Análise de Astérix e o Grifo.

Se olharmos em retrospectiva para a vida do pequeno gaulês, são muitas mais as aventuras extraordinárias do que as que menos encantam.

E é esse o caso do novo álbum de Astérix, o 39.º, que a ASA acaba de publicar. Astérix e o Grifo é mais um Astérix extraordinário que vai directo para o panteão das memórias dos leitores, despertando saudosismos nos mais velhos e criando mundos novos aos de menor idade.

Se queremos um Astérix que não ignore os cânones criados por René Goscinny e Albert Uderzo em outubro de 1959 quando se estreou na revista Pilote… Se queremos um Astérix tão tradicional quanto inovador… Se queremos um Astérix a par dos temas da contemporaneidade… Então temos de ler esta nova aventura, cientes, desde o começo, que não ficaremos defraudados, excepto pelo facto da história terminar nas tradicionais 44 páginas.

Honra seja feita a Jean-Yves Ferri (argumento) e a Didier Conrad (desenho) que são aqui, em todos os sentidos, dignos sucessores de Goscinny e de Uderzo.

Sendo assim…

Vamos à história!

Estamos no ano 50 antes de Cristo. Roma já conquistou mais de meio mundo conhecido. E, para além da pequena aldeia de irredutíveis gauleses, é o mundo a Leste de Roma que se mantém inconquistado.

Mas agora, Desonrientadus, o geógrafo oficial de Júlio César, convence-o que nas terras distantes do Leste, infestadas de bárbaros, existe uma besta lendária que fará furor nos jogos do Circus Maximum, a par com as melhores lutas de gladiadores: o Grifo.

Para além dos escritos do conceituado explorador grego Dosamais de Colagénio, Desonrientadus tem também o testemunho de uma amazona Sármata, capturada nas fronteiras do Barbaricum e, precisamente, adoradora do Grifo. Com estes dois trunfos, Desorientadus convence César a organizar uma expedição com o intuito de capturar o animal e aumentar a popularidade do ditador.

Meses mais tarde, legionários romanos atravessam as estepes geladas do território Barbaricum. São conduzidos por Desorientadus, pelo centurião Taliqualus e o venator Suprassumus, este já habituado a caçadas (falhadas) a bestas lendárias, como o Ciclope. Com eles levam Kalachnikovna, a prisioneira Sármata, sobrinha do xamã local.

Ao mesmo tempo que os exaustos legionários avançam por território inexplorado, o xamã Karnanteskeukine (bolas!!!), que pedira socorro telepático ao seu amigo, o druida Panoramix, está prestes a recebê-lo bem como a Astérix, Obélix e Ideafix.

Na verdade, durante um dos seus estranhos transes, o xamã viu que o animal sagrado da sua tribo, o Grifo, estava ameaçado por estrangeiros vindos do Ocidente. Mas a sua magia e o seu tambor permitiram-lhe ver que a solução para os seus problemas viria do “mais pequeno dos gauleses”, prestes a socorrê-los.

E é assim que Astérix, Obélix, Ideafix e Panoramix acabam a ser calorosamente recebidos pela aldeia de Karnanteskeukine (Bolas!!! Bolas!!!). Mas se o xamã esperava a providencial ajuda gaulesa, a sua magia não conseguiu prever o maior dos contratempos: com o frio cortante, a poção mágica congelou. E uma vez congelada, ela perde por completo todas as suas virtudes…

Um dos méritos das aventuras de Astérix é o de poderem ser apreciadas por leitores de todas as idades. Desde Astérix o Gaulês (a primeira aventura), as histórias são sempre, na leitura imediata, simples e lineares. Mas nada há de mais enganoso na saga do herói criado por Goscinny e Uderzo. E o mesmo continua a acontecer agora pelas mãos de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Na verdade, se os mais novos encontram aqui uma história descomplicada e muito divertida, os mais velhos poderão apreciar a complexidade da mesma, as inúmeras referências nela contidas e, tal como os mais novos, divertirem-se também.

