A Originalidade Dentro da Fidelidade – a análise de Drácula de Georges Bess.

Quem nunca ouviu falar do infame conde Drácula? Esse mesmo! Envergando fraque, envolto numa capa negra de forro escarlate, e de caninos afiados sempre prontos a serem ferrados em alvos pescoços de jovens apetitosas?

Pois… Mas não é esse o Drácula de que vamos falar aqui! Aqui vamos falar do Drácula verdadeiro, do ser abjecto, do que inspira reais terrores nocturnos, do que nos faz olhar para trás à noite numa rua escura, do que deu origem a todos os outros vampiros, do que existiu mesmo, ainda que apenas na mente criativa de Bram Stoker, o escritor irlandês que em 1897 criou o mito que, mais ou menos adulterado, subsiste até hoje.

E se não sou particular adepto de adaptações da literatura para a banda desenhada, tenho de reconhecer que o Drácula de Georges Bess é, a vários níveis, tão bom e tão complexo quanto o de Bram Stoker.

Reconhecido argumentista e desenhador, Georges Bess lançou o seu Drácula em 2019 na editora Glénat, num álbum de 200 páginas a preto e branco e que é agora publicado em Portugal pela editora A Seita com uma esclarecedora introdução de José Pedro Castello Branco. A apresentação da edição nacional com duas capas distintas e imagens do seu interior pode ser vista aqui.

Vamos à história!

Mina Murray passeia-se pelo cemitério caótico que, no topo da falésia, coroa a pequena cidade portuária de Whitby. Foi convidada pela sua amiga Lucy e pela mãe desta a passar aí uma temporada, enquanto o seu noivo, Jonathan Harker, conclui um negócio na distante Transilvânia.

Mas Mina não tem notícias de Jonathan já há quatro semanas. E os seus temores não parecem apaziguar-se com as histórias de fantasmas que ouve da boca de um velho marinheiro que também se passeia por entre as numerosas lápides.

Jonathan Harker é um jovem escriturário de notário. O seu patrão encarregou-o de concluir uma venda imobiliária com o príncipe da Valáquia, uma longínqua região situada nos Montes Cárpatos, perdida entre os estados da Bucóvina, da Moldávia e da Transilvânia, e ausente de qualquer mapa.

É noite cerrada. Neva incessantemente. Jonathan chega à pequena cidade de Bistritz na fronteira da Bucóvina, apenas a poucas milhas do castelo do Príncipe, que também responde por Conde Drácula.

É aí que vai pernoitar na estalagem Coroa de Ouro. Mas o estalajadeiro e a mulher, ao perceberem que Jonathan tem encontro marcado na manhã seguinte com o Conde Drácula, benzem-se supersticiosamente e recusam-se a dar-lhe qualquer informação.

Jonathan passa uma noite atormentada, povoada por terríveis e estranhos pesadelos. Já de manhã, mesmo antes de subir para a diligência que o levará ao ponto de encontro com a carruagem do Conde, ele recebe da estalajadeira um rosário como protecção, depois de implorar para ele não ir.

O ambiente está cada vez mais carregado. O pequeno percurso que o leva até ao ponto de encontro parece interminável. Depois de descer da diligência, fica sozinho, no meio do nada, engolido pelo breu da noite. Por fim, chega a carruagem do Conde. O cocheiro parece a Jonathan um ser horrendo, acabado de sair de uma dessas lendas de terror que circulam por aquelas paragens.

Mas as provações do pobre súbdito de Sua Majestade, a Rainha Vitória, parecem estar longe do fim. Uma numerosa alcateia persegue a carruagem. Os lobos ferozes sentem o cheiro dos cavalos e dos homens e preparam-se para atacar. O cocheiro detém a carruagem e, com gestos largos e murmúrios inaudíveis, fá-los desaparecer na noite.

Exausto, Jonathan chega finalmente ao castelo. Frente à escadaria da entrada, encontra-se mais uma vez sozinho. Sente-se inquieto, ansioso, quase a desesperar, assaltado por todos os acontecimentos do último dia.

É então que no alto da escadaria se abre a pesada porta e surge o seu anfitrião… Vlad III, Tépes, Conde Orlok, Nosferatu. Príncipe da Valáquia… o Conde Drácula.

