De Eleonora Marton.

A Comichão, de Eleonora Marton, é um livro perfeito para originar as mais diversas trocas de ideias sobre diferentes assuntos. Tal como as mais diferentes obras, pode originar uma leitura mais próxima do pensamento concreto (o referido prurido lombar na sinopse da editora) ou do raciocínio abstrato, para o qual contribui também os diferentes significados do termo “comichão”, como conta a própria autora:

A ideia para A Comichão surgiu de uma pequena ilustração que fiz de um alvo vermelho num fundo rosa com as palavras «RIGHT HERE» (aqui mesmo) no centro, como se fosse a posição exata de um ponto irresistível na pele“, explica a Eleonora Marton. “Decidi que queria expandir o conceito, ilustrando o processo até chegar ao «THERE» (aí) e o livro pareceu-me o formato perfeito para isso. No meu trabalho, as palavras são quase sempre o ponto de partida. Escrevo pensamentos, slogans, trechos de uma conversa. Gosto de brincar com estes fragmentos de texto de forma associativa e adicionar-lhes algo que destaque, mude ou confunda o seu significado. Este elemento extra pode ser uma ilustração ou simplesmente a forma como as palavras e letras operam formalmente num determinado espaço. Quando o texto se transforma em imagem ou parte de uma imagem, o meu olhar é imediatamente atraído, o meu desejo de ler e criar sentido torna-se uma comichão premente que preciso de coçar.”

A estas leituras, o leitor poderá sempre adicionar outras, mais centradas nele que na própria obra apresentada, desde questões relacionadas com a sustentabilidade (poderia ter menores dimensões, sem danificar a narrativa?), da interpretação (e se o que está representado não é a pele mas sim uma mucosa num momento de intimidade a dois, as frases continuam a fazer sentido?) ou, entre tantas outras, questões decorrentes do próprio apreço que o leitor confere a este livro.

Sendo todos esse caminhos válidos para explorar a obra, o final da leitura trouxe-nos uma questão. Como classificar este livro? Neste caso, como na maioria das vezes, a resposta é pouco relevante, sendo mais importante a discussão sobre a mesma. Se bem que a conclusão a que se chegar terá uma consequência estatística.

Nas múltiplas classificações dedicadas aos livros, podemos fazer uma distinção entre os livros com ilustração e os livros propriamente ilustrados. Nos primeiros, a ilustração é um adorno dispensável, sendo o texto que sustenta a narrativa. Inclusivamente, se esse livro tem diferentes edições, pode apresentar ilustrações (e ilustradores) completamente distintas, representando inclusivamente cenas diferentes da estória em cada uma das edições, bem como edições em que não exista nenhuma ilustração no livro.

Nos denominados livros ilustrados (ou de ilustração), a narrativa articula texto e imagem. É verdade que se as ilustrações não são realizadas pelo autor do texto, em última instância, será sempre possível existirem edições com outros ilustradores, cada um interpretando o texto ao seu modo, mas tal facto não altera que o texto não funcione per se se não existir nenhuma ilustração ou que tal gere um grande comprometimento da narrativa em questão.

Neste caso, como se pode visualizar nas imagens infrarreproduzidas, o discurso decorre em voz off. E é o próprio texto que se converte no protagonista da ação, percorrendo o espaço delimitado pelas bordas das páginas. O texto torna-se imagem. E, portanto, estamos perante um livro de ilustração, correto?

Pode-se argumentar que a narrativa funcionaria se se tratasse de um texto datilografado em páginas em branco? Basta recordarmos o que alguns autores realizaram com a disposição dos textos nos seus poemas para todos concordarmos. O que seria perdido seria o fundo das páginas (a epiderme?), sempre diferente em cada página (mas que, para todos os efeitos, poderia ser idêntico página a página). A obra funcionaria sem o fundo ilustrado? Acredito que sim. Trata-se, portanto, de um livro com ilustração (sendo, afinal, a ilustração o fundo e não se tendo convertido o texto em imagem) e não de ilustração? Esta pergunta evidencia o quão as definições são limitadas e podem gerar as mais diversas conclusões. Mas, como referimos, pouco importam as respostas, pois são as questões que nos ajudam a refinar conceitos e raciocínios.

