Análise de Armazém Central vol. 4-5: Confissões | Montreal.

Há histórias que parecem contar-se por si, parecem ter vontade própria, parecem fugir à vontade tirânica dos autores.

E depois… Depois conseguem trilhar um rumo muito seu, ignorando modas, tendências e até os desejos dos leitores mais ávidos.

Mas, mesmo assim, parecendo virar costas a autores e leitores, encantam tanto criadores quanto os olhos dos muitos que as escutam.

E é isto que se passa com Armazém Central! Conseguimos apreciar cada volume, não como se alguém o tivesse escrito e desenhado, mas como se fossemos observadores privilegiados do correr da vida numa pequena paróquia rural do Quebeque na década de 1920.

E mesmo na simplicidade (como já se referiu em Quando o centro do mundo é uma loja de aldeia!) ou nos pequenos nadas (como também se pode ler em Coisa pouca! Coisa muita!), a riqueza desta “saga” reside no facto de nos mostrar, a todos nós que andamos esquecidos, o todo que é a vida e como a devemos estimar e desfrutar ao máximo. Mas, para isso, utiliza um truque de que se falará mais adiante.

Neste álbum duplo, correspondente aos quarto e quinto volumes da série, a Arte de Autor prossegue a publicação de Armazém Central, a obra maior de Régis Loisel e de Jean-Louis Tripp.

Vamos à história!

Confissões

Depois de um Inverno intenso e pleno de acontecimentos, a Primavera chega agora a Notre-Dame-des-Lacs. A pouco e pouco, a pequena aldeia retoma as suas actividades fora de portas. E nada melhor para reunir toda a população que um baptizado.

Mas não é o bebé o centro de todas as atenções. E muito menos as iguarias, a música ou a dança. Os aldeões falam de Marie, a jovem viúva, dona do Armazém Central, a única loja num raio de muitos, muitos quilómetros. E falam de Serge Brouillet, o desconhecido que chegou a Notre-Dame-des-Lacs depois da sua mota empanar e que por lá ficou, hospedado por Marie e alvo das más línguas e da desconfiança de todos. Mas isso já passou e agora não há ninguém que não considere Serge um dos seus. É de Marie e de Serge que todos falam durante a festa. Aos olhos da aldeia, o próximo e urgente passo é o casamento dos dois!

O tempo passa…

Serge continua a aplicar os seus conhecimentos sofisticados e requintados de chef parisiense em prol das papilas gustativas da aldeia. Como seu aplicado ajudante, tem Gaëtan, o tontinho da aldeia que, apesar disso, não cessa de o surpreender com os seus dotes culinários.

O tempo passa…

Marie visita a sua amiga Jacinthe. Esta não se contém e interroga-a acerca de Serge… Se já aconteceu algo entre eles, se ele já a pediu em casamento. Marie confessa à amiga que é complicado, que Serge vem de Montreal e que antes disso veio de Paris. A amiga concorda que Serge não é um homem como os outros. E Marie, sem mentir e omitindo, confirma: Serge não é um homem como os outros!

O tempo passa…

O marulhar do riacho a correr cria a sinfonia perfeita em conjunto com o chilrear dos pássaros e o inaudível bater de asas das borboletas. Aproveitando um momento de pausa nos seus afazeres, Marie e Serge fazem um piquenique debaixo de árvores frondosas.

Estão divertidos. Felizes. Marie prega uma partida a Serge. Serge decide vingar-se. Rebolam, enrolados, ladeira abaixo, pela erva alta, até à beira do riacho. O seu olhar cruza-se e Marie não contém um beijo. “Não, Marie, não…”, diz Serge. Com a cabeça no peito de Serge, Marie chora. “Não chores… Não chores, irmãzinha…”

O tempo passa…

Marie está fragilizada pelo amor que sente por Serge. E não consegue esquecer as recusas deste aos seus avanços. Para piorar a situação, o cura Beauregard quer fixar a data do casamento. Não aguentando mais, Marie pede-lhe que a confesse e revela-lhe o segredo de Serge.

O padre, visivelmente abalado pela confissão, parte cambaleante e atónito, aparentemente sem rumo certo. E nada será como dantes…

Nesta nova visita ao Armazém Central, Loisel e Tripp continuam sem nos desiludir. E, apesar disso, na maior parte do tempo não parece passar-se grande coisa.

