Análise de Blacksad vol. 6: Então Tudo Cai – Primeira Parte.

Sempre senti uma certa empatia, e até conforto, ao ler policiais da linha noir ou ao assistir a filmes noir. Talvez porque uma das características de uns e de outros seja a de que o detective privado deixa que os seus pensamentos, metamorfoseados em narrativa, surjam como uma espécie de diálogo sem resposta com o leitor ou o espectador. No fundo, o noir coloca-me sempre ao lado do protagonista da forma mais íntima possível, ou seja, dentro do seu pensamento.

E é precisamente isto que sinto ao ler cada volume da série Blacksad. A convite de John Blacksad, acabo por participar na história numa espécie de tempo real, mesmo ao lado do protagonista e antes mesmo que todos os outros intervenientes saibam o que se está a passar.

E como qualquer fã desta série, sou obrigado a adoptar um dos predicados que definem um bom detective privado: a paciência! É que em 22 anos, a série criada em 2000 pela pena de Juan Díaz Canales e pelo pincel de Juanjo Guarnido (ver o artigo Quando se sabe contar uma história… temos excelência!) vê agora ser publicado o sexto álbum. Apenas 6 em vinte e dois anos! Mas todos eles de uma qualidade narrativa e artística superior.

Esta série, de policiais intrincados, e sempre com mensagem social, é hoje incontornável e considerada já um clássico da 9.ª Arte.

Precisamente agora, o gato detective, sempre envergando o seu fato sedutor, regressa às ruas sombrias de Nova Iorque dos anos de 1950, ao género de Philip Marlowe, o herói de Raymond Chandler, e como este, no estilo hard-boiled que caracteriza o policial realista, mas sempre envolto no véu noir.

Um dos segredos do sucesso da série é o antropomorfismo patente em todos os personagens através do extraordinário talento artístico de Guarnido e dos argumentos de Díaz Canales, dignos dos melhores policiais.

Preparem-se então para viajar pelo 6 volume da saga de Blacksad, Então, Tudo Cai – Primeira Parte.

Vamos à história!

O dia de Outono está solarengo. Em Central Park, as folhas castanhas anunciam para breve a chegada do Inverno. E embora o sol tenha convidado milhares de nova-iorquinos para um passeio no parque, apenas uma voz se destaca entre a multidão. É a de um actor em plena representação no festival “Shakespeare in the Park”. Na assistência está John Blacksad, estendido na relva, e o seu amigo Weekly, repórter do What’s News.

De súbito, a peça é interrompida pela ordem “A representação acaba aqui.” É o tenente da polícia, acompanhado por outros agentes, que invade o palco. Segundo ele, o espectáculo é ilegal e deve cessar. A multidão insurge-se e adivinha-se uma batalha campal. Vale a intervenção de Blacksad que conhece o tenente de outras aventuras. “Só faltava este…”, exclama o policial. Mas Blacksad mantém o seu charme e, juntamente com Iris Allen, a directora da companhia, consegue convencer o agente da autoridade a deixá-los representar o último acto da peça, com a promessa dela o acompanhar mais tarde à esquadra. Blacksad aproveita para lhe entregar o seu cartão de visita, não vá ela precisar algum dia dos seus serviços.

A representação prossegue sem incidentes. O público aplaude com entusiasmo efervescente. No fim, Weekly desloca-se aos bastidores com o pretexto de ajudar a arrumar as coisas, mas, na verdade, o que ele quer é conhecer a actriz que tem debaixo de olho, Rachel Zucco, ela própria jornalista, embora em jornais alternativos. Acabam por combinar um encontro para mais tarde. Ele pretende acompanhá-la à redação do What’s News e entregar o currículo dela ao Director.

Entretanto, John Blacksad regressa a casa. No caminho, ao passar por um beco mal iluminado, apercebe-se que três vultos estão prestes a agredir um qualquer pobre coitado. Num ápice, John dá bom uso aos seus punhos e põe os três para dormir. “Suponho que tenha um bom motivo para ter vindo parar a estas bandas…”, diz John ao homenzinho que acaba de salvar. Este limita-se a devolver-lhe o cartão de visita que Blacksad tinha dado a Iris Allen umas horas atrás. Ele é Kenneth Clarke, presidente do sindicato dos trabalhadores do metro, também conhecidos como “toupeiras”, e precisa da ajuda do detective. Os dois falam então de Solomon e dos seus projectos de remodelação urbanística. Kenneth sente-se ameaçado. A mafia das doninhas está no seu encalço. Contratou um assassino a soldo para o liquidar. E Kenneth precisa que Blacksad o ajude antes que seja tarde demais…

Este é o regresso muito desejado de Blacksad, oito anos após a última aventura. Díaz Canales, como é seu hábito, propõe-nos um argumento cuidado e preciso, sem problemas em levar o seu tempo para situar personagens e história. A partir do momento em que tal é alcançado, a narrativa corre célere e cheia de acção, com momentos de respiração que lhe granjeiam, precisamente, o tom noir característico.

