Segundo número desta série antológica.

Em setembro, no primeiro fim de semana do XVI Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, dá-se o lançamento de Abismo, o segundo volume da antologia de BD de autores portugueses Ditirambos. É um retomar da tradição, uma vez que o seu primeiro número, Êxtase, já tinha sido lançado em 2019 durante o XV Festival Internacional de BD de Beja.

Inclusivamente, este ano, o Festival, tal como já estava previsto para a edição não realizada do ano passado, travada pela pandemia de COVID-19, tem uma exposição coletiva dedicada à antologia portuguesa Ditirambos.

Aos 6 autores do primeiro número – Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Nuno Filipe Cancelinha, Raquel Costa, Ricardo Baptista e Sofia Neto -, juntam-se mais 4 nomes, André Caetano, Carlos Drave, Joana Afonso (que também ilustrou a capa) e Sónia Mota. Segundo esta dezena de autores de estilos distintos, a antologia apresenta “um campo de experimentação estética alargado, juntando artistas de BD nacionais premiados a talentos emergentes. De realçar a grande diversidade de recursos técnicos usados, digitais e analógicos, muitas vezes em regime de complementaridade”.

Como curiosidade, registe-se que as duas partes da BD “Abismo Criativo” foram produzidas em cadavre exquis, tendo Ricardo Baptista começado a contar uma estória, passando-a, de seguida, a André Caetano, que assume a tarefa de a continuar.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse:

Um ditirambo é um canto coral exortativo que nos chega da antiguidade clássica grega. Nele, uma multitude de vozes une-se em homenagem ao deus Dioniso.
É também uma antologia de banda desenhada de autores portugueses, cujas distintas técnicas e vozes narrativas obedecem, para além do mote, a um único requisito: 4 páginas.
O primeiro volume explorou o conceito de “Êxtase”, com as contribuições de Ricardo Baptista, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira e Sofia Neto.
No segundo volume – “Abismo”, juntaram-se as novas vozes dos autores e ilustradores Joana Afonso, André Caetano e Carlos Drave e da autora Sónia Mota.

Para este número, cada BD curta tem direito a uma paisagem sonora curada pelos autores, sob a forma de playlists do Spotify, e que disponibilizamos aqui:

“ORIGMA” , JOANA AFONSO
Joana Afonso, doutorada em Desenho pela FBAUL, onde é docente, faz também trabalho freelancer nas áreas de ilustração e banda desenhada. Rabisca desde sempre, mas oficialmente pode dizer que faz BD “a sério” há cerca de 10 anos. Desde então não tem parado de tentar fazer o que gosta.
“Origma” é o nome dado ao o abismo para o qual se precipitavam os criminosos em Atenas. Foi a partir deste conceito que a estória se foi desenvolvendo, revelando-se também a oportunidade perfeita de colocar uma criatura mitológica à mistura. Desta amálgama mitológica sai uma nova lenda: a de um Minotauro amaldiçoado, prisioneiro, desta vez, de um abismo. Após a criação dos personagens e dos estudos de página, as ideias foram fixadas em lápis azul, formato A3. Posteriormente foram finalizadas a tinta da china, sendo a legendagem e cor digitais. A paleta de cores quentes, estabelece diálogo com o roxo, mais frio, contrastante.

“ABISMO CRIATIVO – PT.1”, RICARDO BAPTISTA
Ricardo Baptista nasceu na Madeira em 1984. Licenciou-se em Medicina e faz banda desenhada regularmente desde 2017.
O “Abismo Criativo” é uma história sobre o lugar para onde vamos quando não somos capazes de criar: o mundo escondido do subconsciente materializa-se e as dificuldades mentais que nos assombram concretizam-se. Foi este o ponto de chegada legado ao André Caetano, para que lhe desse sequência em cadavre exquis, na Parte 2. O “Abismo Criativo – Parte 1” foi criado integralmente no programa Procreate do iPad, seguindo a formulação tradicional: primeiro a linha azul de esboço; depois arte-finalização a preto. Após a cor, foi acrescentada a balonagem e a letragem.

“ABISMO CRIATIVO – PT.2”, ANDRÉ CAETANO
André Caetano é um ilustrador com uma paixão por desenhar estórias. Nasceu em Coimbra, em 1983, e quando começou a desenhar nunca mais parou. Licenciado em Design de Comunicação pela EUAC, desde 2008 que trabalha como ilustrador freelancer, para várias editoras, revistas, empresas e organizações.
Foi desafiado pelo coautor Ricardo Baptista para um exercício colaborativo de cadavre exquis. Ficou à sua responsabilidade a execução da segunda parte da estória “Abismo Criativo”. Nesta, reflete sobre o exercício de funambulismo que é desenhar ao vivo e sobre a intensidade muito especial de, em retrospectiva, reviver o momento e recriá-lo com total liberdade. O André esboçou, arte-finalizou e legendou a sua história digitalmente, usando um Ipad Pro e a aplicação Clip Studio Paint.

