Análise de Armazém Central vol. 2/3: Serge | Os Homens.

Marie… Marie é um nome simples!

Marie é um nome que casa bem com outros nomes! Marie é sinónimo de amor, paixão e dor! Marie é incerteza, solidão, abnegação. Marie é nome de quem acredita em algo superior a si!

Marie… Marie não é um nome simples!

Marie é a simplicidade da complexidade.

Esta Marie é uma jovem viúva que herda do marido a coisa mais importante do mundo, o centro da vida da pequena paróquia de Notre-Dame-des-Lacs — o Armazém Central.

Por entre produtos de mercearia, de drogaria e quinquilharia vária, nele se cruzam quotidianamente os membros desta pequena comunidade rural perdida na província do Quebeque (ver artigo Quando o centro do mundo é uma loja de aldeia).

Com mais ou menos dúvidas existenciais, a vida corre simples para Marie. Até que, numa noite gélida, numa estrada no meio do nada, ela cruza-se com um homem envolto por um manto branco; é Serge e a sua moto está empanada. Marie ainda não sabe, mas, com os primeiros flocos de neve, começam a soprar ventos de mudança.

A Arte de Autor continua a publicação da obra-prima de Régis Loisel e Jean-Louis Tripp, agora num álbum duplo onde podemos encontrar o segundo e terceiro volumes de Armazém Central: Serge e Os Homens.

Vamos à história!

Serge

Lá fora, o manto de neve mantém-se imaculado. Notre-Dame-des-Lacs começa agora a despertar. O cheiro de café acabado de fazer perfuma o interior do Armazém Central. Marie prepara o pequeno-almoço para ela e para Serge Brouillet, a quem deu guarida na noite anterior. O tratamento entre eles é amistoso, mas cerimonioso. Afinal, não passam de desconhecidos.

A pernoita de Serge na casa de Marie não passa despercebida às três beatas locais que se apressam, escandalizadas, a interpelar o Padre à porta da igreja. Afinal, como pode um homem passar a noite sob o tecto de uma jovem viúva? Com a infinita paciência que Deus lhe deu, ele apazigua-as e promete-lhes ir esclarecer o assunto.

Pouco depois, o padre desempoeirado, engenheiro náutico amador, vai ao encontro de Serge que anda à volta da sua moto. Com um “saber fazer” inspirado, o Cura começa logo ali uma nova amizade com o homem cortês, distinto e culto, e fica a saber do azar nocturno do motociclista, mas também de como este passou quatro anos de inferno nas trincheiras da Guerra de 14-18.

Marie convida-os a fugirem do frio e a entrarem para tomar um café quente. O padre, com muita diplomacia, aborda o assunto da estadia de Serge na casa de Marie; uma inconveniência que ele percebe melhor do que algumas das suas paroquianas. Há que arranjar uma solução enquanto a moto não estiver arranjada. E para quem viveu tantos anos nas trincheiras constantemente sujeitas a barragens de fogo de artilharia, o conforto espartano do barracão das traseiras pode ser o paraíso.

E se a primeira reacção que Serge suscita nos habitantes de Notre-Dame-des-Lacs é de desconfiança, nos dias que se seguem tudo vai mudar. O quotidiano dos aldeões, que parecem viver em isolamento há decénios, vai ser abanado com a sua vinda.

A maior parte dos homens válidos está ausente, pois partiram para a campanha da madeira para o Inverno. Serge, com os seus conhecimentos e pleno de recursos, intervém graciosamente no correr da vida local. A sua capacidade de adaptação acaba por facilitar a sua integração na comunidade e todos (ou quase) acabam por apreciar a sua boa natureza e gentileza extraordinária. Uma matança do porco? Serge chega-se à frente! Uma jantarada a preparar? Serge revela-se um verdadeiro chef!

Ao mesmo tempo, a sua delicadeza e dedicação contidas parecem encantar Marie. A avaria mecânica que mantém Serge retido na aldeia passa a ser motivo para ele dar um segundo fôlego ao Armazém Central e, por osmose, à sua proprietária. Marie digladia-se com sentimentos que lhe parecem inconvenientes e que lhe parecem (talvez) recíprocos…

Mais uma vez, Loisel e Tripp encantam com as suas histórias do Armazém Central. E, no entanto, não se passa grande coisa em Notre-Dame-des-Lacs. Pelo menos, aparentemente.

