de Londres, no inverno frio de 1887.

Num mundo bem afastado da Londres eduardiana dos Darlings, Loisel faz-nos mergulhar pelos telhados para espiarmos um grupo de crianças desgrenhadas que lutam entre si (fazendo uso do melhor vernáculo) de modo a arranjarem lugar junto a um portão onde, do outro lado, um outro rapaz conta uma história. Estes rapazes perdidos, que vivem no orfanato, acotovelam-se para ouvirem a história de Cinderela e das suas horrorosas meias-irmãs, mas também o relato de Peter (o contador de histórias) acerca da sua cândida e amorosa mãe que o espera em casa, um ser angelical que o enche de beijos e amor.

No caminho para casa, Peter passa numa estalagem onde, habitualmente, um velho homem alimenta tanto o seu apetite como a sua imaginação. O Sr. Kundal tem um interesse paternal por Peter, ensinando-o a ler, escrever, contar e, o mais importante, a contar histórias. A sua importância é maior ainda, tendo em conta o ambiente em que Peter vive e a verdadeira natureza da sua “querida” mãezinha.

De novo a caminho de casa, é acossado por uma prostituta que lhe oferece a possibilidade de apalpar os seus seios pesados. Peter foge dela gritando “Adulta porca!”, mesmo antes de ser enviado de novo para a noite fria pela sua violenta e alcoólica mamã. Forçado a mostrar os genitais em troca de uma garrafa de brandy que a sua mãe deseja, Peter quase é violado por um bêbado que, por sua vez, é atacado por uma matilha de cães raivosos que lhe arrancam o pénis, enquanto o rapaz assiste a tudo.

Em definitivo, este não é o mundo de Barrie. As três crianças Darling, mimadas e afectadas, não reconheceriam estas ruas ou estes acontecimentos. Mas este é o Peter antes da Terra do Nunca, o Peter que ganharia uma tão forte fixação na figura maternal e que desejaria nunca crescer para se tornar num adulto porco. É este Peter pré-sexual e inocente que Sininho encontra em Londres, atirado para a rua e enregelado.

Ao longo dos seus seis volumes, Loisel apresenta-nos todos os personagens principais da Terra do Nunca – para além de uns quantos outros novos – e une os pontos entre a sua obra e a de Barrie. Ficamos a saber como Peter ganhou a habilidade permanente de voar, porque adoptou o nome Pan, porque é que o crocodilo faz tique-taque, porque é que Gancho tem uma obsessão por Peter, como surgiram os Meninos Perdidos, etc.. Mas, o mais importante, ficamos a conhecer o poder oculto da Ilha que faz a todos esquecerem-se das suas aventuras e das suas motivações, forçando-os a repetir os seus erros e as suas descobertas num ciclo infinito.

De forma inteligente, isto explica toda e qualquer repetição entre Loisel e Barrie, sublinhando também o quão horrendos são alguns acontecimentos que se passam na Ilha, apenas para logo serem esquecidos por todos. A Sininho pode tentar matar Wendy mais tarde (nesta nova cronologia de Peter Pan), mas agora vai muito mais além nos seus acessos assassinos. Peter também tem sangue nas mãos e a forma desprendida como os Meninos Perdidos sugerem matar o inconveniente é arrepiante.

A raiva de Peter para com as mulheres e a sua fixação na mãe ideal é um tema particularmente forte ao longo dos seis álbuns. Desde o seu nojo pelas prostitutas das ruas londrinas à sua rejeição das sereias escaldantes da Terra do Nunca, tudo mostra o seu desprezo por mulheres e o seu medo da sexualidade feminina, que acaba por se traduzir na empatia extremada da ciumenta Sininho. O que ameaça Peter, ela também sente como ameaça e toma medidas extremas para proteger a relação dos dois – sendo talvez a Sininho a única personagem feminina que consegue ganhar a confiança de Peter.

O mais vil dos assassinos

Mas esta história de origem traz-nos uma outra ameaça, a de Jack o Estripador. E se ao princípio ela nos pode parecer deslocada, numa segunda leitura a coerência psicológica é mais facilmente reconhecível. O fim traumático de um elemento do passado de Peter fica em suspenso de forma completamente ambígua, passando-se atrás de portas, longe dos olhares, enquanto Peter regressa ao mundo real para buscar uma mala de médico que pode salvar o seu melhor amigo da Terra do Nunca.

