Análise de Alix Senator vol. 2: O Último Faraó.

Há mais de 70 anos que várias gerações de portugueses acompanham as aventuras de Alix, o jovem gaulês romanizado, próximo de Júlio César e que para ele desempenha várias missões. Foi em 1948 que foi criado pelo génio de Jacques Martin.

Em 2012, a editora belga Casterman, mantendo a publicação de novos álbuns na série clássica, inicia uma nova série de Alix: Alix Senator. Nela, o herói envelheceu cerca de 30 anos, é membro do Senado e vive as novas aventuras não mais na república romana, mas no Império, ao lado do seu representante máximo, César Augusto.

A dupla que tem a cargo a série não podia ser mais apropriada. Valérie Mangin, a responsável pelos argumentos, é latinista e historiadora. Thierry Démarez, encarregue do desenho, foi cenógrafo da Comédie Française e tem no palmarés vários álbuns de BD. Juntos criaram até à data 11 álbuns.

Em Portugal, a Gradiva publica agora o segundo volume da série, apenas um mês após o lançamento do primeiro, fazendo ambos parte de uma primeira trilogia iniciada com As Águias de Sangue. A apresentação do volume e imagens de 14 páginas da edição nacional de O Último Faraó podem ser apreciadas aqui.

No ano em que se celebra o 100.º aniversário do nascimento de Jacques Martin, a notícia não podia ser melhor.

Vamos à história!

Roma, ano 12 a. C..

No Senado os ânimos exaltam-se. Um senador acusa César Augusto de proibir os membros do Senado de se deslocarem à província do Egipto, enquanto permitiu a Alix Graco de fazer precisamente o contrário — logo este, um romano novo, um gaulês romanizado!

Mas o que eles não sabem é que Alix vai numa missão muito sensível, prosseguindo a investigação começada após as mortes do general Agripa e do triúnviro Lépido (ver artigo Veni vidi vici). Na verdade, correm rumores que, de algum modo, Júlio César sobreviveu à tentativa de o matarem e que prepara agora o seu regresso na forma de uma terrível vingança.

Juntamente com Tito, seu filho, e Khephren, seu filho adoptivo, Alix parte para Alexandria no encalço do general Quinto Rufo, o principal suspeito das mortes cometidas em Roma.

Este regresso ao Egipto é a ocasião mais propícia para Alix tentar saber mais acerca das circunstâncias exactas que levaram à morte de Enak, o seu amigo de sempre e pai biológico de Khephren. E é também a oportunidade para vingar a sua morte.

Os três são recebidos por um velho conhecido de Alix, o prefeito Barbarus, sempre acompanhado pelo seu fiel e enigmático escravo Heb e por Ptathmose, o responsável pela enorme e famosa biblioteca de Alexandria.

Noutros tempos, Barbarus combateu com bravura ao lado de Alix na batalha naval de Áccio. Mas agora, como prefeito do Egipto, os seus poderes são quase os de um rei e ele parece mais preocupado com as suas festas onde o vinho corre fácil do que em ajudar Alix na sua missão.

Na verdade, Barbarus está até empenhado em dificultar a vida de Alix e, após este ser atacado por um bando de falcões, o prefeito proíbe-o não só de ir atrás de Rufo como de voltar a Roma, dando a desculpa que não pode garantir a sua segurança.

Estranhas forças manobram nas sombras, mas nada conseguirá impedir Alix de prosseguir a sua missão, embrenhando-se cada vez mais nas areias escaldantes do deserto, em busca de Rufo, de Júlio César e da Mãe das Pirâmides.

Prefiro dizê-lo já à cabeça! Se o trabalho de Valérie Mangin e de Thierry Démarez conseguiu surpreender-me no primeiro álbum, agora consegue alcançar a excelência.

Uma excelência a nível de argumento e da própria narrativa. Passada no Egipto pós-faraónico, a história está repleta de factos reais onde a narrativa ficcional se enquadra na perfeição.

Não há lugar ao tédio, com enormes recitativos. Não há caixas ou balões a transbordarem de texto. A narrativa e os diálogos são muito dinâmicos, mas nem por isso deixa de haver informação factual, que serve para contextualizar os nossos heróis e misturá-los, de forma inteligente, com o correr da História. Um dos muitos exemplos é o momento em que ficamos a saber do papel desempenhado por Alix, dezoito anos antes, na adopção de Khephren (ficção) e de como tudo está ligado ao suicídio de Cleópatra (realidade).

Se a narração é mais simples na forma do que na série clássica de Alix, nem por isso deixa de estar carregada de referências históricas que enriquecem o conjunto e o tornam pedagógico sem, no entanto, ganhar com isso um tom professoral.