Tendo como trama de fundo um romance habilmente urdido, o leitor passeia-se despreocupado pelo quotidiano rural desta terra perdida em meados dos anos 20 do século passado.

Neste quadro de simplicidade bucólica, os personagens são de uma enorme intensidade de sentimentos e, no entanto, tantas vezes contidos. E de uma humanidade exacerbada, mas cheia de ternura. A filantropia de Armazém Central contrasta violentamente com a misantropia do Peter Pan de Loisel (ver Peter Pan: o Trágico e Brutal Fim do Princípio).

Pelas pequenas alegrias e tristezas da vida de todos os dias, reencontramos a galeria de personagens pitorescos desta magnífica série que orbita à volta da simplicidade. São eles e a sua densidade psicológica que são o garante da mestria da obra.

O Padre Beauregard, que faz uma leitura muito livre dos Textos Sagrados; Noel Poulain, que se faz mais velho rezingão do que é na realidade, e que continua totalmente absorvido pela construção do seu batelão; Gaetan, o “tontinho” da aldeia que quer ser chef; as doces Louise e Jacinthe; as cunhadas Gladu, sempre prontas para a maledicência; e tantos outros. Mas à cabeça da trama temos Marie e, agora, também Serge. Marie, que é uma alma terna e delicada e que nos faz desejar a sua felicidade. Serge, excelente cozinheiro (aprendeu com o seu amigo no parisiense Maxim’s), culto, bem-apessoado, é um homem de uma enorme generosidade.

Meus caros, que alegria e que prazer poder reencontrar estes personagens e prosseguir no encalço dos seus destinos, sobretudo agora que Serge chegou à aldeia e com ele trouxe a mudança. Mudança que é suave para nós, leitores, mas drástica para todos os habitantes de Notre-Dame-des-Lacs. E com esta mudança vemos também o evoluir das suas personalidades, que se vão afirmando pouco a pouco nas nossas mentes.

E mesmo o defunto Félix vai dando, aqui e ali, o ar da sua graça. Ou melhor, do seu descontentamento pelo comportamento da sua viúva, a nossa Marie. Em voz-off, parece chamar-nos para o seu lado, sendo que na realidade me surge mais como a consciência de Marie, uma espécie de “Grilo Falante” da nossa protagonista.

E como se o facto de não se passar nada já não fosse muito, Loisel e Tripp mergulham-nos no ambiente das festividades natalícias, com os seus cheiros e cores características que, inevitavelmente, nos vestem o manto da nostalgia. Nostalgia que, tão bem, caracteriza todos os volumes de Armazém Central.

A neve que cobre a paisagem de Notre-Dame-des-Lacs com o seu manto branco convida à brincadeira.

A ceia de Natal encanta-nos a mente e põe-nos as papilas aos saltos.

A transformação do Armazém Central em algo mais faz-nos desejar ter o nosso nome na lista de convidados.

E a aproximação de Marie a Serge coloca-nos nos lábios um sorriso inocente e parvo, como se da felicidade deles dependesse a nossa.

É difícil encontrar uma obra de banda desenhada na qual a narrativa e o desenho casem de maneira tão perfeita que cada palavra consegue acompanhar cada traço numa atmosfera de feliz melancolia, a mesma que assombra uma Marie hesitante e apoquentada pelos sentimentos que a vão invadindo.

A composição e o traço de Loisel são completados com mestria pelos pincéis e pelo sentido de iluminação de Tripp. E todo o conjunto é transformado em pura magia com uma magnífica paleta de cores de François Lapierre.

Em particular, as cenas que se desenrolam à luz das velas ou de uma lareira ou ainda alumiadas por um candeeiro a petróleo são excelentes exemplos da mestria do trio Loisel-Tripp-Lapierre.

Uma leitura tão doce quanto divertida é esta que nos é oferecida por Loisel e Tripp. Sentimo-nos apaziguados pelas suas palavras e pelos seus desenhos; invadidos por uma quase inexplicável felicidade. E isto tudo numa história onde, aparentemente, não se passa nada. Pensem no filme O Fabuloso Destino de Amélie, retenham a ideia e conservem-na até ao final deste artigo, pois vai-se voltar a ela.

