Crónica de uma entrevista.

10 de dezembro de 2021. A zona ribeirinha do Parque das Nações, mais exposta aos elementos, não estava propriamente convidativa naquele dia cinzento e algo fresco.

Felizmente, tinha refúgio assegurado na monumental Altice Arena, num cantinho designado na Comic Con Portugal 2021 como Auditório Spotlight onde aguardei, com expectativa, a chegada do meu entrevistado acerca do qual pouco ou nada conhecia para além da sua arte (o que já não é dizer pouco!).

É que semanas antes tinha sido convidado pela Maria José Magalhães Pereira (sem dúvida, a mais experiente, bem-sucedida e carismática editora da 9.ª Arte em Portugal e conhecedora de meio mundo e mais uns quantos na área da Banda Desenhada internacional), tinha sido convidado, dizia eu, para entrevistar Peter Van Dongen, um dos desenhadores do mais recente álbum de As Aventuras de Blake e Mortimer.

Enquanto as concorridas sessões de autógrafos decorriam num piso abaixo e os interessados faziam fila para “caçarem” uma dedicatória de, por exemplo, Miguelanxo Prado, os resistentes lá iam ocupando uns quantos lugares do auditório.

Com uma pontualidade britânica, embora seja holandês, surge Peter Van Dongen acompanhado de Maria José Pereira, que faz de anfitriã e se encarrega das apresentações. As breves impressões que troquei com Peter foram as que couberam no tempo de ocuparmos os nossos lugares no “palanque”.

Simpático e acessível, embora de semblante algo contido, Peter mostrou-se conversador e disposto a responder a todas as perguntas, o que me facilitou muito a vida.

As influências

Desde logo, o seu trabalho, que se insere no estilo “linha clara”, foi influenciado tanto por Hergé como por Jacobs e a sua mais antiga memória do criador de Blake e Mortimer remonta à leitura de O Mistério da Grande Pirâmide nos idos anos 70 do século passado, quando tinha 9 anos (Peter nasceu em 1966). Mas, na verdade, a sua preferência ia então para o Tintin de Hergé e para Bob e Bobette de Willy Vandersteen, todos autores da Escola Belga. Desde então, a sua obra, que tem uma personalidade própria, não deixa de homenagear pelo traço os grandes mestres da Banda Desenhada franco-belga do estilo linha clara.

E é precisamente esta uma das razões que tornam ainda mais interessante o seu trabalho em Blake e Mortimer. Mas como é que Peter chegou lá? Como foi ele convidado a continuar o legado de Jacobs?

O começo da aventura jacobsiana

Na verdade, temos de retroceder a uns anos antes da publicação do primeiro volume de O Vale dos Imortais. A Dargaud tinha aberto uma espécie de concurso onde incitava autores a desenharem uma página de teste de Blake e Mortimer, com argumento de Yves Sente, e a submeterem à editora o seu trabalho com o objectivo de uma eventual contratação. O amigo de Peter, Teun Berserik, concorreu, mas o seu trabalho foi recusado. Tempos depois, Teun falou do sucedido ao amigo Peter e este decidiu que Teun devia voltar a tentar, mas desta vez com a sua participação e subvertendo as regras do jogo: em vez de enviarem uma prancha, enviariam duas e sem as distinguirem em termos de autoria. Resultado, receberam um email da Dargaud que lhes dizia o seguinte: “Vocês são os novos desenhadores de Blake e Mortimer!” Mais ainda, seriam os primeiros desenhadores das histórias dos aventureiros britânicos que não pertenciam ao mundo francófono.

O repto de Jean Van Hamme

Desde que, em 1996, as aventuras de Blake e Mortimer foram retomadas, já assistimos a sete equipas de argumentistas e desenhadores tentarem a sua sorte com os icónicos heróis. Das sete, apenas duas estiveram envolvidas em mais de uma aventura: a de Jean Van Hamme e Ted Benoit e a de Yves Sente e André Juillard.

Mas agora, mais uma se junta ao pódio – a de Peter Van Dongen e Teun Berserik.