Canales retoma os personagens de Solomon e dos seus esbirros e assim dá-nos os motes da trama — corrupção, traição, chantagem, tudo envolto num fundo de capitalismo selvagem.

E é interessante como nos mostra a oposição deste mundo da superfície, cheio de luz, mas sórdido, e o mundo subterrâneo, as entranhas da cidade, na penumbra, mas solidário. E é aqui, no meio dos operários oprimidos naqueles confins irrespiráveis, que Blacksad se vai infiltrar a pedido de Kenneth Clarke, o presidente do sindicato dos trabalhadores do metro. Quase sentimos, por entre a cor alaranjada da fraca luz, o Coro dos Escravos da ópera Nabucco, de Verdi. Nos subterrâneos de Nova-Iorque, tal como na ópera de Verdi, as primeiras palavras do coro são igualmente apropriadas: “Va, pensiero, sull’ali dorate” (Vá, pensamento, sobre as asas douradas).

Para além de personagens já conhecidos, Canales aumenta a galeria de intervenientes das suas aventuras. Com Iris Allen e o seu teatro, logo no início, ele dá-nos uma falsa ligeireza, de curta duração. O mesmo acontece com Weekly, que enfrentará novos desafios profissionais menos arriscados que o costume, ao mesmo tempo que solta a sua paixoneta pela bela Rachel Zucco. Canales leva-nos ao engano com a sua narrativa e Juanjo Guarnido faz o mesmo com os seus personagens risonhos e as cores vivas e luminosas com as quais encena o começo da trama.

Sol de pouca dura! Rapidamente mergulhamos nos pensamentos profundos de John Blacksad e nos ambientes pesados e violentos que vão enchendo as morgues de Nova-Iorque. É o género noir e hard-boiled no seu melhor.

O policial realista (que nem por isso deixa de ser poético), envolvendo a mafia, os sindicatos, os magnatas sem escrúpulos, poderá parecer árido, mas não nas mãos de Canales e Guarnido! Tão rapidamente mergulhamos de cabeça nos subterrâneos da metrópole em plena expansão, como ascendemos às mais altas esferas da sociedade, num banho de loucura onde se sucedem as mortes. Tudo envolto em grande inventividade narrativa, muitas vezes composta de verdadeiros duelos de elocução, por vezes corrosivos, por vezes ternos. E os acontecimentos dramáticos que se vão sucedendo resultam de uma sede incontrolável de poder, de ambições desmedidas e de um desejo excessivo de ganho, representando com rudeza os recantos sombrios da sociedade americana dos anos 50.

A par da excelência da narrativa, temos a excelência artística de Guarnido. Desde logo pelo personagem central que visualmente criou. O detective privado, felino aprumado, de olhar penetrante, sempre alerta e pronto a intervir, perspicaz e de espírito vivo que pende entre Philip Marlowe e Humphrey Bogart. E que, por vezes, até é visto na companhia de uma Lauren Baccall felina, como a seguir se apresenta.

Mas não é só Blacksad; é toda uma galeria de personagens nas quais o antropomorfismo é levado ao que mais tem de belo e de expressivo, levando-nos numa viagem entre a nossa infância e a idade adulta. O traço extraordinário de Guarnido mistura homem e animal, criando uma espécie hibrida, indefinível, de personagens que só podemos adjectivar de Guarnidos.

Os rostos são de uma expressividade ímpar, o movimento é constante e a encenação é brilhante. Como são também brilhantes o jogo de cores directas em aguarela.

Uma palavra para a cuidada reconstituição de época onde todos os pormenores contam. Por isso, depois de uma primeira leitura, cada vinheta merece ser contemplada com cuidado, pois até velhos cartazes afixados nas paredes têm histórias a contar.

Pelo talento narrativo, pelo talento artístico, este novo policial noir da dupla espanhola merece bem a classificação de noir iluminado!

Resta-nos aguardar, com paciência, a continuação desta obra formidável e indispensável para todos os apreciadores de boa literatura desenhada.

E penso que a espera vai valer a pena, até pelo que o título indicia: Então, tudo cai!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.