Análise de Wild West vol. 1: Calamity Jane.

Pois! A culpa é de Hollywood! Mas antes disso, foi dos penny papers, das dime novels, da Guerra da Secessão e do telégrafo.

Os penny papers eram os jornais mais baratos nos EUA no século XIX. Artigos curtos, com um tom sensacionalista e um léxico reduzido de modo a ser facilmente lido pelas classes menos instruídas. As dime novels seguiam o mesmo princípio, mas em forma de ficção ou de pseudo-relato. E a Guerra da Secessão (1861-1895) inaugurou o conceito de guerra em directo (ou quase), com o envio de correspondentes para as linhas da frente de batalha e o envio dos seus relatos por telégrafo para as redacções dos jornais a milhares de quilómetros de distância.

O público começou assim a ter acesso aos relatos vívidos de xerifes destemidos, de foras-da-lei sanguinolentos, de índios selvagens e cruéis, de duelos míticos, de cavalgadas heroicas, tudo “embrulhado” no sensacionalismo necessário para vender mais papel impresso.

E depois, com o advento do cinema e, alguns anos mais tarde, com o surgimento da indústria cinematográfica de Hollywood, todos aqueles elementos que já entretinham muitos milhares passaram a deslumbrar milhões e a mitificar e tornar lendárias figuras do “velho” Oeste, colocando-as, quase sempre, bem longe da realidade e rodeadas de clichés.

Mas ao tentar encantar multidões, Hollywood acabou por as cansar, e o género Western, tão popular nos períodos entre os anos 10 e os anos 50 do século XX, acabou por entrar num declínio acelerado e por afastar leitores e espectadores.

Contudo, o género ganha novo fôlego já no século XXI com uma corrente de escritores hiper-realistas e com séries de televisão, das quais destaco Deadwood da HBO.

No universo da 9.ª Arte, esta tendência hiper-realista também se encontra em várias obras e na recente proliferação de séries Western.

Sem dúvida, uma a destacar, por vários factores que veremos mais a diante, é Wild West, de Thierry Gloris e de Jacques Lamontagne, da qual a Ala dos Livros já publicou o primeiro volume com o título Calamity Jane (cf. previews e ficha técnica da edição portuguesa aqui), preparando-se para lançar o segundo volume este ano.

Vamos à história!

Na imensa planície árida do Utah, uma família dirige-se na sua caravana para o horizonte a céu aberto com destino a um futuro melhor. A mais jovem das crianças dedilha as cordas de um banjo enquanto vai cantando “Oh Susanna”.

Ao cair da noite, a viagem é interrompida e a família janta à luz de uma fogueira e de um candeeiro a petróleo. O jovem rapaz continua a tocar o seu banjo e a cantar para os seus pais e irmã.

Por entre o doce crepitar do fogo, faz-se ouvir o estalar de um ramo seco. A família vira o seu olhar na direcção do ruído. Do negrume da noite surgem três homens armados com colts e carabinas. Enquanto o pai é morto com um tiro, a mãe é estrangulada e as duas crianças, que se metem em fuga, são abatidas pelas costas sem piedade. E a caravana é incendiada como que dando as boas vindas ao inferno do Oeste.

Nove meses depois, no Kansas, Granton Albow está na latrina a alguns metros da sua cabana. Enquanto faz as suas necessidades, também ele toca no seu banjo a popular melodia de “Oh! Susanna”. Lá fora, a coberto de uma árvore, James Butler Hickok, caçador de prémios, aguarda por Granton, acusado de assassinato e roubo. Abate-o a sangue frio, à porta da latrina, sem este ter sequer tido tempo de vestir as calças.

Wild Bill Hickok parte para Omaha, onde espera receber a recompensa pela morte do fora-da-lei. E é lá, no saloon Red Fox, que também serve de bordel, que trabalha uma jovem de nome Martha Cannary. Mas ao contrário das outras mulheres que povoam o salão enfumarado, Martha não se prostitui. Sendo órfã, como meio de subsistência, ela sujeita-se a fazer a limpeza dos quartos e a servir às mesas.