O mérito é todo deles! O Vale dos Imortais mostrou ao mundo as suas capacidades de mimarem o estilo de Edgar P. Jacobs, e a qualidade e sucesso dos dois álbuns a nível gráfico captou a atenção do célebre argumentista Jean Van Hamme, que pediu à Dargaud o contributo dos dois desenhadores para a história que acabara de escrever: O Último Espadão.

Segundo Peter Van Dongen, o método de trabalho de Van Hamme facilitou-lhes muito a vida. Após escrito o argumento, o mesmo é enviado para os dois desenhadores. À medida que vão executando a découpage, os layouts ou mise en page das pranchas e as páginas acabadas a lápis, enviam o resultado final para o editor, que serve aqui de intermediário entre desenhadores e argumentista.

Van Hamme fez poucos reparos ao trabalho de Peter e Teun, pelo que o mesmo correu mais célere que o anterior com Yves Sente e O Vale dos Imortais. Neste caso, o contacto era directamente com o argumentista e ele era mais interventivo. Já Van Hamme, concedeu-lhes uma liberdade artística ainda maior que a já concedida por Yves Sente.

Pelo menos, no caso de Peter Van Dongen, ajudou ainda o facto de este ser um dos seus períodos favoritos de desenhar – os anos de 1940 e 1950.

Trabalhar em dupla

Poderíamos julgar que, sendo dois os desenhadores do mesmo álbum, ambos trabalhariam em todas as páginas. Mas não é assim que Peter e Teun trabalham.

Na verdade, cada um atribui-se um certo número de páginas que executa na totalidade até à fase de passar o traço a tinta (inclusive). Mas, para se manterem o mais próximo possível do estilo de Jacobs, cada um critica o trabalho do outro de modo a chegarem perto da perfeição. É um braço mais para cima, uma perna mais avançada ou recuada, um plano que deve ser ligeiramente alterado, etc. Aliás, Jean Van Hamme já disse em entrevista que Peter e Teun são exímios a captar a teatralidade que Jacobs imprimia à postura dos seus personagens.

A título de curiosidade, Peter disse-nos que trabalha em frente de um espelho de modo a que a teatralidade de certas expressões seja assegurada pelo seu próprio reflexo.

O peso da tradição

À pergunta “Sente o peso de 75 anos de sucesso mundial às suas costas?”, Peter Van Dongen respondeu simplesmente “Não!”

Mas não se ficou por aqui. Claro que trabalhar personagens que não foram criados por si obriga a uma auto-exigência reforçada. São milhões os fãs que o artista não quer decepcionar. Por isso, a auto-crítica é uma constante no seu processo de trabalho.

Mas, por outro lado, este estilo de desenho surge-lhe quase naturalmente, como disse na entrevista. Sempre desenhou assim, ao estilo “Linha Clara”. Por isso, em termos de estilo, não há esforço.

O esforço maior é mesmo no cuidado aplicado a cada vinheta para que ela se pareça com algo que Jacobs desenharia, em termos de plano, de atitude dos personagens, de enquadramento e de décors.

Sem dúvida, Peter é um digno herdeiro de Edgar P. Jacobs. O respeito pelo mestre é por demais evidente. Mas, nem por isso, deixamos de percepcionar o seu cunho pessoal.

Para além dos cânones

Blake e Mortimer é Blake e Mortimer, Se, por acaso, se desenhar uma pálida aproximação ou variação, estaremos então perante uma outra colecção, um insucesso ou um “fora de série”.

No entanto, argumentistas e desenhadores não têm de estar agrilhoados 100% à tradição e aos códigos da série. E é isso que acontece em O Último Espadão. Mantendo o respeito pela narrativa e desenho clássicos, de igual modo, Van Hamme, Peter Van Dongen e Teun Berserik inovam e conseguem agradar aos leitores mais antigos e aos mais recentes.

Como já se disse no artigo Blake e Mortimer ainda mais British!, os três divertem-se a imprimir o seu cunho no monumento da tradição e a subverterem até alguns códigos da série.

Por exemplo, em apenas duas pequenas vinhetas (a oitava e nona da página 10), Van Hamme e Van Dongen brincam com aqueles que se entretêm a decorrer acerca da eventual homossexualidade dos protagonistas.