Para além disso, há também uma excelência a nível gráfico que parece ainda mais inacreditável se pensarmos que entre o primeiro e o segundo álbum passou apenas um ano… Um ano no qual Démarez não deve ter abandonado o estirador.

Como já se disse em Veni vidi vici, Mangin e Démarez não copiam o mestre Jacques Martin. Afastando-se do estilo de narrativa e do estilo “linha clara” e fazendo evoluir o personagem, eles conseguem reinventar o mito, acrescentando uma pedra ao edifício ao invés de o destruírem.

Mais uma vez, o argumento de Valérie Mangin é particularmente interessante pois não só é original como respeita a continuidade das aventuras de Alix, criando quase um universo novo para um Alix Senator.

Para além do contexto histórico fidedigno e da originalidade da ficção histórica, Mangin cria uma notável galeria de personagens decadentes, paranoicas, megalómanas e manipuladoras, de que são bons exemplos Barbarus, o governador do Egipto, Ptathmose, o bibliotecário, Heb, o escravo misterioso, o General Rufo e o Falcoeiro.

As traições vão-se sucedendo de tal modo que Alix já não sabe em quem confiar, criando-se assim um clima de grande tensão psicológica. Este clima aumenta à medida que nos vai sendo revelado o envolvimento de muitos dos personagens no destino fatídico de Marco António, de Cleópatra e, sobretudo, do filho desta com Júlio César. E o clímax inesperado é atingido quando o destino trágico de Enak é revelado e a mãe das pirâmides é descoberta.

É curioso como Mangin, sem o explicar directamente, apresenta essa construção mítica não com a forma que conhecemos mais comummente hoje em dia, mas como uma grande pirâmide em degraus mais ao estilo das civilizações aztecas e incas. Na verdade, as primeiras pirâmides surgiram no designado Império Antigo, durante a Terceira Dinastia (2780-2180 a.C.), sendo que a mais antiga é a do complexo funerário de Saqqarah, construída pelo vizir Imhotep para o faraó Djoser (c. 2630-2611 a.C.) com a estrutura em degraus.

Tal como já tinha acontecido com o primeiro álbum da série, em O Último Faraó a reconstituição histórica é também meticulosa e muito interessante. E tão válida para o leitor comum como para o apaixonado pela História Pré-Clássica e pela História Clássica.

E isto verifica-se tanto ao nível do argumento como do desenho.

De facto, Thierry Démarez desempenhou uma tarefa hercúlea ao desenhar este álbum (e todos os outros).

Desde o cuidado com a reconstituição de monumentos bem conhecidos, mas já completamente desaparecidos, como é o caso do famoso Farol de Alexandria…

… ou a igualmente célebre Biblioteca de Alexandria, a maior da Antiguidade…

… passando pela cuidadosa composição de cenas em que a arquitectura e a própria cidade de Alexandria são elementos centrais…

… até às variadas encenações que podem passar por um mero compasso de espera antes de Alix partir para o deserto, os rituais fúnebres do faraó nos quais nem as carpideiras a abrirem o cortejo estão em falta, ou o banquete oferecido pelo prefeito Barbarus a Alix onde cada personagem parece desempenhar o único papel possível.

Neste segundo álbum, o desenho de Démarez ganha em expressividade e o seu hiper-realismo aproxima-se cada vez mais da escola de Philippe Delaby e da sua série Murena.

A esta expressividade há que juntar os seus cenários cuidadosamente cinzelados e um sentido apurado de mise-en-scène que criam vinhetas muito belas. Dois exemplos, entre muitos, são o porto de Alexandria e um mero passeio à beira de um riacho.

Em toda a obra, as cores são deslumbrantes, oscilando entre os amarelos, os encarnados e o ocre que, mesmo com os azuis e negros frios da noite, conseguem transportar-nos para o calor do Egipto.

Uma palavra final para a perda de inocência na série Alix Senator. Se na série clássica, Jacques Martin e os seus sucessores rarissimamente abordaram questões sexuais à volta dos protagonistas, e Alix, apesar de ter um filho, contínua a parecer afastado das tentações carnais, já o mesmo não se pode dizer de Tito e de Khephren que têm o comportamento actualizado em função de leitores mais modernos e menos púdicos. A título exemplificativo, vejam como Khephren se distrai da conversa com os seios da escrava que o serve.

Entre a História e a ficção, Alix Senator é uma excelente série fadada a agradar aos mais velhos apreciadores de Alix e às novas gerações, ávidas por mais dinamismo, mas nem por isso menos exigentes.

Por Júpiter! Que a Gradiva publique rapidamente o terceiro volume…!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.