Os resultados de 2021 e plano para 2022.

A Ala dos Livros tem mostrado um número crescente de publicações de ano para ano. Se entre 2019 e 2020, aumentou a edição de livros de BD de 6 para 9 obras, em 2021 os livros de BD editados foram 14. Deste modo, se em 2020 eram a 8.ª editora que mais banda desenhada editou no nosso país, em 2021 ocupam o 5.º lugar, ex aequo com a G. Floy. A propósito destes dados, Ricardo Magalhães Pereira, um dos fundadores e editores da Ala dos Livros, refere que “não sabia desses números“. No entanto, adverte que “a edição não é uma maratona. Não temos por objetivo ser os maiores, os que mais editamos ou que mais prémios recebemos. Fazemos a edição da melhor forma que podemos e que sabemos dentro das nossas possibilidades, mas nunca escondemos que esta não é a nossa atividade principal.” A este propósito, Ricardo M. Pereira levanta uma pertinente questão – “ser uma editora como a Ala dos Livros e com o volume de publicação que temos a ocupar essa posição não dirá algo sobre a dimensão do nosso mercado?

O ano de 2021

Se a Ala dos Livros tem no seu catálogo alguns dos nomes da BD europeia que têm sido omnipresentes nas diferentes editoras que se dedicam à mesma, em 2021 também introduziu diversos autores que eram ainda inéditos em Portugal, como Thierry Gloris, Jacques Lamontagne e Mikaël (para além de cointroduzir Manu Larcenet com a Arte de Autor e A Seita), bem como outros autores inéditos no nosso país que partilharam álbuns com nomes conhecidos.

No que toca aos álbuns de 2021 mais vendidos, segundo os dados disponíveis até ao momento, a escolha do público recaiu nos dois livros que foram editados da série O Mercenário do barcelonês Vicente Segrelles, em O Corvo – Inimigos Íntimos do lisboeta Luís Louro e em O Burlão nas Índias (incluindo a edição de colecionador, com a tela) do lotois Alain Ayroles e do granadino Juanjo Guarnido.

De qualquer modo, Ricardo M. Pereira salienta que “ainda não temos dados de vendas «definitivos». Os dados mais fiáveis são os da venda na nossa loja on-line e os números são muito idênticos para todos os livros. Não seria correto comparar vendas globais de álbuns mais recentes, que estão no mercado há poucos meses, com outros do início do ano.” A nível de crítica refere que “há quem goste mais de uns livros do que de outros, mas são escolhas pessoais.

No que toca à influência da pandemia nos resultados obtidos, relembra que “nós começámos a editar praticamente em cima da pandemia – editámos 1 livro em 2018 e 6 títulos em 2019. Mais de metade do nosso catálogo «cresceu» na pandemia. Não temos por isso grande termo de comparação. Na verdade, e apesar de todos os constrangimentos, foram também, como consequência direta do aumento da oferta, dois anos de crescimento.

Quanto à possibilidade de em 2021 ter sido possível realizar os Festivais Internacionais de BD de Beja e Amadora, é da opinião que a relevância de tal não é tanto para o balanço das vendas realizadas mas “são sobretudo eventos muito importantes para os autores portugueses, quer pelo contacto com os leitores, quer com os outros colegas e autores internacionais.

O ano de 2022

Quanto ao recente anúncio do cancelamento da realização do festival de Angoulême pelo segundo ano consecutivo, acredita ser “o reflexo da incerteza que todos atravessamos.” De qualquer modo, refere que, para uma editora, “há muitos anos que Feiras e Festivais deixaram de ter o peso nos negócios que tinham no passado. As alterações na forma de comunicação e o desenvolvimento tecnológico permitem ter acesso à informação sem ser necessária a presença física.” No entanto, admite que “se perde a possibilidade de apresentar aos editores estrangeiros a nossa visão e projetos para alguns títulos em particular. Isso é algo que é mais fácil de fazer pessoalmente, mas que nem sempre é valorizado. E é evidente que as Feiras e os Festivais são agradáveis, pois possibilitam o contacto direto entre editores e autores. Há pessoas que consideramos amigos e «tradições» que gostamos sempre de poder rever e cumprir ou dar continuidade.

Algumas das obras já anunciadas pela editora para 2022 foram CoBrA – Operação Goa de Marco Calhorda e Daniel Maia e Os Covidiotas – Segunda Vaga de Luís Louro. Quanto a Little Tulip de Jerome Charyn e François Boucq, inicialmente anunciado para 2021, “o livro em português está legendado e é uma das obras que publicaremos no primeiro semestre de 2022.

O plano geral da editora é “continuar as séries já iniciadas e também a publicação de obras de autores portugueses“, refere Ricardo M. Pereira. “A reedição, noutros moldes, do tomo 1 da série Blacksad, a continuação da edição de O Mercenário ou Wild West 2 são algumas das obras que contamos editar já no primeiro semestre.” Faz ainda a revelação de que “em 2022, vamos inaugurar a Ala-infantil e a Ala-ficção – e esta com uma obra já publicada em vários países, incluindo os Estados Unidos, e que será garantidamente uma grande surpresa“.

Para 2022, está também planeada a conclusão da Trilogia do Eu de Antonio Altarriba e Keko, com a publicação do último volume.

O futuro

A propósito do primeiro livro editado pela editora em 2019, Beowulf de Santiago García e David Rubín, Ricardo M. Pereira confessa que um dia gostaria de regressar à obra de David Rubín. “Gostamos muito, nomeadamente os primeiros trabalhos“.

No que toca à eventual futura edição de BD de origem não-europeia pela Ala dos Livros, “gostaríamos de fazê-lo, mas a verdade é que, para já – e a mantermos a nossa capacidade de produção na média dos 15 livros por ano –, não nos é possível fazê-lo. Mas pode ser que surjam oportunidades, por isso nunca se sabe.

Quanto à continuação da edição das séries Comanche sem Hermann e Os Escorpiões do Deserto sem Hugo Pratt, refere ser um “um ponto que nos «divide». Comanche ou Hermann? Escorpiões ou Pratt?“, questiona. “Temos falado entre nós e eu considero que há autores que imprimiram um cunho tão forte a uma série que a continuação dessa série por outras pessoas – apesar de estar na moda –  não será, pelo menos para mim, uma prioridade. Não gostaria de entrar no caminho de «publicar» pela rentabilidade esperada do nome ou do personagem mais do que pela obra. E como temos tantas séries iniciadas que queremos fechar, este assunto vai sendo adiado“. E termina com uma revelação. “Mas há mais – verdadeiro – Pratt no horizonte.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de Sousa
Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.