E na mesma página, Peter, por sua conta e risco, coloca duas mulheres a jantarem no Centaur Club, ciente que isso seria uma impossibilidade num clube de cavalheiros londrino em 1948. Poucos deram pela brincadeira que não passou despercebida ao olhar clínico de Van Hamme. A bem da veracidade histórica, pediu que, para uma segunda edição, as duas vinhetas fossem redesenhadas e as senhoras fossem trocadas por gentlemen.

Mas há outros dois momentos nos quais os códigos da série são subvertidos.

O primeiro envolve a secretária de Blake no MI5, a Miss Marge Morrisson. Blake pede-lhe, pelo Rei e por Inglaterra, que vá para a cama com um suposto espião infiltrado nos serviços secretos com o intuito não só de o desmascarar como de descobrir a sua missão. E se a alusão directa a sexo (e com humor) já é uma inovação na série, o que dizer da terceira vinheta da página 49 desenhada por Peter?! Marge está dentro da cama, desgrenhada e, nitidamente, a sentir ainda sensações de prazer. A seu lado, mas fora da cama, está o espião, de robe curto, ainda a mimá-la após o sexo. É uma inovação na série, mas, mesmo assim, Peter Van Dongen respeita os códigos de censura vigentes em 1946, altura em que foi publicado O Segredo do Espadão. A rígida regra obrigava a que uma cena de cama tivesse sempre um dos intervenientes fora dos lençóis e com, pelo menos, um pé no chão. E é isso que Peter desenha, sem a isso ser obrigado. Humor, realismo, modernização, embrulhados em tradição.

O segundo momento foi um pedido expresso de Van Hamme aos desenhadores. O Espadão já foi visto em acção no ar e debaixo de água, mas nunca em terra. O argumentista pede aos desenhadores que arranjem a solução técnica pois o Espadão tem de aterrar. Embora Peter e Teun tenham dito inicialmente que tal seria impensável e nunca visto em 75 anos da série, acabaram por lhe colocar três discretas rodas que se enquadram perfeitamente na estética criada originalmente por Jacobs, como se pode ver na penúltima página deste novo álbum.

De volta à tradição

Para além dos personagens, Peter é muito cuidadoso com o desenho de cenários, paisagens, viaturas (automóveis, barcos, aviões), arquitectura e ambiente (como o do Centaur Club), mantendo o legado de Jacobs constantemente presente neste seu trabalho.

Mas o cudado vai ainda mais além, mimando onomatopeias e “efeitos especiais” como explosões, o movimento do girar de uma maçaneta ou os flashes de alguém que retoma a consciência.

Para além disso, é Peter que assegura a colorização de todo o álbum, o que também já tinha acontecido com os dois volumes de O Vale dos Imortais. E se para estes estudou intensamente a paleta utilizada por Jacobs no segundo volume de O Mistério da Grande Pirâmide, agora a lição está mais que aprendida. Assim, até nas cores temos o estilo dos Blake e Mortimer originais.

Para todos os efeitos, este é um álbum Jacobs em estilo que, também neste ponto, Peter afirma sair-lhe naturalmente.

Segredos

Perguntei a Peter para quando a publicação em Portugal da sua obra maior, Rampokan. Limitou-se a dizer-me que depende do desejo dos editores portugueses.

Obra passada no tempo em que a Indonésia ainda fazia parte das Índias Orientais Holandesas, antes de 1949, e desenhada também ao estilo Linha Clara, foi reeditada há pouco tempo no mercado franco-belga e parece-me ter todo o interesse para Portugal.

Por fim, perguntei-lhe se ele e Teun iriam desenhar um novo Blake e Mortimer. Respondeu-me que não e que sim. “Não” porque os dois amigos acham que é chegada a altura de cada um desenhar o seu álbum. “Sim” porque cada um já tem uma aventura atribuída. E a Peter coube uma espécie de continuação de O Enigma da Atlântida. Mas parece que, ao contrário deste, a nova aventura não tem início em Portugal.

Ficamos na expectativa!

Painel fechado. Entrevista terminada. Momentos mais tarde deixei para trás a Comic Con para enfrentar a chuva que persistia em cair. Bem protegida, levava comigo uma lembrança deste encontro com Peter Van Dongen, que prova o legado de Jacobs.

Nota: podem ser visualizadas online 2 fotos desta entrevista aqui e aqui.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.