Adaptação do romance de Knut Hamsun.

Fome (Sult, no original) é um romance do norueguês Knut Hamsun que foi publicado pela primeira vez em junho de 1890 por P.G. Philipsens. É considerado um dos principais romances noruegueses, no sentido em que é um percursor da literatura moderna com uma forte componente psicológica, manifestada pelo seu monólogo interno e lógica bizarra, tendo antecipado e influenciado a obra de nomes como Franz Kafka, Albert Camus ou John Fante. Na obra, considerada semiautobiográfica, o leitor acompanha o definhar de um jovem escritor até perto da loucura, como um resultado da fome e da pobreza na capital norueguesa.

A propósito de Fome, editada em Portugal pela Cavalo de Ferro em 2008, escreve Paul Auster no seu prefácio “o seu narrador — herói como o Raskolnikov de Dostoievski — não é tanto um desfavorecido mas um monstro de arrogância intelectual. A piedade não desempenha qualquer papel em Fome. O herói sofre, mas unicamente porque decidiu sofrer.”

Trinta anos mais tarde deste romance, com o qual se tornou conhecido, Hamsun seria galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. O seu trabalho literário continua, atualmente, a ser tido em alta consideração, tentando os seus admiradores separar as obras do seu autor, dadas as suas simpatias com o regime nazi, que, inclusivamente, após o desfecho da II Guerra Mundial, levaram a que fosse preso e condenado.

Fome tem tido várias adaptações. No cinema, a sua primeira adaptação – A Fome (1966), realizado pelo dinamarquês Henning Carlsen – foi galardoada com importantes prémios em diversos países europeus e nos EUA. Seria novamente adaptado ao cinema pela norte-americana Marie Giese (Hunger – 2001). E o filme grego To agori troei to fagito tou pouliou, realizado por Ektoras Lygizos também é vagamente inspirado no romance.

Quanto à banda desenhada que a Cavalo de Ferro edita este mês, é da autoria do norueguês Martin Ernsten, tratando-se do seu primeiro livro de BD editada no nosso país. No entanto, para os que seguem as publicações de autores portugueses em antologias europeias, poderão ter tido contacto com o autor n 67.º número da antologia eslovena Strip Burger (2016), onde figuravam obras de Ana Braga e Bruno Borges. Em 2019, o autor foi galardoado com o Bragenprisen por esta obra, editada originalmente nesse mesmo ano pela Minuskel.

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Eis a sinopse da editora:

Obra inaugural da grande literatura moderna, Fome, do prémio Nobel de Literatura Knut Hamsun, foi publicado há mais de um século. Numa abordagem tão fiel quanto original ao romance de Hamsun, o artista norueguês Martin Ernstsen adapta para novela gráfica esta história protagonizada por um jovem escritor que deambula faminto e delirante pela cidade de Kristiania, oferecendo ao leitor uma experiência estética e literária singular.

Knut Hamsun (1859-1952), escritor norueguês, era provavelmente o mais influente autor europeu no ano em que lhe foi atribuído o prémio Nobel de Literatura, em 1920. Thomas Mann, André Gide, Máximo Gorki, Franz Kafka ou o jovem Hemingway contavam-se entre os seus incondicionais admiradores. O uso que fez da subjetividade e do monólogo interior, aliados a um forte lirismo e a temáticas absolutamente inovadoras à época, fizeram de romances como Fome (1890), Mistérios (1892), Pan (1894) ou Victoria (1898) obras-primas e marcos no início da modernidade na literatura. Mestre inovador do romance psicológico, com a viragem do século, Hamsun prefere abordar temáticas sociais e históricas mais vastas, oferecendo nas suas obras uma particular visão do mundo, que se consubstancia numa crítica feroz à modernidade e ao progresso, considerados fontes da degradação do Homem, exortando, pelo contrário, o retorno deste a uma vida simples e salutar, em comunhão com a natureza. Máximo exemplo desta viragem é a publicação do romance Os Frutos da Terra (1917), cujo enorme sucesso numa Europa pós-bélica valeu em grande medida ao autor a atribuição do prémio Nobel. A seguir a este, a sua carreira literária prolongou-se por mais trinta anos, destacando-se deste período sobretudo a trilogia constituída pelos romances Landstrykere (1927), August (1930) e Men Livet Lever (1933). Figura controversa, Hamsun conheceu tanto a glória literária quanto, no final da sua vida, o mais aceso repúdio dos seus contemporâneos, o qual se ficou a dever às simpatias do autor pelo regime nazi e apoio público ao governo fantoche formado após a ocupação da Noruega. Uma vez terminada a guerra, tais posições valeram-lhe o julgamento por traição. A sua provecta idade salvou-o de uma condenação à pena capital, mas não da confiscação de todos os seus bens e do isolamento social. Acabaria os seus dias na mais completa pobreza. As suas Obras Completas, reunidas em 15 volumes, seriam publicadas em 1954, dois anos após a sua morte. 

Martin Ernstsen (1982) possui um mestrado em Contador de histórias pela Faculdade de Belas Artes de Estocolmo. Publicou na editora norueguesa Jippi várias coleções de banda desenhada, tais como Fugløya, Kodok’s Run e Eremitt. A sua adaptação para banda desenhada de Fome foi distinguida com o Prémio Brage, em 2019, e traduzida em diversos países. Escreveu ainda dois livros de contos infantis e tem participado em diversas antologias, tanto na Noruega como no estrangeiro.

Fome (baseada na obra de Knut Hamson)
Martin Ernsten
Editora: Cavalo de Ferro
Páginas: 232, cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 280 x 210 mm
ISBN: 9789895646678
PVP: 24,99€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.