E se incluirmos a questão da banda desenhada, todos as bases se tornam mais pantanosas. Poder-se-ia pensar que a tentativa de definição de livro de ilustração previamente apresentada incluiria facilmente a banda desenhada, ao evocar a articulação entre texto e imagem. No entanto, sendo um meio com uma linguagem própria e distinta daquele, como se faz a distinção? Frequentemente, utiliza-se o conceito de comparticipação de imagens (para a constituição das vinhetas em cada prancha/página) e a articulação entre as mesmas. No entanto, há BD que se estende até às margens das páginas, há BD em que cada vinheta é uma prancha, há BD que não usa balões nem outros signos característicos do meio, há BD que… Há BD que… Há BD que… E, no limite, a fronteira entre livro de ilustração e banda desenhada pode tornar-se muito ténue, com livros que são classificados de uma forma a gerarem dúvidas quanto à sua classificação nos que se ocupam da reflexão sobre estas questões.

À primeira vista, pode parecer uma provocação, depois de visualizarem as imagens dispostas em baixo, questionar se A Comichão é um livro de banda desenhada. Mas, para os que já leram os nossos artigos sobre a nossa posição no que toca às séries Imagens que Contam e Desconcertinas da Pato Lógico, sabem que os consideramos de banda desenhada muda, apesar de serem frequentemente classificados como livros de ilustração.

Para pensarmos neste livro como de banda desenhada, temos de fazer um exercício inverso daquele que fizemos quando evocámos o poema, no qual considerámos as palavras como um texto datilografado numa página em branco ou colocadas sobre uma ilustração. Tal como a própria autora refere, considere-se agora a conversão do próprio texto numa imagem ou parte de uma imagem. Para facilitar, imagine-se que, em vez de texto, naquele exato local, se encontrava uma formiga ou uma pessoa a caminhar. Nesse caso, quanto a nós, advogaríamos estar perante uma banda desenhada muda, tal como nas séries mencionadas, com as splash pages a ocupar toda a folha, sem margens.

E, se em vez, da formiga for um texto-imagem, que, inclusivamente, por vezes se altera como se tratasse de um personagem transmorfo? Se for esta imagem-texto, cujo movimento, na questão concreta do prurido lombar, representa a posição da mão do terceiro que coça as costas, como se classifica a obra? Banda desenhada? Livro de ilustração? Livro com ilustração?

Qualquer discussão que se gere na (vã?) tentativa de classificar a obra certamente ajudará a refinar os conceitos dos participantes. E se gerar comichão, missão cumprida!

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Começa por ser um ligeiro incómodo. Qualquer coisa inalcançável que não permite pensar em mais nada. Até que se torna insuportável e alguém tem de ajudar a resolvê-lo com precisão de mestre. A Comichão é o primeiro livro de Eleonora Marton a ser publicado em Portugal, um guia ilustrado do lugar que todos desejamos alcançar. Esse mesmo, esse onde sentimos comichão nas costas.

Eleonora Marton é uma ilustradora italiana que vive em Londres.

Estudou arte e design na Accademia di Belle Arti em Veneza e agora passa o seu tempo entre projetos pessoais, comissões e livros. Expôs posters e ilustrações internacionalmente. O seu trabalho foca-se e inspira-se no aspetos mágicos, românticos e irónicos do dia-a-dia. As suas ilustrações simples e fortes são muitas vezes acompanhadas de lettering, usando frases curtas para sugerir histórias mais longas. É autora do BIY ABC (Cicada, 2016), Bigger (Cicada, 2017) e Monstres de Maison (Grasset Jeunesse, 2020). A Comichão é o primeiro trabalho que publica em Portugal.

A Comichão
Eleonora Marton
Editora: Pato Lógico
Páginas: 32, a cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 27 x 20 cm
ISBN: 978-989-54738-5-4
PVP: 13,50€

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.