A pouco e pouco, Jonathan vai-se apercebendo que o seu anfitrião tem tudo menos uma natureza vulgar. Excessivamente lívido, magro e exalando um odor fétido, o Conde habita um castelo em ruínas do qual ele parece ser o único habitante. E, no entanto, as refeições são preparadas, os corredores alumiados, os quartos arrumados, como se nas sombras operasse um batalhão de serviçais invisíveis. Para mais, Drácula parece não se reflectir nos espelhos, reage violentamente à visão de sangue e tem comportamentos tão bizarros que Jonathan julga serem fruto da sua imaginação.

Jonathan sabe agora que não passa de um prisioneiro naquele castelo. Sabe que o Conde se prepara para partir rumo a Londres e pretende deixá-lo entregue às suas concubinas. Jonathan sabe que deve temer pela vida…

Este é um álbum monumental de duzentas páginas, ilustrado a preto e branco e impresso num papel de muito boa mão. Dividido em dezasseis capítulos, estes são assinalados por cortinas com composições absolutamente magistrais. Por si só, vale cada cêntimo nele investido. Mas, como é óbvio, é muito mais que um mero objecto. Por isso, vamos ao detalhe!

Desde que, em 1897, Bram Stoker, na linha gótico-romântica, escreveu o seu romance epistolar Drácula, muitas foram as adaptações ao cinema, à televisão e à banda desenhada. E se em quase todas elas há um denominador comum, ele é a falta de fidelidade. A juntar a esse facto, o personagem Drácula ganha tal popularidade que torna o tema dos vampiros um negócio quase sempre lucrativo nas diferentes artes, seja literatura, cinema ou banda desenhada.

A título de exemplo, temos na literatura o popular vampiro Lestat dos romances de Anne Rice (também adaptado ao cinema no filme Entrevista com o Vampiro, com Tom Cruise e Brad Pitt nos principais papéis).

Na 7.ª Arte, posso destacar o filme Drácula de 1931, interpretado pela primeira vez pelo carismático Bela Lugosi; Nosferatu, filme mudo alemão de 1922, talvez o primeiro do género terror, do realizador Murnau; o Drácula da Hammer Filmes de 1958, interpretado por Christopher Lee; e o mais recente, Drácula de Bram Stoker, realizado por Francis Ford Coppola em 1992 e que teve nos principais papéis Gary Oldman (Drácula), Keanu Reeves (Jonathan Harker), Winona Ryder (Mina Murray) e Anthony Hopkins (Professor Van Helsing).

E na 9.ª Arte destaco o belíssimo trabalho de adaptação de Mike Mignola do filme de Francis Ford Coppola.

Ora, com centenas de adaptações e derivados em vários meios, o que destaca o Drácula de Georges Bess de todos os outros? Sem dúvida, a fidelidade da adaptação e, quase paradoxalmente, a originalidade dentro da fidelidade.

A fidelidade está bem patente em todos os momentos-chave da banda desenhada que são os mesmos do romance de Bram Stoker. Tal como a galeria de personagens é a mesma e trabalhada com uma densidade psicológica semelhante à de Stoker.

Em ambas as obras, o Conde Drácula encerra em si os medos ancestrais, reptilianos, do inconsciente colectivo. Personagem complexo, tão aterrorizador quanto carismático, tão violento quanto vítima das circunstâncias. Um ser que há muito se perdeu, transformando-se num predador amoral.

Mas a fidelidade está também presente na estrutura narrativa. Como já se disse, o romance de Bram Stoker é epistolar polifónico. A história é-nos contada de forma complexa através de extratos do diário de Jonathan Harker, dos diários de Mina Murray, de Van Helsing e do doutor Seward, do diário de bordo do Demeter, de cartas trocadas entre os protagonistas, e de recortes de jornais. Bess, utilizando todos estes elementos, simplifica-os e mantém uma narrativa epistolar que nos surge quase invisível e de uma enorme elegância.

Mas muito mais do que na narrativa, a originalidade tem a sua expressão máxima no desenho, na composição das pranchas e nos subterfúgios artísticos ao serviço da história.

O romantismo gótico é magnificamente recriado nas pranchas a preto e branco que, muitas vezes, parecem ficar a meio-caminho entre a ilustração e a banda desenhada. Páginas duplas, longos “travellings” que passam de uma página a outra, páginas com uma só vinheta, são disso bons exemplos.

E temos também uma composição de pranchas arrojada, nada tradicional. Há sobreposição de vinhetas; imagens que transbordam da esquadria; vinhetas quadradas, rectangulares, circulares, horizontais, verticais, por vezes várias tipologias na mesma página. O efeito de movimento e do correr da acção é, por isso, altamente dinâmico.