Ao mesmo tempo, um doutor chamado Jack abandona a cena de vários crimes. Batalhando para se lembrar das suas acções por altura dos assassinatos, Jack chega à conclusão de que deve estar louco. E na sua loucura, ele esquece tudo e os assassinatos param. Entretanto, Peter faz a sua última viagem a Londres, onde reage violentamente contra uma prostituta que o tenta aliciar. O nome dela é Mary Jane Kelly (e foi uma das vítimas de Jack o Estripador).

A ambiguidade é deliberada por parte de Loisel e subtilmente disfarçada. Mas à medida que a história se vai desenrolando, percebemos o quanto Peter está perturbado e o quanto é violento. O problema está em que o próprio Peter não consegue recordar-se dos seus actos ou sentimentos passados.

A Terra do Nunca de Loisel tem um centro sombrio, povoado pelas trevas, tanto no sentido literal como no figurado. Opikanoba fica no coração da Ilha e é um lugar assombrado pelos nossos maiores pavores e fobias. Se a Terra do Nunca é feita de sonhos, aqui quem reina é o pesadelo. E, no entanto, outros elementos da Ilha correspondem também aos medos de Peter – as sereias de peito desnudado, exibindo as suas formas generosas, chamando Peter para trocas de carinhos e para a brincadeira; o violento e obsessivo Capitão Gancho, que começa na história como herói para Peter; e muitas outras ameaças de pendor sexual ou romântico.

Na verdade, este é também o legado de Barrie, que silenciou todos os seus personagens femininos de qualquer desejo sexual ou perigo, a favor de deixar que os rapazes nunca crescessem. O facto várias vezes comentado de que na peça teatral e, subsequentemente, no filme da Disney, o mesmo actor desempenhava os papéis de Sr. Darling e de Capitão Gancho, faz-nos esquecer que Barrie foi sempre muito insistente para que a actriz que representasse a Sra. Darling assumisse também o papel de Gancho – ligando, mais uma vez, o elemento feminino e as suas maneiras adultas a uma ameaça perigosamente sedutora, enquanto os Meninos Perdidos e Peter se mantêm puros e inocentes. 

E tudo é esquecido de maneira miserável

Ciumenta, Sininho, essa peste charmosa, quando comete o crime máximo limita-se a desaparecer durante uns dias – o tempo suficiente para que todos esqueçam o seu crime horrendo. E os dias retomam o seu curso como se nada tivesse acontecido.

Quanto a Gancho, vemos através do seu retrato que ficou com o Sr. Kundal, que ele era um jovem sonhador que resolveu perseguir as suas quimeras. Como veio a tornar-se o capitão dos piratas, nunca o saberemos. Mas ao descobrir que Peter é o seu filho no final do quinto volume, não podemos deixar de nos perguntarmos qual seria a sua reacção. Provavelmente, seria o seu derradeiro contacto com a realidade, mesmo antes de se entregar em definitivo a uma vida de ódio e de expiação inconsciente.

Ligar estes dois personagens de maneira tão íntima (pai e filho) pode parecer um artifício narrativo fácil, apenas para assegurar a coerência do universo de Loisel com o universo de Barrie. Mas não é nada disso! Gancho abandonou a sua mulher, a mãe de Peter, e esqueceu-se da sua existência até ao momento em que tudo se lhe ressurge repentinamente. Mas porque veio ele para a Ilha? Para matar as suas recordações através de Peter, que lhe lembra constantemente a existência do seu passado. O seu ódio por Peter perde a sua razão de ser quando o estranho poder da Ilha o faz esquecer os laços que o unem ao rapazinho. E o seu ódio torna-se ridículo. Gancho é agora um malvado de opereta, adulto patético, constantemente humilhado por um rapaz que se recusa a crescer. Na verdade, nem um nem outro reconhecem os verdadeiros motivos que os fazem actuar. Mas Peter e Gancho são parecidos. Eles seguem a mesma quimera – uma forma de liberdade egoísta na qual as memórias só servem de estorvo. E ambos se tornam pequenos tiranos patéticos, opondo-se numa guerra sem objectivo. Tal pai, tal filho!

E se o acaso parece fazer com que Peter, nas suas idas a Londres, se cruze sistematicamente com um senhor bem vestido que, num estado alterado, mata prostitutas, também aqui não há nada de gratuito e de “facilitismo”. Loisel parece querer comparar dois monstros. Jack parece ser um pobre tresloucado que não guarda recordação dos seus crimes. Mas quando a memória lhe volta, ele perde definitivamente a razão perante a atrocidade dos seus actos. Peter, ao fugir do mundo dos adultos, ao recusar-se a crescer, ao esquecer tudo, torna-se um déspota iluminado por uma crueldade inocente.

