Apesar de Tudo – uma das análises possíveis.

O Doutor Zeno e a Sua Incrível Máquina do Tempo

Corto Maltese Décadas Depois

A Borboleta e o Biscoito

O Livreiro e a Presidente da Câmara

Uma História às arrecuas

Trinta e Sete Anos Sem Solidão

Estes, e tantos outros, poderiam ser o título deste artigo. E todos eles, de alguma forma, expressariam a essência desta obra magnífica de Jordi Lafebre, o desenhador natural de Barcelona que se arriscou pelo território altamente competitivo da Banda Desenhada franco-belga (e com sucesso).

Em Portugal, conhecemo-lo, sobretudo, através dos dois álbuns duplos de Verões Felizes – também publicados pela Arte de Autor –, dos quais é o desenhador e Zidrou o argumentista.

E tal como em Verões Felizes não se trata de uma(s) simples história(s) de férias de Verão, também em Apesar de Tudo (cf. apresentação e previews da edição nacional da Arte de Autor aqui) não se trata de uma simples história de amor ou sequer de uma história de amor. O amor é apenas o pretexto para percebermos que a vida é uma dádiva, de belos contornos se a soubermos apreciar nos seus mais ínfimos detalhes e que, como diz a música de Édith Piaf, mesmo no negrume, bem pode ser uma “vie em rose”.

Preparem-se então para partir numa apaixonante viagem no tempo com Ana e Zeno…

Vamos à história!

Sob uma chuva copiosa que insiste em cair, a felicidade do olhar dele é acompanhada pela que está expressa no seu sorriso. À sua frente, ela iguala-lhe a ternura com os seus olhos amendoados e os seus lábios finos e sinceros. Cada um, perto do crepúsculo da vida, debaixo do seu chapéu-de-chuva.

“— Estás encharcado! Lamento imenso. Estás há muito tempo à espera?” — pergunta Ana.

“— Há 37 anos…” — responde Zeno.

Alheios à aspereza dos elementos, passeiam-se pelas ruas da cidade da qual ela é presidente da câmara.

Falam disto e daquilo, do marido, da filha dela, dos biscoitos que ela lhe trouxe, do doutoramento dele, da promessa de um beijo, da ponte que ela mandou construir, da inevitabilidade das leis da Física, dos tempos longínquos da infância.

Procuram abrigo num banco debaixo das antigas arcadas que protegiam as bancas dos vendedores de outrora. Devoram com uma satisfação cúmplice os biscoitos dela, enquanto falam do futuro. Da livraria dele que agora está à venda, da reforma dela, do marido e da filha.

A chuva amaina e eles prosseguem o seu passeio. Visivelmente, eles não são um casal, nem sequer amantes, mas perante todas as evidências estão apaixonados. Ela beija-o, finalmente, ao fim de 37 anos.

O futuro estende-se à frente deles; nunca o conheceremos. Mas vamos conhecer o seu passado numa espécie de 19 saltos quânticos.

Ao contrário do que estamos habituados com o autor, Jordi Lafebre aparece-nos aqui ao leme do argumento e do desenho. E não pode deixar de espantar que alguém que dedica a vida ao desenho consiga, com tanta mestria e beleza, escrever um argumento tão encantadoramente detalhado, inteligente e pleno de sabedoria, longe das tristes pérolas que proliferam na cultura facebook dos dias que correm. Parece-me cada vez mais difícil encontrar frases ou pensamentos que não estejam estafadas de tanto uso e que sejam apresentadas como originais por utilizadores pouco preocupados em conhecer o passado, mesmo que este tenha apenas dois dias. Ora, Lafebre, na sua narrativa, consegue a proeza da originalidade. Consegue pôr-nos a pensar. Consegue que esbocemos um sorriso e digamos: Caramba! Por que é que nunca vi isto nesta perspectiva?!

A história é simples… como deveria ser a vida! A história é complexa… como é a vida!

