Análise de Mattéo, vol. 4: Quarta Época (Agosto-Setembro de 1936).

Seja de que lado nos posicionarmos, todos os séculos têm momentos que nos conseguem arrebatar apaixonadamente, mesmo quando essa paixão é fruto de mal-entendidos, de desinformação ou, simplesmente, de ideias feitas.

Todos gostamos de pensar numa Idade Média pautada pelos ideais de cavalaria e povoada com cavaleiros paladinos vergando armaduras cintilantes, sempre partindo em demandas divinas.

Todos gostamos de pensar numa Revolução Francesa na qual o tão propagandeado slogan da Liberdade, Igualdade e Fraternidade se estende a todos.

Todos gostamos de pensar na primeira metade do século XX como o momento da História onde os grandes ideais humanitários batalharam contra as “forças do mal”.

Pois é! Cada vez mais, todos gostamos que a História seja conveniente e, quando não é, o Papa tem de pedir desculpas pelo que os Papas de há 500 anos fizeram. Nações têm de pedir desculpas pelo que essas nações fizeram há 1000 anos. Repúblicas têm de pedir desculpas pelos reinos que as antecederam; reinos pelos impérios… Enfim, uma miríade de desculpabilizações bonitas, sem qualquer sentido histórico, na tentativa de limpar a História. Caramba! Já nem o Tintin pode ir em paz ao Congo (numa aventura de 1930)!

Mattéo é uma série franco-belga criada, escrita e desenhada pelo talento de Jean-Pierre Gibrat e da qual acaba de ser publicado em Portugal o quarto volume pela Ala dos Livros (cf. apresentação e imagens da edição nacional aqui).

De forma romanesca, conta-nos a história envolvente de um homem que vive os grandes conflitos e revoluções da primeira metade do século XX, percorrendo momentos tumultuosos e paixões levadas ao limite, desde a I Guerra Mundial à II, desde a Revolução Russa e a Frente Popular francesa à Guerra Civil de Espanha.

Mattéo é um homem enamorado, um idealista, um revolucionário apaixonado, um pacifista convicto que, no fundo, acaba por abraçar todas as guerras. E estas têm sempre dois lados, têm sempre duas verdades e só quando conseguimos fazer a síntese das duas conseguimos aproximarmo-nos da verdade da História.

Será que Gibrat conseguiu esse feito?

Vamos à história!

Depois dos acontecimentos da aventura anterior, Mattéo não tem outra hipótese a não ser fugir de França. E já que o tem de fazer, ao menos que seja por uma boa causa. Acompanhado por Robert e Amélie, parte para Espanha onde conta juntar-se àqueles que lutam contra o fascismo e contra os Nacionalistas de Franco.

Mas o “salto” para o país que vive uma guerra fratricida e sanguinária não corre da melhor maneira. Em Barcelona, apanhados pelos Republicanos com um carregamento de armas de fogo italianas, os três amigos são alvo da desconfiança das forças espanholas que querem integrar. E correm risco de vida.

Vale-lhes o facto de Mattéo ser procurado em França e arriscar-se a vinte anos de prisão. Isso, por si só, é um atestado de credibilidade para os Republicanos, o que permite a Mattéo & Cia. juntarem-se à luta contra os franquistas.

O objectivo agora é deixarem para trás as agradáveis esplanadas de Barcelona e mergulharem na acção, tentando reconquistar Alcetria, uma pequena vila tomada pelo inimigo. Reconquistá-la e mantê-la.

Mas a ideia que parecia fácil de concretizar vai revelar-se um pesadelo.

Desde logo, Mattéo e Robert não conseguem entender-se em relação à facção republicana a que devem aderir – socialista, comunista ou anarquista. E, por isso, a sua amizade parece começar a deteriorar-se.

E as dificuldades aumentam quando Mattéo se apercebe que as tropas a que se junta resumem-se a um punhado de anarquistas pouco inclinados a acatar ordens. Ainda para mais, as armas escasseiam, muitas são defeituosas e as munições não são as adequadas.

Mas ordens são ordens e a guerra não espera por ninguém!

Ajudado por uma jovem mulher muito motivada, Mattéo vai tentar conquistar a vila numa batalha final e decisiva. Mas se o conseguir fazer, como vai ele mantê-la longe dos igualmente motivados Nacionalistas de Franco?

