Então, Tudo Cai – primeira parte.

Oito anos depois, os autores Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, prosseguem a série Blacksad, com a primeira parte de Então, Tudo Cai. Em Portugal, a série tem na Ala dos Livros a sua terceira editora, que acompanha, deste modo, o lançamento mundial do novo volume.

Blacksad teve os seus primeiros 4 volumes editados pela ASA entre 2002 e 2010 (tendo a editora reeditado também os 2 primeiros numa parceria com o Público). Editou ainda o hors-série Blacksad: Os Bastidores do Inquérito, um volume especial onde era descrito o processo de trabalho conjunto dos autores e os esboços que deram origem ao primeiro volume. Quanto ao quinto volume, Blacksad: Amarillo foi publicado pela Arcádia em 2015.

A última aventura de Blacksad tinha-se dado em 2019, com o videojogo Blacksad: Under the Skin, para as plataformas Windows, macOS, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch.

Então, Tudo Cai marca o regresso dos autores a John Blacksad, o felino antropomorfizado criado pelos autores espanhóis para o mercado de banda desenhada franco-belga. O policial negro do gato preto com gabardina e propensão para colocar em perigo as suas sete vidas tem vindo a receber inúmeros prémios internacionais, entre os quais um Harvey Award para o melhor álbum em 2005, o Prémio Melhor Série de Banda Desenhada no Festival de BD de Angoulême 2006 (antecedido por dois galardões em 2004) e dois Eisner Awards em 2013 para o melhor artista plástico e melhor álbum estrangeiro publicado dos Estados Unidos. Com o álbum Amarillo, os autores receberam o Premio Nacional de Cómic 2014 em novembro, altura em que as vendas mundiais já eram superiores a um milhão e meio de exemplares e com direito a cerca de uma vintena de traduções. E obtiveram mais um Eisner Award para melhor álbum estrangeiro.

Tendo esta série se iniciado em 2000 com a aposta da editora francesa Dargaud, foi um dos pilares para que se desse a emigração criativa espanhola para o mercado francófono neste milénio. Em Blacksad, os animais evocavam as fábulas de Esopo e o movimento da animação Disney mas seguiam a prosa de Woolrich, Chandler ou Hammett, o guião e a fotografia dos filmes noir protagonizados por Bogart, Bacall e Hayworth e ostentavam uma caracterização realista, socorrida por aguarelas detalhadas e locais ou cidades reconhecíveis.

Ambientada nos EUA, em plena década de 50 do século passado, a série tem uma estética muito própria, característica da época e local, procurando a moderna narração realizar uma ponte entre o que aconteceu então e a atualidade. Se a crítica considerou simples o argumento do primeiro volume, Algures Entre as Sombras, dedicado a estabelecer o género e o público-alvo (a tentativa de não se confundir com uma publicação infantil através da violência e nudez ocasional) e repleto de referências ao policial noir, os volumes seguintes sofreram duas importantes alterações: a introdução da personagem Weekly como contraponto cómico e a abordagem de grandes temáticas, como a segregação racial em Artic Nation, a caça às bruxas durante a Guerra Fria em Alma Vermelha ou a dependência de substâncias em O Inferno, o Silêncio. Quanto a Amarillo, foi uma homenagem dos autores aos road-movies norte-americanos, numa BD descendente do espírito da beat generation e do livro Pela Estrada Fora de Jack Kerouac. A viatura escolhida para uma porção do trajeto sinuoso entre Nova Orleães  e Nova Iorque foi um Cadillac Eldorado amarelo, ilustrado na capa do livro. Paralelamente à boémia e egoísmo hedonista de alguns personagens, Blacksad deixa de ser apenas um detetive americano, veterano da Segunda Guerra Mundial, para se tornar uma personagem menos estereotipada, conferindo os autores ao leitor o privilégio de conhecer alguns dos seus familiares e aguçar-lhe a curiosidade sobre o seu pai, o qual não surge na trama, mas a quem se alude.