Entretanto, é tempo de irmos para a segunda parte deste álbum duplo.

Vamos à história!

Os Homens

Em Notre-Dame-des-Lacs, a vida corre suave ao longo do duro Inverno. Pela calada, alguns dos seus habitantes prepararam uma festa surpresa de aniversário para Gaetan, o “tontinho” da aldeia. A festa improvisada tem lugar no Armazém Central, o estabelecimento de Marie, onde trabalha Gaetan. Para além da amizade de todos, como prendas o rapaz recebe uns sapatos de senhora feitos pelo senhor Alcide e que se apressa a calçar, o chapéu de chef pertencente a Serge, ostentando-o com orgulho, e dois bolos de aniversário.

Há meses que os homens, lenhadores, partiram para a campanha de Inverno. Na aldeia, todos se renderam aos encantos de Serge, a viver no barracão nas traseiras do Armazém Central. As comadres Gladu coscuvilham sobre o assunto e o padre Beauregard mantém-se como garante dos bons costumes.

Serge é caridoso, educado, atencioso e, sobretudo, cozinha divinamente. Em pouco tempo, torna-se um elemento essencial daquela comunidade tão isolada e oferece-lhes aquilo com que nunca sonharam. Ao final do dia, o Armazém Central transforma-se num restaurante, La Raviole, no qual ele oferece jantares aos seus convivas escolhidos por sorteio.

Marie, transida de belos sentimentos, parece ter reencontrado a alegria de viver. Todos estão felizes e a harmonia enche-lhes as almas. Pelo menos, até ao dia em que os homens regressam dos bosques longínquos.

Incrédulos, os rudes lenhadores mal podem acreditar que a aldeia tem agora um restaurante, um luxo a que não se podem dar. E ainda para mais, a ideia veio de Serge, um estranho, desconhecido dos homens até àquele momento. Olham-no com desconfiança e não apreciam o facto de as suas mulheres se mostrarem tão sensíveis às atenções dele e ao seu modo de levar a vida.

O caos está instalado em Notre-Dame-des-Lacs. O ciúme apodera-se dos homens e estala na aldeia uma espécie de guerra fria dos sexos. As mulheres apoiam Serge, os homens amuam e acabam por deixar que a cólera tome conta deles, e as famílias resolvem boicotar o Armazém Central. Marie, desalentada, decide fechar a loja “até nova ordem”. A loja que garante a subsistência diária da aldeia!

Serge, depois de agredido e de ver o barracão onde habita destruído pela fúria dos homens, sente-se o culpado de todos os males e, para grande angústia de Marie, decide abandonar a comunidade à qual tanto deu e voltar à estrada…

Se em Serge a narrativa nos leva para um ambiente de equilíbrio, em Os Homens o desequilíbrio, o caos, a mesquinhez, a desconfiança e os ciúmes são uma constante. E tudo acaba por desembocar no confronto épico entre os homens e as mulheres de Notre-Dame-des-Lacs e a partida dolorosa de Serge.

Loisel e Tripp continuam aqui a contar a história da pequena paróquia rural de Notre-Dame-des-Lacs, perdida no Quebeque profundo, com uma enorme preocupação com o realismo e uma ternura estonteante. Este é o pano de fundo, no qual em primeiro plano estão as mulheres e os homens que lhe dão vida.

Com uma enorme simplicidade narrativa, vibramos ao ver os dois protagonistas bem como a enorme galeria de personagens atafulhados de emoções e a confessarem os seus sentimentos.

Se Serge significa a novidade, a diferença e o progresso, já os lenhadores representam o conservadorismo na sua vertente mais negativa. As tradições só criam raízes quando estão abertas ao inexorável avançar dos tempos. Os homens reagem; as mulheres reagem aos homens; e a guerra dos sexos instala-se na comunidade, perturbando o seu equilíbrio e a sua simplicidade, espalhando pela aldeia o ciúme, a incerteza, a desconfiança, como se a serpente tivesse descido da árvore e andasse à solta pelo Paraíso.