Perto do ocaso, mas ainda lúcidos e jeitosos, Ana e Zeno têm o seu último encontro. E é o último porque, pura e simplesmente, não sabemos o que se seguirá. É que Lafebre conta a história pelo fim, começando no capítulo 20 e prosseguindo às arrecuas até ao capítulo 1, o momento crucial em que Ana e Zeno se cruzam pela primeira vez.

É então ao longo de vinte capítulos que entramos numa narrativa de tempo inverso que nos permite, lendo o capítulo seguinte (que é sempre o do passado), perceber melhor o capítulo que já lemos (e que é sempre do futuro). De capítulo em capítulo até chegarmos ao último que é, afinal, o primeiro. E se assim dito, a leitura pode parecer difícil, na verdade é um verdadeiro deleite e um grande momento na publicação de Banda Desenhada em Portugal.

Em cada etapa da vida de Ana e Zeno, aqui e ali, ao correr das vinhetas, vão sendo deixadas pequenas coisas, minúsculos nadas, que nos mostram a cada nova (mas mais antiga) etapa que o argumento não deve nada ao acaso e forma um todo coerente, muito ao contrário do princípio da entropia, tão caro ao Doutor Zeno.

É assim que o vemos a libertar centenas de borboletas que estavam presas numa campânula e não sabemos porquê. Mas a razão do acto poético é-nos revelada no capítulo seguinte, no momento em que ele defende a sua tese de doutoramento, na qual explica como o tempo pode voltar para trás, numa espécie de organização momentânea da entropia. E, para isso, utiliza as borboletas.

É sempre assim ao longo do romance. A narrativa não deixa nada por explicar, ainda que por vezes se passe muitos anos entre um capítulo e outro. O leitor não deve hesitar; só tem de continuar a ler e ir lançando mentalmente uma série de “Ah… então é por isso!” Ou seja, quanto mais vamos recuando no tempo, mais percebemos o futuro.

E se rapidamente na leitura descobrimos que os destinos de Ana e Zeno estão ligados há muito, é só com a leitura continuada que conseguimos recuar no tempo e, através de breves momentos da sua vida, perceber que na maior parte de todos aqueles anos eles mal se viram.

As poucas vezes que se encontram, não passam de momentos fugazes. A ligação entre eles é mantida por telefonemas ou por cartas e, mesmo estas, percebemos mais para o fim, tantas vezes não chegaram ao respectivo destinatário… Ou porque ele as colocava em garrafas e as lançava ao mar, na vã esperança que chegassem às mãos dela… Ou porque ela as colocava debaixo da porta da livraria do pai dele, na espectativa do seu regresso da vida de marinheiro com reminiscências de Corto Maltese.

Mas muitas das cartas sobreviveram, sem menção de remetente, agora guardadas numa gaveta, contando uma história que só nós, os leitores, e Ana e Zeno conseguimos perceber. Cada carta fechada em envelope lacrado, tal como aquele em que a editora portuguesa guardou o ex-libris com que brinda pouco mais de uma centena de leitores – um verdadeiro mimo e uma piscadela de olho ao livro.

É tantas vezes através destas cartas e de outros tantos telefonemas que Jordi Lafebre nos vai contando esta história de amor em nada tradicional, na qual os dois apaixonados se procuram toda uma vida. Os momentos de revelação são criteriosamente escolhidos. E embora possam parecer banais, nunca deixam de ser essenciais e inspiradores.

A história em si é extraordinária, mas com a narração suportada por pequenos momentos triviais que constituem, no fim, a grande parte das nossas vidas. Compete a cada um de nós, compete a Ana e Zeno, resgatar esses momentos do peso da banalidade e transformá-los em algo de especial.

Num telefonema há muito esperado, a conversa pode ser acerca de trivialidades, mas a essência pode ser a da partilha, da cumplicidade, da ternura, do objectivo final com o qual se abre este livro. E se de cada lado da linha, um gira-discos toca as mesmas suites de Bach e os apaixonados fingem dançar um com o outro, tanto melhor!