Cada página é de cortar o fôlego com os seus contrastes, os seus enquadramentos, efeitos de movimento e na proliferação de infinitos detalhes. Detalhes na composição de uma cena, como é o caso do cemitério onde Mina se passeia no início da história, povoado por um sem fim de pedras tumulares numa disposição labiríntica, cada uma com “identidade” própria. Detalhes na criação de cenários góticos nos quais Georges Bess mistura elementos do gótico medieval com as ambiências do gótico romântico do século XIX – Jonathan explora umas ruínas sombrias encimadas por uma cruzaria de ogivas, elemento característico da arquitectura gótica.

Aqui e ali, Bess pisca o olho a pintores consagrados, a realizadores e a actores e às suas composições de Drácula. É notório a sua inspiração na atmosfera gótico-romântica do romance de Bram Stoker, mas também nas imagens do Drácula de Coppola e no Nosferatu de Murnau, do qual adopta a forma em vários momentos.

Do mesmo modo, é evidente a sua inspiração em alguns pintores românticos como Victor Hugo (esse mesmo, o consagrado romancista), Gustave Moreau e Carl Friedrich Lessing (ver os extras no final deste artigo). Por outro lado, em algumas soluções utilizadas como texturas ou em composição de cenas, Bess faz-me recordar alguns trabalhos art noveau de Gustav Klimt.

Independentemente das diversas inspirações, Georges Bess mantém ao longo da obra uma absoluta originalidade artística tanto no desenho e na composição de cenas como na mestria do jogo entre o preto e o branco, entre a luz e a sombra.

O grafismo de Bess oferece-nos construções estéticas elaboradas, vinhetas trabalhadas com “cheios” e “vazios” que nos mergulham na angústia e no medo. Jonathan Harker, engolido pela noite escura, aguarda no meio do nada a chegada da carruagem do Conde: a vinheta é toda preta e no centro a figura de Jonathan parece esmagada pela escuridão. Lucy, transformada em vampiro, foge na direcção da sua cripta, perseguida pelo Professor Van Helsing & Cia.: a fuga é ascendente ao longo de página dupla; na parte de cima, o preto e o branco definem as formas e o movimento e na parte de baixo, o preto absoluto toma conta da acção, deixando adivinhar um desfecho nada feliz.

Mais uma vez, jogando com o preto e branco, a iluminação das cenas mais complexas ou detalhadas é absolutamente magnífica. E o resultado é a criação de um imaginário tão cruel e terrífico quanto poético, remetendo-nos para a obra original de Bram Stoker.

Por fim, uma palavra para os elementos gráficos de terror puro que Bess desenvolve com elegância e brilhantismo…

…e com o propósito alcançado de aterrorizar, seja através da encarnação do mal do Conde, seja com a bela Lucy transformada num ser horrendo ou ainda com as igualmente voluptuosas e perigosas concubinas de Drácula.

Em suma, o Drácula de Georges Bess é de uma elegância narrativa a toda a prova. De uma fidelidade inquestionável à obra original de Bram Stoker. De uma soberba originalidade estética.

Tal como Drácula faz há mais de 100 anos, este álbum seduz, impregna-nos com o seu magnetismo maléfico e fascina-nos sempre, apesar de já sabermos o fim da história. Cada passar de página é uma nova descoberta narrativa e artística.

Matéria tanto de pesadelos como de infinito gáudio, este Drácula consegue a proeza de ser fiel e original.

Assim, sim! Vale a pena!

EXTRAS

Ao longo do artigo que acaba de ler, faço referência a vários filmes e actores que interpretaram o papel do Conde Drácula, bem como a alguns pintores que me parecem ter inspirado o trabalho de Georges Bess.

De modo a evitar a sua ida continuada ao Google, deixo-lhe aqui várias imagens esclarecedoras do que se foi escrevendo.

Quatro pintores e as suas obras parecem-me ter inspirado parte do trabalho de Georges Bess neste Drácula.

As várias águas-fortes de Victor Hugo que, para além de ter escrito Os Miseráveis e tantos outros romances de sucesso, também era um desenhador e pintor de grande qualidade…

…os palácios e ruínas de Gustave Moreau…

…o quadro de Carl Friedrich Lessing, Ritterburg / Felsenschlossknight’s Castle…

…e os muitos trabalhos de Gustav Klimt.

A adaptação a banda desenhada feita por Roy Thomas e Mike Mignola (o criador de Hellboy) do filme de Francis Ford Coppola Drácula de Bram Stoker.

Gary Oldman nas diferentes incarnações de Drácula, no filme de Coppola.

O actor Max Schreck no filme mudo de 1922, Nosferatu.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.