E esta serpente envenena todos. Dos homens enraivecidos, que se sentem ultrapassados pelos acontecimentos. Das mulheres, desejosas de alguma independência e ciosas das suas opiniões. De Marie, subitamente cansada de tudo e de todos, com a emoção posta, cada vez mais, em Serge. De Serge que, culpabilizando-se, resolve deixar tudo para trás, levando consigo o seu inesperado segredo. E até do pároco Beauregard que sucumbe à ira, tem uma crise de fé e afoga as mágoas em álcool (servido em chávena, como se assim pudesse apaziguar a ira do Divino) na companhia de Noel Poulain.

E é destes sentimentos que se vai alimentando a narrativa conturbada que, nem por isso, perde o seu cunho profundamente nostálgico e humanista. Cada pequeno acontecimento, cada pequeno pormenor, cada pequeno drama, cada pequena alegria, cada troca de olhares, tudo concorre para que Os Homens seja um hino à superação e à Humanidade, sendo esta o sentido da esperança.

Invariavelmente, a nostalgia advém dos tempos longos. Do tempo em que esperávamos ansiosamente pela chegada do Natal. Das longas horas que corriam desde a manhã à noite da consoada. Das longas férias de Verão. Dos eternos segundos em que o nosso coração acelerou na antecipação do primeiro beijo. Pois, é esse tempo longo que corre nos álbuns de Armazém Central e é ele uma das razões dessa nostalgia que nos envolve. Um bom exemplo disso (e que parece tão simples) é o diálogo entre o cura Beauregard e Noel Poulain. O assunto que se discute é sério e implica com a evolução da narrativa. E, no entanto, artisticamente, o diálogo é-nos apresentado com um inteligente entremeado de quente e frio. O quente do interior, à lareira, potenciado pela ingestão de licor e o frio do exterior, onde chove copiosamente, onde os animais passeiam encharcados e indiferentes, mas onde sentimos a nostalgia do interior pois os autores não nos permitem esquecer que a conversa prossegue amena lá dentro.

Como já acima foi dito, o casamento entre narrativa e desenho é perfeito. O trabalho de Loisel e Tripp a quatro mãos é brilhante em todos os sentidos. E mesmo naquelas cenas em que não há ou há pouco diálogo, não nos podemos esquecer que houve um trabalho de escrita, de argumento. E também aí os autores são brilhantes.

Neste sentido, em Os Homens, há duas cenas que se destacam. A primeira é o momento fulcral em que Marie resolve revelar sentimentos e intenções a Serge. Ela prepara-se, hesita, ganha coragem e avança, tudo em silêncio. Ele recebe-a no seu quarto. Ela está provocante. A única palavra que profere é “Serge…”, enquanto lhe agarra a mão. Ele diz-lhe que não e, numa visível luta interior, cabisbaixo, fecha a porta do quarto.

A segunda cena é a última do livro. Agora é Serge que procura Marie e lhe entra pelo quarto numa noite chuvosa. Sem palavras. No dia seguinte, a vida prossegue lá fora e Marie sai da cama de mansinho para não acordar Serge. Vai para a janela respirar o ar de um novo dia. A única coisa que quebra o silêncio é o ressonar de Serge e a voz em off do defunto marido de Marie.

Ah! E se julgam que acabaram de ler um spoiler, desenganem-se! Não há nada como ler e ver este álbum que bem pode ser comprado de olhos fechados sem nos arrependermos de o fazer.

Armazém Central é uma obra feita de prazeres simples e sinceros que tem o condão de nos fazer felizes, ainda que por breves momentos.

É um pouco, como já alguém disse, o “síndrome Amélie Poulain”. Quem viu o filme O Fabuloso Destino de Amélie perceberá melhor ao que me refiro. No fundo, sendo profundamente positiva e fazendo a apologia da simplicidade, esta magnífica obra consegue apaziguar quaisquer temores, reconciliar-nos com a vida e fazer-nos crer na Humanidade. Sorrimos e sentimo-nos confortáveis. E sabemos que quando a felicidade passar ao nosso lado, temos de a agarrar, sem hesitar, pois pode não voltar a passar…

Coisa pouca! Coisa muita!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.