Se ele está numa qualquer ilha da qual desconhece o nome e se ela está no sofá que vai habitar o seu escritório de presidente da câmara ao longo de vários mandatos, não é isso que os impedirá de estarem lado a lado… Na mesma praia, no mesmo sofá.

É nestes momentos e noutros (como o de um certo pinguim) que Lafebre recorre a um leve surrealismo sem, no entanto, nos baralhar ou alhear da história.

Ainda sobre a narração, a história está pejada de momentos de pura epifania para o leitor, quase sempre proporcionada por personagens secundárias, episódicas, que parecem adivinhar fazerem parte de um romance e ser este o momento em que têm de mostrar o que valem por si próprias e o que valem para a história de Ana e Zeno.

A título de exemplo, é o caso de Dona Margarita, a velhinha teimosa e simpática que se recusa a abandonar a casa onde vive há cinquenta anos, agora prestes a ser demolida. Dona Margarita pergunta a Ana (no seu papel de presidente da câmara) se acredita no amor à primeira vista. Mais adiante, fala-lhe de um exame que fez ao coração e que o seu médico lhe explicou que o coração se divide em quatro partes. Prossegue:

“É estranho… Sempre achei que o coração era uma pequena caixa onde metíamos tudo o que amávamos… E, na verdade, tem quatro gavetas bem distintas.”

Isto serve para Zeno, serve para a Ana, serve para todos. As aurículas e ventrículos parecem ter uma capacidade ilimitada para quem gosta de amar a vida. Os muitos amores de que nos fala Lafebre acompanham a nossa vida sem necessariamente se excluírem uns aos outros.

A narrativa de Lafebre consegue surpreender mesmo até à última vinheta. Já habituados com a narração às arrecuas, chegados ao derradeiro capítulo final, que é afinal o capítulo 1, temos nova surpresa: a leitura tanto pode ser feita de modo tradicional, da página 144 à 150, como à japonesa em modo manga, da 150 para a 144, começando sempre do canto inferior direito para o canto superior esquerdo. De maneira brilhante, Lafebre mistura o princípio da entropia com a tal teoria temporal do Doutor Zeno.

Quanto ao desenho, o traço de Lafebre é elegante, as ilustrações são plenas de luminosidade e de vida. Os rostos dos personagens, principais e secundários, são extremamente expressivos e vibrantes, tal como os seus movimentos, e parecem saltar das páginas para as nossas vidas – pois é fácil identificarmo-nos com este ou aquele personagem, com este ou aquele momento.

Muito bem conseguido é o envelhecimento de Ana e Zeno, através de rostos credíveis nos quais, sempre, se mantém a jovialidade do olhar.

As vinhetas são compostas com um apurado sentido estético que resulta em pranchas, invariavelmente, de grande beleza, ajudadas pela paleta de cores de Clémence Sapin.

E a elegância do traço de Lafebre e o bom gosto na composição das vinhetas, leva a uma espécie de estilo Audrey Hepburn no filme Boneca de Luxo, sem dúvida digno de figurar na capa da Vogue.

É fácil sucumbir aos milhentos encantos desta obra. Sendo a alegria de viver o seu emblema máximo, a ternura, a ingenuidade, a inocência (mesmo quando Ana, nua, tira uma selfie), a perspicácia, a inteligência, o humor, a poesia e o humanismo caracterizam-na com igual força.

É impossível terminar a leitura deste álbum sem termos um sorriso nos lábios, sem olharmos pela janela e gostarmos tanto do céu azul como do cinzento. Sem pensarmos que baixar os braços é a pior atitude que um ser humano pode ter perante a vida, por muita ou pouca que ainda tem pela frente.

Lado a lado, sentados num banco ao abrigo da chuva, os dois eternos apaixonados, de olhar ternurento, querem acreditar que a vida ainda lhes reserva uma quantas boas surpresas. E não é o que queremos todos?

Da singularidade de uma noite, do fim para o princípio ou do princípio para o fim, podemos alcançar tudo o que é belo… Apesar de tudo!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.