Ao recuperar as suas memórias, Jack entrega-se a uma loucura carregada de pesados remorsos. Renunciando as suas memórias, Peter vira definitivamente as costas à realidade e entrega-se a uma pseudo-infância eterna que lhe dá a ilusão da felicidade, enquanto esta não lhe oferece mais do que um presente perpétuo, egoísta, sem restrições e sem moral.

De certo modo, Opikanoba preveniu-nos. A crueldade faz parte integrante do Homem, quer ele seja adulto ou criança. Por mais duro que seja o mundo dos adultos, ele não tem o monopólio da crueldade. E o lento esboroar das memórias de todos os habitantes da Ilha só aumenta a crueldade, de maneira igualmente forte como o fazem as brumas tóxicas e maléficas de Opikanoba.

Peter, a criança que não quer crescer, tornou-se num monstro, mesmo não tendo consciência disso. Ele é tão monstruoso quanto Jack o Estripador, entregue à loucura sempre que apanhado pelas suas memórias. Ele é tão monstruoso quanto o seu pai, o Capitão Gancho, que fez a mesma escolha que ele: esquecer. Mas ao contrário da imprudência e despreocupação que caracterizam Peter, a Gancho não lhe resta mais do que um ódio cego por Peter… o seu filho e derradeiro elo com a realidade.

Loisel cria um argumento em todos os aspectos brilhante à volta de Peter Pan, com inúmeras camadas e possíveis leituras. Personagens ricos, bem caracterizados, envolventes que conseguem espelhar, quanto a mim, uma das grandes pechas da sociedade em que vivemos. Em Peter Pan, a cultura do esquecimento leva à desresponsabilização. Nos tempos que correm, a cultura da desresponsabilização, do “coitadinho do menino”, leva a uma geração de novos tiranos, de divas tresloucadas, incapazes de lidar com a adversidade, com um “não”, com a consequência dos seus actos, até com a vida, refugiando-se numa mentalidade infantilóide de meninos incapazes de crescerem. É bom mantermos em nós um certo espírito de criança. É mau quando esse espírito governa toda a nossa vida.

Tal como acontece com os personagens do romance maior de Victor Hugo, são todos uns miseráveis, só aparentemente com destinos divertidos.

Pobre Jack!

Pobre Gancho!

Pobre Peter!

Pobres de todos nós!

Mas o que é preciso é manter o espírito…!

EXTRA:

Ainda acerca desta obra magnífica, palavras finais para o desenho de Loisel e para uma homenagem.

Loisl está habituado a desenhar nus femininos e em Peter Pan fá-lo com grande apuramento, produzindo corpos atractivos de todas as formas e tamanhos, página após página. O seu trabalho consegue estar quase na fronteira do grotesco e do feio, enquanto evita os rostos Disney e corpos adelgaçados em favor do expressivo e da caricatura.

O domínio do rosto e das formas humanas maravilha-nos ao longo da obra. E com a quantidade enorme de personagens, a tarefa não é propriamente fácil. Contudo, em nenhum momento se confundem os rostos entre um e outro personagem, mesmo naqueles que estão num terceiro plano ou meio escondidos.

E para os destacar ainda mais, Loisel utiliza a maravilhosa tradição de desenhar cenários magnificamente realistas e sumptuosos onde justapõe os personagens mais ao estilo de cartoon.

O gosto de Loisel pelas formas femininas é por demais óbvio ao longo de toda a obra. E entre o maravilhoso e o grotesco, a beleza brilha até na mais maléfica das mulheres. E a maioria destas, em Peter Pan, têm a voluptuosidade levada ao extremo sem, no entanto, terem aquela aparência irreal de ampulheta das heroínas dos comics americanos. Aqui, as mulheres têm barriguinhas deliciosas e coxas a condizer.

Talvez seja esta uma das explicações para o estatuto de culto, tanto entre homens como entre mulheres, ganho pela Sininho de Loisel – ancas generosas, seios fartos que mal cabem na indumentária e nádegas empinadas que nem tenta esconder, toda ela perfeita embora longe da perfeição.

E nem grandes nomes da 9.ª Arte ficaram indiferentes a este novo paradigma da Sininho que faz a imaginação queimar mais calorias do que a de Barrie ou a de Walt Disney.

Seguem-se as homenagens…

– Crisse
– Dany
– Emmanuel Lepage
– Enrico Marini
– Frank (Pé)
– Frédéric Campoy
– Jean-Baptiste Monge
– Jean-Pierre Gibrat
– Juanjo Guarnido
– Lidwine
– Nicolas Malfin
– Rébecca Dautremer
– René Hausman
– Vincent Mallié

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.