“MISE EN ABYME”, RAQUEL COSTA | NUNO F. CANCELINHA
Raquel Costa nasceu no Porto em 1979. Formou-se em Artes Plásticas – Escultura pela Faculdade de Belas Artes do Porto e é Mestre em Ensino de Artes Visuais. É atualmente docente na Escola Superior de Design do IPCA e cofundadora do Little Black Spot Creative Studio, desenvolvendo trabalho em áreas como a ilustração, o desenvolvimento visual para animação e o design, com foco nos mercados editorial e publicitário.
Nuno Filipe Cancelinha nasceu em 1982, em Trás-os-Montes. Estudou Direito e já foi livreiro e professor de natação. É cofundador do Little Black Spot Creative Studio, onde cria estórias como gestor de marca, redator e diretor de projeto.
Em mais uma parceria criativa, esta dupla de autores lança mão do artifício de mise en abyme – visual e narrativo – para encontrar o espaço da memória como espaço de vertigem abissal. Bebendo da estética hitchcockiana e ensaiando algumas referências à história da arte, do cinema e da literatura, perguntam-se: O que é a memória senão uma série de histórias dentro da estória que contamos a nós mesmos e aos outros? As pranchas de “Mise En Abyme” foram esboçadas, arte-finalizadas, coloridas e legendadas digitalmente, usando o Procreate para Ipad Pro. A paleta de cores reduzida – servindo-se da harmonia contrastante entre os tons frios azuis e os quentes magenta e alaranjados – procura estabelecer uma atmosfera emotiva e evocativa, com notas de melancolia e surrealismo.

“FISSURAS”, DIOGO CARVALHO
Natural de Pardilhó, faz parte do mundo da banda desenhada portuguesa desde o liceu, tendo vários trabalhos em publicações e livros. A solo, é o autor de “Cabo Connection”, “Obscurum Nocturnus” e “Free lance”. É professor do 1.º/2.º ciclo do ensino básico e tem trabalhos nas áreas de multimédia, TV, cinema, teatro e ilustração.
“Fissuras” é nome da sua estória e conta o início da rotura da relação de um jovem casal apaixonado. Tudo por causa de um pequeno pormenor que estilhaça a ilusão de uma relação perfeita. A pequena fissura vai crescendo até se tornar num abismo metafórico entre os dois. “Fissuras” foi primeiro desenhado com uma lapiseira azul para o desenho em folhas A3 canson mix media 200 mg e depois foi arte-finalizado com tinta da china através de aparo, canetas e pincéis. Para a cor e a legendagem foi utilizado o formato digital.

“TITÔ, CARLOS DRAVE
Carlos Drave, natural e residente em Coimbra, é designer de formação e profissão, animador freelancer – tendo lecionado também nesta área –, ilustrador e repórter gráfico. Para simplificar, e como adora desenhar, identifica-se presunçosamente com o anglicismo “visual storyteller”. Mas, no fundo, ele quer é fazer banda desenhada.
“Titã” é uma estória que aborda o abismo de um potencial e muito literal fim da humanidade. Mais concretamente, é uma estória sobre aqueles que, nesse momento, terão que, em simultâneo, saber ver esperança onde ela pode já não existir, mas também enfrentar a ideia de que o fim pode tomar a forma de uma mudança assustadora do significado de humano. A técnica usada na elaboração de “Titã” foi a do desenho digital. Sem cor ou meios tons, com muitas texturas, Carlos procurou assim transmitir a hostilidade de uma nova fronteira na expansão interplanetária, e a aridez aparente de um mundo que pode não ser aquele que as personagens procuravam.

“ABISMOS”, FRANCISCO FERREIRA | SÓNIA MOTA
Francisco sente-se desde muito cedo atraído pelo desenho e pelo mundo da banda desenhada. Publicou no suplemento infantil “O Cantinho do Nicolau”, no jornal “O Comércio do Porto”. Colaborou recentemente no fanzine “O Clemente” e na antologia “Ditirambos”. O Francisco gosta de rabiscar, de ouvir bons sons e de um bom final de tarde/noite.
Desde a leitura de “Cortei as Tranças”, de António Mota, que Sónia nunca mais parou de sonhar. Um dia, decidiu contar as suas próprias estórias. Colaborou recentemente no fanzine “O Clemente”. Continua a sonhar ainda hoje.
Há no léxico médico um palavrão que na verdade são dois: Mioclonia Noturna. Descreve o espasmo muscular que acontece, por vezes, durante o sono, e traduz-se numa sensação de queda. Ao choque desta experiência, segue-se, as mais das vezes, o alívio da realidade que se recompõe. Mas nem sempre. Nos sonhos, dizem, não se morre. O que não quer dizer que não nos possamos magoar. O lápis azul foi a ferramenta escolhida para esboçar, brushpen e caneta Bic para arte-final.

“ESPONTÂNEAS”, SOFIA NETO
A Sofia faz e dá aulas de banda desenhada, desenho e ilustração.
Perto de chegar ao fim da tarefa infinita de cuidar de um jardim, António encontra um alçapão que deveria ter deixado fechado. “Espontâneas” foi desenhada com tinta da china e aparo sobre papel, sendo a cor digital.

Ditirambos vol. 2: Abismo
André Caetano, Carlos Drave, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Joana Afonso, Nuno Filipe Cancelinha, Raquel Costa, Ricardo Baptista, Sofia Neto, Sónia Mota
Editora: edição de autor
Páginas: 52, a cores e preto e branco
Encadernação: agrafes
Dimensões: 168 mm x 258 mm
PVP. 12,00€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.