Mas no Oeste Selvagem, até servir às mesas pode ser uma profissão perigosa. Lou Cooper é um bêbado cheio de bravata e acha que por dois dólares consegue que Martha aceite ir para a cama com ele e ganhar o prémio que é a virgindade dela. Mas ela recusa. O homem agarra-a e o desenlace parece inevitável até que Buck, encarregado da segurança do saloon, intervém violentamente e acaba por o atirar para a rua enlameada.

Horas mais tarde, após o fecho do saloon, Martha sai para o escuro da noite e dirige-se à pocilga onde os porcos aguardam pelos restos do dia. Mas outro suíno aguarda por ela nas sombras. Agora Martha está sozinha e não tem ninguém que a defenda do despeitado Lou Cooper. Deitada na lama, Martha sente o peso do cão raivoso que a penetra incessantemente, enquanto ela é arrastada para as profundezas do abismo.

Buck surpreende o cowboy de calças na mão e abate-o sem hesitar. Mas para a bela Martha é agora demasiado tarde para voltar atrás.

Esta vai ser a sua história!

Este é um álbum sem concessões!

Aquela imagem romântica, que Hollywood nos vendeu, do cowboy solitário, dos grandes duelos, das batalhas heroicas contra os índios e dos grandes amores que surgem do nada nas extensas planícies, tudo isto é para pôr de parte.

O argumento de Thierry Gloris é cru e violentíssimo a vários níveis, quase nos molestando com o realismo impresso nos mais pequenos detalhes da narrativa. O Faroeste hostil e selvagem molda a paisagem tanto quanto molda os homens e Gloris, logo nas primeiras pranchas, mergulha o leitor no inferno que era viver nas terras selvagens dos Estados Unidos na segunda metade do século XIX. Sem qualquer razão, uma família é chacinada por três pistoleiros que não voltaremos a ver. E parecendo não convencido de ter dado o mote ao leitor, Gloris coloca na prancha final desta cena nova situação de violência extrema na qual assistimos ao abate de um fora-da-lei à saída de uma latrina, ainda sem calças. De uma cena para a outra, somos desconcertados pela “banda sonora” que nos parece a despropósito – o êxito de 1847, “Oh Susanna”.

Sem termos grande tempo para respirar, Gloris liquida rapidamente os cânones do Western clássico e faz-nos mergulhar de cabeça numa sociedade sem lei nem grei, na qual o Homem acaba sempre por mostrar a sua parte de besta. Sexo, manipulação, vingança, desafio, glória, batotice, logro, sujidade: este é o perfil dos jovens de fronteira da época e dos homens que sobem a pulso nas vilas-cogumelo que surgem do nada, à medida que o Oeste vai sendo desbravado. Estamos na fronteira onde a Humanidade termina e os homens estão bem abaixo dos coiotes raivosos da pradaria.

É neste universo implacável que a jovem órfã Martha Cannary tenta sobreviver sem acabar como grande parte das jovens no Oeste, nas mãos de proxenetas sem moral e a prostituírem-se por dois dólares.

O argumento está muito bem construído e a narração é fluída e imersiva, envolvendo-nos por completo no ambiente que, por via do desenho, é extremamente detalhado. E ainda que muito do que nos é contado acerca da vida de Martha Cannary seja a visão que dela têm os autores — pois da lendária Calamity Jane não se sabe muito com rigor —, nem por isso este álbum deixa de ser uma verdadeira lição acerca dos usos e costumes da época, nestas regiões onde a chegada do caminho-de-ferro começa a trazer, por fim, alguns vislumbres de civilização.

Um dos muitos exemplos que poderia referir é o da página 9. Depois de uma prostituta “despachar” um jovem soldado, faz a sua higiene por trás de um biombo. Não havendo água corrente nestas cidades do Oeste, Jane (todas as prostitutas têm o nome Jane) faz a lavagem em pé, de pernas abertas, com a água suja de uma bacia, já utilizada muitas vezes no dia. E esta é só a primeira vinheta. Ao longo das 7 vinhetas seguintes, vemos que a prostituta não se depila debaixo dos braços (isso seria uma modernice de meados do século XX); que existe uma hierarquia no bordel, sendo que Martha está no nível mais baixo e cabe a ela a limpeza dos quartos após cada utilização; qual a razão para todas as prostitutas se chamarem Jane; e que, nestes bordéis, a frequência oscilava entre o cowboy que não toma banho há várias semanas e o médico de cartola.