Depois de participar na “guerra para acabar com todas as guerras”, na Revolução Russa e na Frente Popular francesa (onde combate pelo direito a 15 dias de férias pagas), o ironicamente pacifista Mattéo continua a sua vida mirabolante agora em plena Guerra Civil Espanhola ao lado dos Republicanos (como não poderia deixar de ser).

Cuidadosamente moldado à volta de variadas elipses narrativas corajosas, o argumento de Jean-Pierre Gibrat envolve-nos a fundo com a aura romântica do conflito espanhol: as brigadas internacionais, as unidades constituídas de qualquer maneira, a luta pela liberdade, as mulheres combatentes, as discórdias entre as facções socialistas, comunistas e anarquistas, a camaradagem quase como exclusivo dos Republicanos, etc.

Para quem acompanha a série com atenção, é fácil de ver o aturado trabalho de Gibrat em relação ao desenvolvimento e evolução psicológica do seu Mattéo, nomeadamente no momento em que este se vê obrigado a comandar o assalto à vila de Alcetria.

De igual modo, o planeamento inteligente das pranchas “aguenta” bem numerosos recitativos que facilmente desaparecem para darem lugar à acção ou a gags.

O delicado trabalho narrativo resulta assim numa leitura fluída e fácil que, ao invés de maçar o leitor, cativa-o. E a gestão do tempo é igualmente fluída, sucedendo-se minutos, horas e dias num encadeamento quase imperceptível e natural. A longa espera até à batalha, os breves e raros momentos de intimidade ou as auto-reflexões são disso bons exemplos.

Longe dos heroísmos e ideais políticos, são as dúvidas, as convicções pessoais, as ilusões perdidas, as amizades e as traições que vão direcionando a narrativa.

Curiosamente, são também estas que acabam por trair a mesma narrativa, deixando o leitor perceber em demasia as próprias convicções do autor.

Na sua obra de 1940, Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway romanceou esta mesma Guerra Civil Espanhola. E se é justo dizer que se trata de uma versão, de algum modo, romântica deste conflito, o mesmo não se pode dizer da sua crueza. É que Hemingway, embora tenha combatido do lado dos Republicanos, foi isento no momento de narrar as atrocidades cometidas de ambos os lados.

Por seu lado, se Gibrat consegue transmitir bem o entusiasmo, a desordem e as tensões entre os que estão do mesmo lado (nomeadamente, anarquistas e comunistas), fá-lo quase sempre através de interesses pessoais dos personagens. Ora, falando apenas dos que enchiam as fileiras republicanas e as famosas Brigadas Vermelhas, estes combatiam verdadeiramente por ideais e acreditavam estar a escrever uma nova página da História mundial.

Pouco credível é também o debate à volta do “padre sniper” e da sua possível execução. Anarquistas com dúvidas existenciais? Historicamente está bem documentado este final de 1936 na Catalunha. Sem apelo nem agravo, os anarquistas massacraram padres, freiras e católicos apenas porque o eram. De tal modo foi que há várias referências a este “Terror Vermelho”. Enfim, como em todas as guerras, as atrocidades são sempre cometidas por ambos os lados. Por vezes, é apenas na quantidade que diferem (aconselho, para uma visão mais conforme à realidade histórica da Guerra Civil Espanhola, a leitura de Double 7, o magnífico álbum de Yann e de André Juillard).

Mas o que se acaba de dizer não inibe de modo algum a leitura gratificante deste álbum. Na verdade, Gibrat – como talentoso autor completo que é – tem aqui uma obra muito equilibrada, com diálogos inteligentes, uma acção que progride com coerência e uma capacidade sublime de criar ambiências, seja pela palavra seja pelo desenho.

Precisamente, quanto ao desenho, se pegarmos no primeiro álbum da série e o compararmos com este quarto, é bem visível a evolução da arte de Gibrat, com um traço mais preciso e uma paleta de cores mais densa.

A narrativa está afastada 22 anos do seu início (1914-1936) e isso reflecte-se num bem conseguido envelhecimento de Mattéo. Já Amélie continua bela e jovial, emprestando o arquétipo de rosto a quase todos os personagens femininos de Gibrat. E nem por isso deixa de ser menos sublime e valorizada.

Uma última palavra para as cores das paisagens catalãs, belas e marcantes, e tão bem aplicadas por Gibrat.

O álbum termina com um cliffhanger, um “à beira do precipício” que clama pela rápida publicação em Portugal da Quinta Época.

Agora que Mattéo começa a ter responsabilidades, aonde o levarão o amor, a amizade e o combate por ideais?

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.