O tempo lento da narrativa, a banalidade do quotidiano em Notre-Dame-des-Lacs, leva-nos a acreditar nisso – não se passa grande coisa! Mas aos olhos do leitor atento, que ama e aproveita a vida, a verdade é que se passa muita coisa.

Há fogos-de-artifício espectaculares, extremamente inventivos, com uma duração grandiosa. E, no entanto, passados os primeiros “buns e cabuns”, pouco mais conseguimos ver do que enormes cortinas de fumo que apenas deixam transparecer clarões difusos multicolores.

Pois, em Armazém Central não há fogos-de-artifício ou estrondosas onomatopeias. E assim também não há cortinas de fumo que nos turvem o olhar. Mas há mestria no modo de narrar e desenhar a vida destas gentes.

De par com a rudeza de muitos dos aldeões, há a sensibilidade de cada um. E é esse aspecto que Loisel e Tripp, coadjuvados com a magnífica paleta de cores de François Lapierre, desenvolvem com elegância e poesia.

Um bom exemplo do que se disse verifica-se no momento em que os autores recorrem às elipses. O tempo passa… o tempo passa… Um casal de passarinhos constrói um ninho; quatro páginas depois, alimenta os filhos. Um bebé acabado de nascer e a sua mãe acamada são visitados por um grupo de mulheres; quatro páginas depois já está fora do quarto e é amamentado debaixo do alpendre. Um aldeão lavra um terreno com uma charrua atrelada a um cavalo; quatro páginas depois o homem semeia o terreno.

Dito assim até parece coisa pouca. Mas vejam a beleza e a poesia das imagens…

É verdade que não há fogos-de-artifício, mas há uma explosão de vida.

E há amizade. Amizade para lá dos problemas e das diferenças. E nisso, mais uma vez, Loisel e Tripp são magistrais na forma como nos contam e como nos desenham sentimentos de perdição que, invariavelmente, acabam apaziguados seja pelo que for, gerando até situações de igual modo complexas e divertidas.

Vejamos, no imediato, o que ouvir Marie em confissão vai gerar no pobre cura Beauregard. Depois de ficar a conhecer o “sinistro” segredo de Serge, o padre, de cabeça perdida, abandona Marie no confessionário. Sai agoniado, numa espécie de transe, e pedala desesperado na sua bicicleta rumo à casa do seu amigo Noel Poulain. Lá chegado, indiferente à cascata de ruidosas onomatopeias que enchem o ar, o padre sobe ao convés do batelão em eterna construção e junta-se a Noel e a Serge que já lá estão a martelar. Em catarse, o cura martela mais desenfreadamente que os outros dois juntos. Depois de muito atacar as tábuas com o martelo, Beauregard propõe uma pausa para molhar a garganta com aguardente de ameixa. Os copos sucedem-se e o padre acaba por confessar que ouviu Marie em confissão. Serge bebe um copo de um só trago. Silêncio… Todos bebem mais um copo. Silêncio… Noel, com a sabedoria de quem já viu quase toda a vida a passar, conta a história de como perdeu o olho no Inverno de 1858, uma longa história com uma moral curta (como todas as boas morais de histórias): “aquele que perde um olho aprende a ler o coração dos homens”. E nem a propósito, pois a eles junta-se Isaac, para quem os olhos não servem para nada já que é cego. Não querendo defraudar as expectativas da aldeia em relação ao casamento de Marie e Serge e recusando-se a colocar Marie numa posição desonesta perante todos com um falso casamento, os quatro homens têm de arranjar uma boa desculpa para dar aos seus patrícios. Com a imprescindível ajuda da aguardente de ameixa, acabam por encontrar a solução: Serge enfrentou heroicamente os alemães na Grande Guerra, mas não se livrou de um obus que explodiu mesmo ao nível das suas partes baixas. Ora, ninguém desejaria que Marie, jovem e pobre viúva, casasse com um homem que não pudesse cumprir as suas funções maritais. Satisfeitos com a solução, resta-lhes espalhar o rumor pela aldeia. Os “Camaradas de armas” dão a reunião por terminada e partem rumo à aldeia, toldados pelo álcool, cobertos pelo manto da noite profunda.

Amizade pura! Narrada ao longo de 21 páginas magníficas a todos os níveis, entremeadas com a aflição de Marie. E logo a seguir, mesmo antes de conseguirem começar a espalhar os rumores, o pai de Gaëtan morre. E um novo turbilhão de sentimentos vai invadir a aldeia e redefinir o papel de Serge na vida de todos.