Cada página ganha um carácter quase enciclopédico nas mãos de Thierry Gloris e de Jacques Lamontagne, tal é a quantidade de detalhes à disposição do leitor mais atento. Com eles, ficamos a conhecer as miseráveis condições de vida dos homens e mulheres que apostavam o futuro no Oeste americano, onde alguns podem construir fortunas e muitos mais podem morrer de morte violenta. E onde as mulheres, pouco numerosas neste Oeste Selvagem, levam uma vida sofrida e são frequentemente condenadas à prostituição por homens golpistas e violentos. Mas também começamos a antever o choque que se adivinha entre uma sociedade selvática e a civilização que chega com o caminho-de-ferro que começa a atravessar o continente, trazendo com ele riquezas, bens essenciais, luxos e leis — o inevitável choque entre a desordem e a ordem.

Esta história revisitada e romanceada de Martha Cannary (futura Calamity Jane) é também a de outra figura lendária do Oeste americano, Wild Bill Hickok, que neste álbum surge ainda e quase como actor secundário. E se Thierry Gloris tomou muitas liberdades no argumento, nem por isso deixamos de ser fascinados pela história que conta e pela maneira como a narra. E a credibilidade do álbum é aumentada pelo desenho de Jacques Lamontagne.

Para quem conhece Lamontagne (entre outras, desenhador das séries Les Druides, Shelton et Felter ou, a minha favorita, Aspic Détectives de l’Étrange), ele surpreende, não pelo desenho em si, que é magnífico, mas pelo registo. O traço é realista e extremamente detalhado. As pranchas nocturnas, alumiadas por candeeiros a petróleo ou pelas labaredas de fogueiras são magníficas e Lamontagne é exímio na gestão que faz da luz.

Na verdade, os grandes espaços abertos e luminosos que nos habituamos a ver nos westerns dão lugar aqui a ambientes predominantemente nocturnos, invernosos ou confinados ao pesado ambiente do saloon e da cidade. O resultado é uma história sombria, sórdida, opressiva, que se desenrola num universo à porta fechada deveras violento.

Sem dúvida, o desenho de Lamontagne acentua ainda mais a nossa imersão na história, fazendo-nos ignorar até a sala onde estamos a ler ou as vozes que ecoam distantes e difusas à nossa volta. Nomeadamente, com a expressividade incrível das faces rudes e agastadas dos homens que contrastam com as faces doces das mulheres. Tudo muito credível e convincente.

Cada vinheta, cada prancha, fervilha de detalhes e o cuidado que lhes é dedicado é notável. Os cenários são criados com uma enorme minucia, lembrando por vezes as pinturas dos grandes mestres do Romantismo. E as cores, também obra de Lamontagne, resultantes de uma paleta muito variada, são também escolhidas na perfeição tendo em consideração o ambiente e o efeito que se quer gerar em cada cena. A primazia, contudo, é dada a uma paleta mais sombria e fria que se apropria mais à narrativa.

Praticamente, cada vinheta é um quadro. E até a capa deste álbum é um retrato de uma intensidade impressionante. Observá-lo, após termos terminado a leitura da história, é mergulharmos na alma de Martha Cannary.

Tudo isto concorre para que o conjunto gráfico seja muito belo e se atreva na adjectivação de obra-prima.

Mais que um excelente Western, o primeiro volume de Wild West é um enorme fresco do que era a vida nos “territórios de fronteira” no Oeste Selvagem americano na segunda metade do século XIX. O pretexto é a história e destino de uma jovem mulher que viria a tornar-se lendária e como conseguiu sobreviver em 1867 à dureza infernal do Oeste. No meio de toda a violência, ficamos a aguardar com impaciência o segundo álbum e a transformação de Martha Cannary na famosa Calamity Jane.

Se a culpa de nos afastarmos dos Westerns foi de Hollywood, a culpa de voltarmos a eles é de Gloris e Lamontagne (e de uns quantos outros!).

EXTRAS

Dois exemplos para melhor se poder apreciar o traço de Lamontagne e os seus dotes como colorista.

Todo o processo de criação de uma prancha por Lamontagne.

Alguns esboços e composições de Lamontagne:

Capa de uma edição especial francesa:

Algumas “saloon girls” contemporâneas de Martha Cannary:

Wild Bill Hickok e Calamity Jane, os verdadeiros!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.