Este mês, os leitores podem constatar que rumo tem agora a narrativa, na primeira parte de um díptico, sendo a primeira vez que os autores optam por esse formato.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Encarregado de proteger o presidente de um sindicato infiltrado pela mafia em Nova Iorque, John Blacksad vai conduzir uma investigação que irá revelar-se particularmente delicada… E rica em surpresas. Enquanto procura uma notícia que o afirme como grande repórter, também Weekly vai envolver-se num perigoso mundo de corrupção e interesses. Será Blacksad capaz de proteger os seus amigos e resolver a situação? Nesta história, pela primeira vez repartida em dois álbuns, descobrimos não só o quotidiano dos trabalhadores encarregues da construção do metro nas profundezas da cidade, mas também o contraste absoluto entre a sombra e a luz, o submundo e o meio do teatro, os mundos de baixo e de cima, encarnado pelo ambicioso Salomon.

Juan Díaz Canales nasceu em Madrid, Espanha, em 1972. Começa a ler banda desenhada desde muito novo, antes ainda de se interessar por desenhos animados! E é da animação que, aos 18 anos, fará a sua profissão, ao ingressar num estúdio de desenhos animados chamado “Lápiz Azul”, onde conheceu Juanjo Guarnido. Juan permanece em Espanha enquanto Juanjo é contratado para trabalhar nos novos estúdios de animação da Disney, em Paris. Mas a distância não os impede de pensar num projeto de BD que virá a obter um tremendo êxito: Blacksad. Entretanto, Juan Díaz Canales continuou a frequentar a Escola de Balas Artes na Universidade de Madrid, até que em 1996, funda com Teresa Valero e mais dois designers uma empresa de animação chamada “Tridente Animation”. A partir dessa altura a sua atividade profissional divide-se entre a sua faceta de desenhador de pré-produção para séries de televisão e longa-metragens de animação, e a de argumentista de banda desenhada que inclui títulos como Los Patricios, com Gabor, Fraternity, com José Luis Munuera, para além de assinar, com Rubén Pellejero, as novas aventuras de Corto Maltese. Em 2016, escreveu e desenhou Como Viaja a Água (a sua primeira obra a solo) e em 2020, assina com Teresa Valero o argumento de Gentlemind.

Juanjo Guarnido nasceu em Granada, Espanha, em 1967. Com o Curso de desenho obtido na Faculdade de Belas Artes de Granada, participa na realização de diversos fanzines e trabalha esporadicamente com a Cómics Forum (uma chancela da Planeta DeAgostini) para a Edição espanhola da Marvel, o que lhe permite chegar a um público bastante alargado. Nos inícios dos anos 90, muda-se para Madrid, dedicando-se à realização de storyboards  para diversas produtoras de televisão e em 1993 muda-se para Paris, passando a integrar os estúdios Walt Disney em Montreuil, estúdios onde trabalha como animador até ao seu encerramento. Adepto de longa data da banda desenhada europeia, inicia pacientemente aquilo que será o longo processo de produção do seu primeiro álbum, o tomo 1 da série Blacksad (Dargaud), publicado no ano 2000. Para além desta obra magna que conta até à data com 5 títulos publicados e vários prémios, Guarnido assina posteriormente projetos como Sorcelleries (Dargaud), com Teresa Valero, ou Voyageur (Glénat, projeto coletivo). Entre os seus trabalhos mais recente, destacam-se O Burlão nas Índias, desenvolvido em parceria com o francês Alain Ayroles, e este regresso da aclamada série Blacksad com Então tudo cai – Primeira parte, o sexto volume da série, que será pela primeira vez editado em duas partes.

Blacksad: Então, Tudo Cai – Primeira parte
Juan Díaz Canales & Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 60, cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 235 x 310 mm
ISBN: 978-989-53725-1-5
PVP: 16,95€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.