Como acontece regularmente nas aventuras de Astérix & Cia., a dupla auto expatria-se, correndo a sua saga por terras estrangeiras à sua amada Gália. Desta feita partem para o território dos Sármatas, algures no actual Cazaquistão. O objectivo é a caça (ou defesa) do animal lendário da mitologia grega, meio leão, meio águia, que dá pelo nome de Grifo.

E é este grifo que abre a porta à temática central da narrativa de Ferri: a manipulação, as fake news (ou melhor, notícias falsas), as teorias da conspiração, de que falaremos mais à frente.

Assim, por trás da história aparentemente simples, temos em Astérix e o Grifo os grandes temas da actualidade como as fake news, as crenças e superstições, o lugar das mulheres na sociedade e a inversão dos géneros.

Quanto às crenças e superstições, Ferri baseou-se naquelas existentes à época da aventura. Os romanos acreditavam na existência de guerreiras amazonas no Grande Leste. E também acreditavam na existência do Grifo, embora o chamassem de Tarasca. E estas ou outras crenças, com mais ou menos superstição, servem para ilustrar o que cada um, em tempos de Facebooks, de cultura nivelada por baixo e massificada, prefere acreditar.

Na narrativa de Ferri, se os romanos parecem ser os racionais e os gauleses os românticos, isso pouco importa. Então como agora, todos são contadores de “histórias”, inventores. A diferença está na maneira como se aceita a “realidade” quando ela nos entra pelos pergaminhos ou pelos telemóveis adentro. Se os romanos se mostram obtusos, idiotas e supersticiosos, já os gauleses são ardilosos, corajosos e… Supersticiosos. A superstição é equitativamente partilhada. A diferença é que os romanos são desiludidos pelas descobertas que fazem, pois elas não correspondem às suas expectativas, enquanto os gauleses apenas se maravilham com elas.

Este é um álbum no qual Astérix, Obélix, Ideafix e Panoramix correm, talvez, o maior perigo das suas vidas. Senão, vejamos: não há poção mágica, Ideafix desapareceu e Panoramix está gravemente engripado. Recai sobre os ombros dos nossos dois protagonistas a tarefa hercúlea de proteger os territórios do Leste, alvo dos desejos de conquista dos romanos que ignoram ainda que, um dia, Napoleão e Hitler aprenderão a custosa lição de que não se sai impune da conquista da “zona branca”.

Chegamos assim ao segundo grande tema deste álbum: o papel das mulheres na sociedade e a inversão de géneros.

Para espanto dos gauleses, a sociedade com que se deparam é matriarcal. As mulheres fazem a guerra e os homens ficam em casa. É uma sociedade contracorrente, onde as mulheres têm um estatuto dominante de guerreiras nómadas e os homens tratam da lida doméstica e dos filhos. É curiosa a inversão de clichés e dos géneros, sendo que muda o sexo, mas fica tudo na mesma! As tácticas das guerreiras amazonas versus a diplomacia masculina gaulesa. E nem por isso Obélix deixa de conquistar o coração da sármata Krakatovna.

O terceiro grande tema é o das fake news, da manipulação e das teorias da conspiração.

Quer seja através de um legionário intriguista e desbocado que dá pelo nome de Feikenius ou através dos xamãs sármatas que fabricam histórias para se protegerem dos romanos, este álbum não é meigo com a época contemporânea. É que se romanos e gauleses percorrem um vasto mundo desconhecido e as suas crenças até parecem naturais, na nossa época temos menos com que nos desculparmos!

É aqui, nas notícias falsas e na manipulação, que o humor de Ferri atinge o seu nível mais apurado. Sobretudo na figura do legionário Feikenius que vê problemas onde só há evidências (“Eu cá sempre achei suspeita essa história do sol que nasce a Leste uma vez por dia! E onde é que o sol se mete o resto do tempo, hem?”). Semeador de dúvidas, propagandista da desconfiança, ele ostenta uma enjoativa cor esverdeada, como se as suas próprias patranhas o deixassem nauseado.

Mas em matéria de fake news, também César deu o seu contributo. Não afirmou ele na sua “Guerra das Gálias” que deambulavam unicórnios pela Germânia? Daí a supor que andam grifos pelas estepes, que uma poção mágica dá a quem a beba a força suprema ou que o céu nos pode cair na cabeça a qualquer momento, é um saltinho! E por aqui fechamos o ciclo e voltamos às crenças e superstições.