Por fim, há o discreto cliffhanger habitual com o deslize sexual de Marie.

Magistral. Tudo é magistral, neste conto que nos oferecem Loisel e Tripp. Narrativa talentosa e inventiva, que parece aprimorar-se a cada novo álbum, mas que mantém sempre os mesmos valores e sentimentos do início: amizade, amor, tolerância, superação, empatia e a capacidade infinita de aniquilar rancores e frustrações.

E não há pressa em mostrar um correr acelerado da história (se bem que ela vai correndo incessante). A lentidão propositada da narrativa, sabiamente instilada, insufla a obra com uma sabedoria infinita. E percebemos rapidamente que, através da crónica graciosa desta micro sociedade, os autores enchem-nos o espírito com as ideias de tolerância e generosidade. E sempre com simplicidade e humor.

Em todos os sentidos, a história de Marie e de Serge é tocante e, ao mesmo tempo, desesperada. Loisel e Tripp contam-na com elegância e ternura, e ao colocarem-nos como observadores privilegiados, permitem-nos apenas o distanciamento suficiente para que, ao invés de sofrermos, possamos sorrir.

Mas este capítulo não termina aqui. O álbum é duplo. Por isso…

Vamos à história!

Montreal

Num meio tão pequeno como é Notre-Dame-des-Lacs, um deslize insignificante acaba, mais cedo ou mais tarde, por ser do conhecimento de todos. E se o deslize for dos grandes? As consequências acarretam inúmeras e imprevistas ramificações.

O amor impossível entre Serge e Marie precipitou-a para os braços do jovem Marceau Allaire. Um momento de paixão fugaz e inconsequente. Mas Marceau já é comprometido e Marie sente-se esmagada pela vergonha do breve encontro sexual.

No entanto, o momento é tudo menos inconsequente! Em pouco tempo, toda a aldeia sabe do acontecido. É que Clara, a prometida de Marceau, descobriu tudo e irrompe, furiosa, pelo Armazém Central em pleno expediente, acusando Marie de lhe ter roubado o noivo. Antes disso, já metera um olho negro ao seu amado.

Gritos, lágrimas, a loja apinhada, mil olhos incrédulos caiem sobre Marie que, esmagada pela reprovação, foge para o quarto num pranto.

As cunhadas Gladu, fiscais dos abusos e coscuvilheiras convictas, regozijam e lançam para o ar interjeições indignadas eu potenciam ainda mais o escândalo.

Até o cura Beauregard se intromete, sem conseguir esconder o semblante irado, coisa que ninguém jamais vira nele.

E, em pouco tempo, toda a aldeia sabe do deslize de Marie e entra em ebulição.

Embora nos últimos meses muito se tenha passado em Notre-Dame-des-Lacs, e alterações profundas se tenham operado na aldeia obrigando à mudança de mentalidades, o que Marie fez é indesculpável aos olhos de todos. Ela não merece perdão!

Consequência imediata: o Armazém Central é boicotado pela população. Ninguém o visita; está deserto! O povo unido é mais forte que Marie…! Mas será mesmo assim?

Após a morte da avó de Jacinthe, e não suportando já o ostracismo a que a aldeia a votou, nem a indiferença com a qual Adele, a sua melhor amiga, a trata, Marie decide partir.

Com o beneplácito de Serge, que lhe empresta a chave da sua casa em Montreal, Marie e Jacinthe partem na calada da noite, em busca dos ares mais respiráveis da grande e assustadora urbe. Os restaurantes, os clubes nocturnos, os bares de jazz, o cinema, as luzes eléctricas, um admirável mundo novo é a proposta de Serge para apaziguar os demónios de Marie. Em troca, ele propõe-se tomar conta do Armazém Central.

Mas quando a aldeia acorda, o pânico instala-se. Marie partiu e ninguém sabe se volta. Serge recusa-se a ter o Armazém Central aberto todo o dia e estipula um horário de abertura ao sabor da sua vontade. E não há aprovisionamento! O que está nas prateleiras é o que se pode vender. Nada mais!

E quando o povo se revolta, acusando Marie de todos os seus males, é Gaetan, o tontinho da aldeia, que os mete todos na ordem. Inclusive ao cura Beauregard.

O tempo passa… a situação é desesperante. Na aldeia falta tudo, não há nada! E não há sinal de Marie…!