Mas, para além destes três temas centrais, há uma série de intrigas secundárias e legiões de trocadilhos e de nomes originais que, se já são bons no original francês, melhor são na adaptação ao português feita pela habitual e experiente dupla de tradutoras de Astérix.

O humor é uma constante e tem o mérito de estar perfeitamente integrado na história, embora com uma ressonância bem actual. Não a trava e antes a faz correr mais rápido. Desde os dois citas que, ironicamente, servem de guias aos romanos, passando pela chegada a uma nova aldeia com uma população inteira a baptizar, às tácticas das amazonas em oposição à diplomacia gaulesa, até à fuga de Ideiafix em direcção às suas origens selvagens de macho alfa, estamos perante mais humor do que todos os javalis devorados durante um jantar gaulês.

E é fruto da minha imaginação ou até há uma piscadela de olho a Tintin? É que se Jean-Yves Ferri lança os nossos heróis no grande frio sob determinado pretexto, também Hergé o fez em Tintin no Tibete. Depois de um sonho inquietante, Tintin parte para as montanhas congeladas do Tibete em socorro do seu amigo Chang. O mesmo acontece com Panoramix que sonha com o seu amigo Karnanteskeukine, xamã nas vastas estepes do Barbaricum e a precisar de ajuda urgente.

Quanto a Didier Conrad, o seu traço é pura magia. E se parece libertar-se muito ligeiramente da sombra tutelar do grande Uderzo, com um traço cada vez mais vivo e dinâmico e um pouco mais anguloso, por outro lado, respeita na perfeição o “caderno de encargos” criado pelo mestre, com o dinamismo e expressividade a que estamos habituados.

Mas Conrad vence também o grande desafio de conseguir ilustrar com interesse e sempre com detalhe aquilo que é do mais difícil de ilustrar: a imensidão branca e monótona da estepe congelada. Se nos pode assustar a alvura total da primeira vinheta da página 7, rapidamente percebemos que o branco cegante da neve é amenizado por reflexos azuis, por detalhes florestais em segundo plano ou pelas cores gritantes das fatiotas dos sármatas e dos romanos.

Por fim, também não faltam os personagens que mimam em forma de caricatura personalidades do nosso quotidiano e que sempre foram imagem de marca dos álbuns de Astérix.

Desde logo, temos dois. Um Charles Aznavour transformado em pequeno pirata na última vinheta da página 46. E um Desorientadus que em todas as linhas é o rosto de Michel Houellebecq, o famoso escritor francês, como em seguida se pode constactar.

Em síntese, temos temas actuais, temos riso, jogos de palavras (muitos), inúmeras referências para quem as perceba e um grafismo que percebemos tão actual como o era em 1959 quando surgiu Astérix. Até a inevitável vinheta com os piratas não foi esquecida.

Criado há mais de sessenta anos por René Goscinny e Albert Uderzo, Astérix é hoje mais que um ícone, é uma verdadeira instituição, ainda mais que Tintin, pois as suas aventuras continuam pelas mãos de outros autores. Glosando um pouco a máxima académica anglo-saxónica de “publica ou morre!” pode dizer-se em relação à literatura e, especificamente à 9.ª Arte, “mantem-te vivo ou morre!”

Não morrendo, Astérix é hoje uma das séries de BD mais vendidas e mais conhecidas em todo o mundo. A publicação de cada novo álbum é um verdadeiro acontecimento. E este 39.º álbum é o primeiro a aparecer após a morte do último dos criadores de Astérix — Albert Uderzo — em março de 2020. Mas Uderzo foi inteligente e não permitiu que Astérix morresse consigo. Preparou o terreno durante alguns anos e, desde o 35.º álbum, a dupla composta por Ferri e Conrad perpetuam o espírito do pequeno gaulês bigodudo e do seu amigo “possante”, entregador de menires.

Quase nos atrevemos a dizer que, enquanto Astérix não morrer, nós também não…!

Enfim, uma boa aventura que passa um pouco rápida demais, como é o caso com todas as boas aventuras!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.