Pode dizer-se que este é o álbum da grande reviravolta. Reviravolta na maneira como os habitantes de Notre-Dame-des-Lacs percepcionam Marie. Reviravolta no destino de Marie e de Serge e no seu percurso de aprendizagem. Reviravolta na caracterização consciente que todos passam a fazer do Armazém Central.

A imagem da pobre viúva abnegada, amiga de todos, que coloca as necessidades da comunidade acima das suas, cai por terra. Os aldeões já não a olham com o mesmo olhar.

Marie parte sem olhar para trás. Magoada, humilhada, mas ainda com uma centelha de vida no olhar. Por entre o ruido dos néons da grande metrópole, ela e Jacinthe vislumbram um novo mundo com o olhar fascinado de duas inocentes.

Serge fica para trás, conscientemente. Afinal, ele já viu bem mais que Marie e Jacinthe juntas. Mas há sempre algo novo onde pode recair o olhar. E para Serge é a raiva que os habitantes da aldeia passaram a nutrir por Marie. Logo Marie, que sempre ajudou todos!

E, por fim, o coro de habitantes de Notre-Dame-des-Lacs, a custo, acaba por perceber a importância extrema não só do Armazém Central para o bom equilíbrio da sua aldeia como a importância única da própria Marie. Um novo olhar que pode ter chegado tarde demais…

Em termos narrativos, a maneira como tudo isto é conseguido deve-se, como sempre, à mestria de Loisel e de Tripp.

Sob a capa da truculência, as emoções e a ternura imperam, apesar do ambiente revoltoso na aldeia. A humanidade parece sempre conseguir desembaraçar-se dos safados e ficar com a parte de leão da vida.

E, como já se disse, não há propriamente fogos de artifício. Ninguém nos revela que o pai de Marie era um elfo que vivia entre humanos ou que Serge é um agente adormecido do planeta Xantaris 306 ou que Gaetan é um espião russo que se faz passar por tontinho. Não! Todos são o que são e têm de lidar com isso! Com as suas escolhas e respectivas consequências, mas também obrigações. E se deixamos que as nossas vidas se pautem, sobretudo, por pulsões, corremos o risco de cometer demasiados erros e, como tal, de magoarmos e decepcionarmos. E esta é uma das grandes lições de Armazém Central.

A outra lição é a de que, usando dois clichés, se a união faz a força, uma só pessoa pode fazer a diferença. Se não, vejamos! Depois de Marie abandonar Notre-Dame-des-Lacs, instala-se o caos. O Armazém Central está fechado. Falta tudo. Não há café, flanela, velas, pregos… Nada! Gaëtan sente-se desamparado. Serge está sobrecarregado. O cura Beauregard questiona a sua fé. Marceau é saco de pancada de todos. Adele sofre de arrependimento por ter tratado a melhor amiga como tratou. Afinal, Marie faz a diferença!

Agora todos querem ter notícias de Marie. Mas há meses que Marie não dá sinal de vida. E não o faz porque se agarrou a ela… À vida! A milhares de quilómetros de distância, Marie metamorfoseia-se, abandona-se aos prazeres e parece esquecer a aldeia. Enquanto isso, Notre-Dame-des-Lacs parece ter perdido a alma.

Com uma doçura plena de emoção, olhares plenos de humanidade, os autores contam-nos a mais bela das histórias – de como dar importância aos pequenos nadas da vida. Os silêncios, os sentimentos fortes, as trocas de olhares cúmplices. Os olhares, precisamente! É um dos truques narrativos e gráficos que os autores utilizam com excelência para nos fazerem chegar a sua mensagem. Não se pode deixar de sublinhar a beleza e o realismo dos olhos e dos olhares nesta obra. São ambos admiráveis, não só pela expressividade, mas também por aquela impressão de humidade que os faz brilhar e que parece sussurrar a história.

Por fim, esta segunda história mostra-nos as consequências de reagirmos a quente. Deslizar para os braços de qualquer um sem reflectirmos ou passar para outro plano um dos nossos, ignorando a sua amizade, tem como resultado efeitos de que não estamos à espera.

Neste microcosmo, todas as emoções são-nos ternamente passadas. Simpatizamos, escondemos, silenciamos, fraternizamos, detestamos, perdoamos, mas, sobretudo, amamos. E é esta a grande força desta obra-prima da 9.ª Arte. Tudo é simples… Simplesmente mágico… Como a intensidade do sussurro dos olhares!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.